“Animal Farm”, ou a metáfora para a “jaula” da vida moderna

O Museu do Oriente acolhe a nova exposição do fotógrafo taiwanês Chou Ching-hui, que transformou as jaulas usadas em jardins zoológicos na figura de estilo por excelência da sociedade contemporânea. Uma provocação? Eis um convite para sair da zona de conforto, já a partir de 14 de julho.

Chou Ching-hui

“Apesar da presunção de veracidade que confere a todas as fotografias autoridade, interesse, sedução, o trabalho que os fotógrafos fazem não é exceção genérica ao comércio geralmente obscuro entre arte e verdade. Mesmo quando os fotógrafos estão mais preocupados em espelhar a realidade, não deixam de ser assombrados por imperativos tácitos de gosto e consciência”.

Susan Sontag assim discorre nos seus “Ensaios sobre fotografia” acerca da “presunção de veracidade” das fotografias, mas neste encontro com “Animal Farm”, do fotógrafo taiwanês Chou Ching-hui, que passou cinco anos a desenvolver o conceito em torno da “jaula” – originalmente de jardins zoológicos, mas qui metamorfoseados na “jaula” do quotidiano da sociedade contemporânea – , mais do que a veracidade, o que lhe interessa é a mise en scène para fazer passar a mensagem.

Saberemos desfrutar da vida? Seremos escravos da tecnologia? Do estatuto social? Do trabalho? Temos plana consciência do que fazemos? Seguimos modas? Escolhemos?

Esta exposição apresenta três temas que fazem alusão às “jaulas” ou gaiolas invisíveis da vida moderna: Consciência do Comportamento Colectivo; Consciência da Sobrevivência e Consciência do Corpo. Cada tema é apresentado através de nove fotografias de grande escala captadas em jardins zoológicos [Animal Farm No. 1 a 9], nove vídeos gravados em estúdio e num aterro, retratos e instalações.

Voltamos a Sontag, para quem os fotógrafos mais do que meros registos da vida, daquilo que os rodeiam, são intépretes do meio. Chou regista, interpreta, provoca. Interpela, por vezes, como na fotografia “Animal Farm No.8, onde questiona a excessiva dependência face às tecnologias de comunicação na criação de relações sociais, a solidão e o vazio subjacentes.

Ou, no segundo núcleo, dedicado à Consciência da Sobrevivência, em “Animal Farm No. 4” quando põe o dedo na ferida que é a pressão social em torno dos papéis atribuídos a homens e mulheres, ou ainda no terceiro núcleo, quando critica o papel da cultura dos influenciadores digitais no perpetuar dos ideais de beleza e as indústrias que mercantilizam o corpo.

Da realidade ao conceptual

Chou Ching-hui (1965-) licenciou-se em Jornalismo pelo World College of Journalism, em Taipé, capital de Taiwan, tendo trabalhado como fotorepórter para meios de comunicação locais como “Capitol Morning News”, a revista “The Journalist” e o “China Times Weekly”. Em meados da década de 90 iniciou-se na criação fotográfica propriamente dita, sendo hoje um dos fotógrafos contemporâneos mais representativos de Taiwan.

Os seus três primeiros projetos – “Out of the Shadows”, “Vanishing Leagues: Images of Workers”, e “Wild Aspirations: The Yellow Sheep River Project” – eram compostos por registos documentais de realidades sociais, cuja apresentação tinha um cunho artístico.

“Animal Farm” é o primeiro projeto em que a “fotografia documental” deu lugar à “fotografia conceptual”, utilizando uma camada hiper-real, e também teatral, para construir uma linguagem fotográfica muito própria.

Nos últimos anos, as obras de Chou têm recebido uma grande atenção internacional, tendo sido expostas em países como Alemanha, Reino Unido, Itália, Israel, Austrália e Canadá, Hong Kong, Japão, Singapura, China e Rússia. No plano internacional, destaque para as exposições individuais mais recentes: “The Yellow Sheep River Project” no Istituto degli Innocenti, Itália; “Theatre of Reality” em DECK, Singapura; “Animal Farm” na Galeria Chelouche, Israel, e agora no Museu do Oriente, Portugal.

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