António Costa entre os egoísmos e a responsabilidade

Na política, tal como na sociedade, vivemos um tempo de egoísmos e de procura de ganhos de causa momentâneos que se sobrepõem à preocupação com o bem comum e com o longo prazo. Há pouco mais de uma semana, contra todas as expetativas, a coligação PSD-CDS venceu as eleições legislativas. Dito de outro modo, a […]


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Na política, tal como na sociedade, vivemos um tempo de egoísmos e de procura de ganhos de causa momentâneos que se sobrepõem à preocupação com o bem comum e com o longo prazo.

Há pouco mais de uma semana, contra todas as expetativas, a coligação PSD-CDS venceu as eleições legislativas. Dito de outro modo, a maioria dos eleitores manifestou preferência pela manutenção do atual Governo e do seu programa, rejeitando a alternativa apresentada pelo Partido Socialista.

Vale a pena recordar como chegou o Partido Socialista aqui: o Partido Socialista tinha um líder que, de acordo com as regras internas, disputaria as eleições legislativas. António Costa nunca duvidou da vitória socialista com António José Seguro. Antes afirmou, em função das sondagens, que o PS ganharia por “poucochinho”. Ora, foi este o pretexto para Costa tomar o lugar de secretário-geral, afirmando ter condições, não só para vencer as eleições, como para vencer por muito…

O problema de António Costa não foi (só) não ter merecido a confiança dos portugueses. O problema é que, perante os socialistas, prometeu ganhar por muito e afinal perdeu. Naturalmente que perante o resultado, a expectativa e a forma com tomou o poder internamente, a demissão seria a única decisão responsável para António Costa tomar. Sejamos claros: António Costa procura neste momento, mais a sua sobrevivência política que uma solução estável para o país. Costa concluiu que apenas sendo primeiro-ministro conseguirá mascarar a derrota que efectivamente sofreu nas eleições e sobreviver ao inevitável afastamento da liderança socialista. Por isso, o único caminho que lhe restava era aliar-se com os outros derrotados porque qualquer entendimento com a coligação o impossibilitava de alcançar o cargo que pretende.

Ora, a conjugação que António Costa pretende concretizar, aliando o partido socialista ao partido comunista e ao bloco de esquerda, é inconsistente e insustentável. De três, uma: ou o Partido Socialista abdica da sua história e dos seus princípios programáticos, ou são o PCP e o Bloco a fazê-lo, ou o resultado é uma equação impossível.

Será que alguém acredita que o PCP, com a sua longa história e reconhecida coerência, abandone as suas teses? E o Bloco? Será que a ideologia dos seus dirigentes vai mudar da noite para o dia? E o PS? Vai abandonar a sua concepção de organização da sociedade e a defesa do projecto de construção europeia? O que aconteceria ao tratado orçamental europeu? O PS deixaria de se comprometer ou o PCP e o Bloco iriam concordar? E se a NATO tiver de intervir militarmente em algum conflito (como é cada vez mais previsível)? O PS abandona a NATO ou o PCP e o Bloco passam a concordar?

O que António Costa pretende é uma espécie de teoria do impossível que apenas serve o seu interesse individual – a sua sobrevivência política. A tolerância de parte do Partido Socialista para esta estratégia suicida só existe na medida da expectativa do alcance do poder. O Bloco precisa dar “uso” ao peso eleitoral que conseguiu. E o PCP, na verdade, nunca alterará as suas convicções e apenas não pode ficar de fora com o Bloco “dentro”.

A alternativa é arriscada para António Costa mas significa o respeito pela vontade dos portugueses e a coerência e responsabilidade do Partido Socialista: empenhar-se em contribuir para condicionar o programa de governo da coligação na perspectiva de o melhorar, mas permitindo a quem venceu as eleições governar.

A envergadura dos homens também se avalia nas opções que fazem. António Costa tem (ainda) dois caminhos: a insistência do caminho do sucesso aparente e efémero que serve apenas interesse individuais ou o caminho da responsabilidade de colocar o interesse nacional antes do interesse pessoal e de pensar no longo prazo e não no dia seguinte. Acredito (ainda) na segunda. E acredito que esta opção possa sustentar o respeito e consideração dos portugueses.

António Prôa
Vereador na Câmara Municipal de Lisboa

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