O ano dos impossíveis

2016 ficará na história como o ano dos impossíveis. Um pouco por todo o lado, o que parecia inalcançável acabou por suceder.

Na Europa, o Brexit. Deitámo-nos a 22 de junho convencidos de que nada mudaria e acordámos no dia seguinte à deriva num oceano de incertezas. Voto de protesto contra o establishment, dizem uns. Voto num logro de impossível concretização, dizem outros. Muita água correrá ainda, e talvez sejam necessários vários anos até vermos com clareza o desfecho. Mas uma coisa é certa: a relação do Reino Unido com a Europa não voltará a ser a mesma.

Nos EUA, Trump. Ainda ninguém percebeu completamente como é que em pleno século XXI, o país mais avançado do mundo, supostamente com as melhores elites, com dados económicos animadores e sem qualquer conflito social sério (pelo menos comparando com outros do seu passado), elege para Presidente alguém com o discurso menos sofisticado da sua história política recente (mesmo incluindo George W. Bush). A retórica do candidato Trump pôs em causa grande parte do que custou à civilização ocidental muitos séculos a construir nos campos dos direitos humanos e cívicos, da paz e dos direitos económicos. Resta saber o que nos reservará o Presidente Trump.

No Brasil, o impeachment de Dilma. Depois de Fernando Collor de Mello em 1992, a destituição de um Presidente não foi inédita no Brasil. Mas a perversão do processo foi total. Não ficou claro que existissem razões constitucionais para afastar Dilma (a prática de certos crimes), ainda que as críticas à sua política fossem justas. Os principais impulsionadores do golpe eram, eles sim, suspeitos de crimes perante a justiça. Dilma caiu. Vendo de fora, foi bom para o Brasil deixar de ter Dilma. Mas, não se provando os tais crimes que justificariam o impeachment, deveria ter caído antes em eleições. O mundo ficou a conhecer melhor o funcionamento da democracia no Brasil e um pouco mais descrente no enorme potencial que este país continua a parecer ter.

Na ONU, Guterres. Considerações de geopolítica levavam a que se olhasse para ele como um candidato com poucas hipóteses de sucesso. Partiu no fundo de pelotão. No entanto, as suas indiscutíveis qualidades humanas, intelectuais, cívicas e políticas projetaram-no para a frente. E nem a tentativa da Alemanha e da Comissão Europeia de pôr um pau na roda da bicicleta já perto da meta o impediram de chegar em primeiro. Venceu o mérito, o que nem sempre acontece.

Por cá, o Governo. Quando Costa chegou a São Bento, sem ter ganho as eleições, apoiado por Catarina e Jerónimo, poucos apostavam na longevidade da solução, prontamente apelidada de geringonça. Um ano volvido, com resultados acima do esperado, até a nível económico, poucos não apostam.

No Campeonato da Europa, Portugal. Antes de começar o torneio, as casas de apostas pagavam fortunas pela vitória da selecção nacional, tal a improbabilidade. No final da fase de grupos, e apesar da qualificação, parecia ainda menos possível, dado o pouco que até aí se mostrara. No entanto, a muita raça e vontade dos jogadores liderados pela crença inabalável de Fernando Santos e uma dose (generosa) de sorte permitiram concretizar o sonho de só regressar a casa no dia 11 de julho com a taça na mala.

E você, arrisca previsões para 2017?

 

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