Angola: o general que se segue

Estudou na União Soviética e gosta de xadrez. Ao fim de duas décadas na sombra, João Lourenço é o homem da continuidade. Apoio dos militares foi fundamental para a ascensão.

Quando João Lourenço foi conhecido como o candidato do MPLA às eleições presidenciais de 2017, não houve vagas de fundo pela continuidade de José Eduardo dos Santos. Não houve movimentos de contestação ao novo líder ou sequer um mínimo sinal de que a decisão era pouco consensual. Há quase 20 anos em cargos políticos, Lourenço ganhou apoios indispensáveis para hoje ser visto como uma figura consensual para assegurar a transição. Como jogador de xadrez, sabe que o momento de um ataque é tão importante como a peça a movimentar.

“É um homem do regime”, sintetiza Paulo Guilherme, editor do Africa Monitor, que presta serviços de análise estratégica sobre países africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). “O seu pensamento político é o pensamento do partido. Não é uma figura carismática, mas pela sua antiga militância e relevo dos cargos ocupados no partido, ao nível da coordenação, e no governo, mais recentemente em pastas sensíveis como a Defesa, conhece o aparelho partidário provavelmente como ninguém”.
João Lourenço teve uma ascensão quase ininterrupta dentro do partido desde a independência do país. Até subir a vice-presidente do MPLA em Agosto último, foi comissário político, secretário-geral do partido e ministro da Defesa. É conhecido pela dedicação ao partido, pelo “espírito de corpo”. Bem visto pela hierarquia, elogiam-lhe o sentido de Estado.

“É talvez a figura mais consensual, também pela sua longa e destacada militância. O facto de também ter o reconhecimento e o respeito da hierarquia militar dá-lhe condições únicas para ser um elemento unificador do regime num momento em que este vive a maior ameaça existencial às suas fontes de poder e de rendimento desde o final da guerra civil. José Eduardo dos Santos sabe que ele tem estas condições e por isso o escolheu”, considera o analista do Africa Monitor, que lembra a forma como João Lourenço subiu a secretário-geral do MPLA.

Num congresso do MPLA em 1998, Lourenço disputa o cargo contra Lopo do Nascimento, que estava na oposição interna ao Presidente. Numa primeira votação, por voto secreto, Lopo ganha. A votação é depois repetida, mas de braço no ar. “Intimidados, muitos dirigentes deram o seu voto a João Lourenço, que acabou por ganhar aquele que ficou conhecido como o ‘congresso da batota’. Serviu como prova de lealdade a José Eduardo dos Santos e, de então em diante, Lourenço funcionou, de forma algo acrítica, como o ‘braço’ de José Eduardo dos Santos no partido”.

Um incidente com o Presidente
Mas ter passado a funcionar como apoio da presidência no partido não impediu que tivesse sido alvo das técnicas de gestão de poder que mantiveram o ainda Presidente no poder, durante 37 anos. Uma delas é simples: o que o Presidente dá, o Presidente tira. Em 2003, José Eduardo dos Santos tinha dado indicações de que iria retirar-se. Lourenço apareceu em público a defender que a palavra o Presidente tinha de ser cumprida e isso foi o suficiente para o secretário-geral do MPLA ser visto como uma fonte de contestação ao poder do Presidente. Houve consequências. Foi afastado de secretário-geral e a travessia no deserto só foi ultrapassada em 2014, quando foi nomeado para ministro da Defesa.

Alex Vines, investigador da Chatham House, um “think tank” de política internacional, lembra que este episódio fez o ministro da Defesa sair das “graças” de José Eduardo dos Santos pelo menos uma vez. Agora, pode unir o partido e garantir uma transição suave. “É extremamente experiente em política partidária. O apoio das forças armadas também é importante”.
O gene político de João Lourenço tem antecedentes militares. Nascido há 62 anos na cidade do Lobito, conviveu desde novo com a contestação da família ao regime de Salazar. O pai, um enfermeiro do Porto do Lobito nascido em Malange, foi um dos opositores à ditadura portuguesa e a família sofreu na pele essa opção de vida. João teve de fazer os estudos primários e secundários na província do Bié, onde o pai esteve em regime de residência vigiada durante dez anos, depois de ter estado preso três anos na prisão de São Paulo em Luanda, pela actividade política clandestina.

Depois de completar os estudos no então Instituto Industrial de Luanda, que coincidem com o final da ditadura em Portugal, junta-se à luta de libertação nacional. Participa em combates na fronteira contra a coligação FNLA/Exército Zairense e, a partir do morro do Tchizo em Cabinda, integra o primeiro grupo de combatentes que entraram em território nacional.
É enviado para a União Soviética com uma bolsa de estudo e entre 1978 e 1982 está na Academia Superior Lénine. Tem formação militar com os soviéticos e do frio também trouxe um canudo em Ciências Históricas. Esteve envolvido na guerra em diferentes escalões militares e hoje é general na reserva.

Estudos em Moscovo
O pensamento económico é mais difícil de trilhar. Os estudos na União Soviética incutiram-lhe a doutrina marxista-leninista, mas no final dos anos 90 o MPLA reviu o seu posicionamento e incorporou uma visão mais pró-mercado. O que mudará serão sobretudo procedimentos e não orientações de fundo do regime. “Não se deve esperar demasiado. Primeiro, pouco mudará até às eleições. Caso, como é previsível, o MPLA ganhe, a definição e execução de políticas pelo Executivo deverá ganhar rapidez de resposta e capacidade de antecipação, algo que faltou sobremaneira até 2014”, antecipa Paulo Guilherme.

O ímpeto reformista só poderá ser avaliado quando José Eduardo dos Santos sair de cena definitivamente. “Há uma nova geração no MPLA, muitos deles filhos da elite formados no estrangeiro, que anseia por assumir cargos de governação que muitas vezes estão reservados, por critério de antiguidade, a personalidades de maior renome e com carreira políticas mais longas. Lourenço terá de gerir esta tensão”, acrescenta o analista.

As primeiras declarações de Lourenço após o seu nome ser conhecido mostram um quase total alinhamento com José Eduardo dos Santos. Mostrando-se “surpreendido” com a indicação, defendeu que Angola precisa de mais disciplina e organização, uma ideia também defendida por José Eduardo dos Santos. “É por aí onde a gente tem que atacar, temos que imprimir a necessidade de haver maior rigor, maior disciplina em todo o trabalho que realizamos. Portanto, brincadeira é brincadeira, trabalho é trabalho, e temos que levar o trabalho a sério”, afirmou à imprensa o candidato do MPLA.

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