Anja Monrad: “Um retalhista disse-me: sabe quantas mozarelas tenho de vender para investir em tecnologia?”

A ‘general manager’ da Dell Technologies na Europa Ocidental esteve em Portugal e disse ao Jornal Económico que já há empresas a querer reverter a opção pela ‘cloud’ pública para software ‘on-premise’. A tecnológica norte-americana apresenta contas trimestrais esta segunda-feira.

A Dell Technologies, uma das mais conhecidas empresas norte-americanas de hardware, apresenta esta segunda-feira, depois do fecho de Wall Street, os resultados do terceiro trimestre do ano fiscal de 2023. Os analistas antecipam que a tecnológica do Texas divulgue um lucro por ação de 1,60 dólares e uma guidance (orientação) positiva para os próximos meses.

No segundo trimestre, a Dell Technologies teve receitas recorde de 26,4 mil milhões de dólares, mais 9% do que no mesmo período do ano passado, à boleia do crescimento do Client Solutions Group e do Infrastructure Solutions Group. Já no primeiro trimestre o lucro da Dell Technologies havia subido significativamente, 62%, para 1,07 mil milhões de dólares.

Recentemente, o Jornal Económico (JE) esteve à conversa com um dos principais rostos do negócio europeu da Dell Technologies, mais precisamente Anja Monrad, que é vice-presidente sénior e general manager na Europa Ocidental. De passagem por Lisboa, a gestora dinamarquesa de 56 anos garante ter desfrutado “de cada ano da sua vida”, nomeadamente os 30 no sector das Tecnologias da Informação (TI), e diz que confia no que os portugueses estão a fazer neste mercado.

Anja Monrad admite ainda que um grupo italiano do retalho comparou, em jeito de brincadeira, a venda de mozarelas ao investimento em tecnologia. Mas o mais curioso é: essa empresa é uma das que querem reverter a opção pela cloud pública para software on-premise.

Tem uma carreira de três décadas, experienciou a dot com, o crescimento das tecnológicas durante a pandemia, agora o nascimento de tendências como o “quiet quitting”… A tecnologia ainda é a melhor área para se estar?

Quando comecei formei-me na área de Negócios e não tinha qualquer ambição de trabalhar em TI. Pensava que era um sítio nerd para se estar, mas acabei por entrar e apaixonar-me não pela tecnologia em si, mas pelo impacto que tem sociedade. Ao longo desses 30 anos continuámos a desenvolver tecnologias importantes para as pessoas e nos últimos dois anos parece que a realidade se alinhou com o sonho que temos estado a vender, porque a tecnologia foi ainda mais importante nessa altura. Todos os dias descubro novas situações nas quais o mundo sem tecnologia não estaria a funcionar. Sou uma otimista da tecnologia, portanto acredito que tornará as coisas melhores e não piores. Se olharmos para a sociedade nos últimos anos e para tudo o que está a acontecer no mundo, a tecnologia é definitivamente a indústria para estar, assim como a saúde, a energia e a defesa. É o que digo aos estudantes quando me perguntam. Tivemos a Great Resignation (“Grande Demissão”) e ela afetou, primeiramente, as áreas que estavam com excesso de trabalho, entre as quais a tecnologia, porque estávamos a viver os maiores anos de trabalho.

A “Grande Demissão” foi o tema do primeiro artigo que escreveu este ano, depois de ouvir a famosa música dos Clash “Should I Stay or Should I Go”. Aconselhou os líderes a torná-la numa “grande oportunidade”. Estamos a chegar ao fim de 2022. Acha que a mensagem foi recebida?

Acho que alguns fizeram-no. Como em tudo, há boa liderança e má liderança. Os bons líderes são aqueles que vão sobreviver [no mercado], o que passa por contratar as equipas certas. A Dell tem-no feito, apesar de também termos uma taxa de atrito elevada (“attrition rate”). Mostrámos aos nossos colaboradores que nos preocupamos, fizemos e estamos a fazer investimentos para que as pessoas se sintam bem na empresa. Na minha opinião, não demos ninguém como adquirido. Eu própria mudei de funções na pandemia e comecei a trabalhar com uma nova equipa, com a Isabel [Reis, diretora geral da Dell Technologies Portugal]. Não é propriamente fácil mudar de equipa [internacional] quando não se está a viajar para reuniões. Encontrámos o equilíbrio certo neste mundo híbrido? Não me parece. Ainda há trabalho a fazer.

Já sente retração nos investimentos por parte dos clientes, perante este contexto macroeconómico?

A tecnologia conduziu a economia em que estamos a viver. A tecnologia é a resposta para quase tudo: quer estejamos preocupados com a redução de custos – é a melhor maneira de aumentar a eficiência e a produtividade – quer queiramos ganhar quota de mercado – está lá para transformar os negócios em oportunidades melhores. Se estou a ouvir muitas preocupações? Claro que sim. No mês passado, tive uma reunião com um grande retalhista em Itália e ele disse-me: “Você sabe quantas mozarelas tenho de vender para conseguir investir nisto?” ao que respondi: “Não, nem por isso”. Mas é assim que eles olham para isto. Neste mundo em que vivemos agora eles têm de fazer muito dinheiro no que vendem para poderem investir. Hoje olham mais para os custos energéticos, que estão a subir e são uma inquietação.

E esse retalhista assinou novo contrato convosco?

Espero que assine. Estivemos na finalização disso mesmo e abrangerá duas áreas: trazer as suas soluções na cloud pública de volta para on-premise [software local] para reduzir despesas e aumentar a rapidez das operações. Foi uma conversa muito interessante, porque eles tornaram-se cloud first e, provavelmente, não compreenderam bem todo o cloud first ou ser cloud independentemente do que for preciso. Não deve ser assim, mas haver cloud híbrida, multi-cloud, workload-based… Por isso, estão a trazer as soluções de volta. Espero que os convençamos em fazer essa jornada connosco. O que vemos é que os projetos [de investimento tecnológica] não estão a ser cancelados, mas sim adiados algumas semanas ou meses. Não acho que estejam mais racionais, porque os nossos clientes são bastante racionais, mas têm de parar e pensar: “Bem, tenho de vender muitas mozarelas esta semana para investir nisto”.

Em 2021 deixou a pasta da Europa Central e de Leste, com 32 países para liderar, para esta nova função, como mencionou. Quais os objetivos para Portugal?

Cada cultura tem as suas especificidades. Não estou a tentar ser uma especialista em Portugal e nunca serei. O meu trabalho é recrutar os melhores profissionais em Portugal, que conhecem o país. Confiar que sabem o que estão a fazer e ajudá-los a tentar atingir o que pretendem para ser os melhores aqui.

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