Angolano BFA vai para a bolsa com ações do BPI

Empresária Isabel dos Santos diz que o produto da venda será utilizado na expansão da instituição financeira em África e na Ásia.

Toby Melville/Reuters

A entrada em bolsa do Banco de Fomento de Angola (BFA) vai ser feita com a venda de parte da participação que o português BPI detém na instituição financeira angolana, segundo os dados recolhidos pelo Jornal Económico junto de fontes que estão a acompanhar o processo.

Segundo o Jornal Económico soube, a entrada em bolsa do BFA, que é detido em 51,9% pela Unitel (que por sua vez é controlada por Isabel dos Santos) e em 48,1% pelo BPI, está a ser elaborada em conjunto com o banco português dominado pelo CaixaBank. O BPI não comenta.

Segundo a mesma fonte conhecedora do processo, o BPI será essencialmente o vendedor dessa participação.

A venda em bolsa de parte da sua posição no BFA vem de encontro a uma recomendação do BCE ao CaixaBank, dono maioritário do BPI, com 84,5%. O BCE recomenda que o BPI vá reduzindo a sua exposição a Angola, coisa que o CaixaBank e o próprio CEO do BPI, Pablo Forero, já admitiram ser um objectivo estratégico, embora sem prazo de concretização.

Confrontada com a possibilidade de venda das acções do BPI no BFA, no IPO anunciado por Isabel dos Santos, fonte oficial do CaixaBank respondeu: “Não vamos fazer nenhum comentário”.

A empresária angolana Isabel dos Santos, que controla o BFA, anunciou, no Fórum África no Egipto, citada pela agência Bloomberg, que os accionistas da instituição financeira angolana estão a preparar uma oferta pública inicial (IPO) do banco.

“A operação deverá incidir sobre 25% do capital do BFA e deverá ser realizada no primeiro trimestre de 2019”, disse Isabel dos Santos à Bloomberg.

Em relação ao mercado onde o BFA vai admitir as acções à cotação, persiste a incógnita. “Ainda estamos a discutir sobre qual seria o melhor local, se Londres ou Lisboa”, disse a empresária angolana à Bloomberg. “Mas já deixámos clara a nossa intenção ao banco central de Angola e a recepção foi positiva”, admitiu Isabel dos Santos.

Tendo em vista a entrada em bolsa do BFA, “contratámos alguns conselheiros financeiros” para ajudarem a organizar a operação, adiantou Isabel dos Santos. O Jornal Económico tentou obter o nome do banco de investimento que estaria a preparar a operação mas não foi possível, nem sequer foi possível confirmar o envolvimento (expectável) do banco de investimento do BPI na operação. A possibilidade de ser o Haitong Bank, que terá em comum com o BFA um administrador não executivo (António Domingues), não se confirma. O Haitong não está com esta operação, nem com a venda privada de uma participação do BIC.

A empresária angolana revelou também a intenção de vender uma participação do Banco BIC, que tem sede em Luanda. Neste caso seria através de uma colocação privada de ações.

Apesar de ainda não ter sido decidido qual a percentagem do capital do BIC que será vendida, esta operação deverá ocorrer ainda no primeiro trimestre de 2018. Um roadshow para encontrar investidores decorrerá no primeiro trimestre do próximo ano. Recorde-se que Isabel dos Santos tem 43% do BIC e está nos órgãos sociais. Mas também aqui há questões por responder. Qual será a nacionalidade do novo investidor? Aparentemente Isabel dos Santos procura um player do sector bancário para parceiro no BIC.

Isabel dos Santos disse que o BIC já tem montada uma equipa para estudar a oferta de ações e também aqui foram escolhidos consultores financeiros para a venda. O banco tem operações em Angola, Namíbia, Cabo Verde e Portugal e usará o encaixe da venda de ações para financiar a expansão e está à procura de oportunidades de investimento em África e na Ásia, disse Isabel dos Santos: “Estamos a analisar fusões, estamos a analisar as aquisições. Temos um plano bastante agressivo de aquisições de instituições e de aquisição de licenças bancárias”, disse.

“Estes bancos [BFA e BIC] têm vindo a fortalecer-se e penso que agora é altura de abrirem o seu capital e receberem novos acionistas”, afirmou Isabel dos Santos, que acrescentou que no caso do BIC seria preferível um accionista que já atuasse no sector bancário.

Por saber está ainda se haverá algum impacto para o EuroBic em Portugal.

Investimento na Galp “é estável” e NOS é para manter

A empresária falou ainda à Bloomberg sobre a sua saída da Sonangol, algo que considerou “normal”, uma vez que houve uma mudança de poder em Angola. E diz que esta questão não vai afectar o seu investimento na Galp Energia, onde detém uma participação indirecta através de uma holding, que inclui a Sonangol e os herdeiros de Américo Amorim, e que tem 33,4% da petrolífera portuguesa. “Isto são duas coisas diferentes”, sublinhou. “O investimento na Galp é um investimento muito antigo, remonta a 2008. É um investimento estável”, salientou a empresária.

Sobre a operadora de telecomunicações NOS, Isabel dos Santos diz que continua feliz com o investimento na operadora e que tenciona manter este investimento, que é detido através de uma joint venture com a Sonae. “Gosto de pensar que o nosso investimento na NOS é um investimento que permitirá à operadora gerar mais crescimento e olhar para a possibilidade de crescer noutras áreas, quer dentro quer fora de Portugal”, disse.

Em Angola, o governo de João Lourenço também planeia vender uma participação minoritária num operador de telecomunicações estatal e quer realizar um leilão para vender o quarto operador da indústria de telecomunicações, movimentos que podem ameaçar a quota de mercado da Unitel, diz a Bloomberg.

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