António Costa não era assim…

António Costa foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa durante quase oito anos, dos quais cinco sem maioria na Assembleia Municipal. António Costa aceitou governar o município em minoria. Nunca foi colocada em causa a sua legitimidade ou a sua viabilidade. António Costa apresentou sete orçamentos, dos quais dois foram reprovados na Assembleia Municipal. Nunca […]


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António Costa foi presidente da Câmara Municipal de Lisboa durante quase oito anos, dos quais cinco sem maioria na Assembleia Municipal. António Costa aceitou governar o município em minoria. Nunca foi colocada em causa a sua legitimidade ou a sua viabilidade.
António Costa apresentou sete orçamentos, dos quais dois foram reprovados na Assembleia Municipal. Nunca foi questionada a sua permanência no cargo.

Durante o período em que presidiu à edilidade, António Costa tomou a iniciativa de procurar entendimento com o PSD para a viabilização das mais importantes e estruturantes decisões municipais: orçamentos, plano diretor municipal, política fiscal e tributária municipal e reforma administrativa da cidade. Em Lisboa, foi com o PSD (e apenas pontualmente com outros partidos) que o então presidente da câmara procurou construir entendimentos.

Na câmara e na assembleia municipal, o PSD podia ter construído maiorias de bloqueio para inviabilizar de modo sistemático as iniciativas do presidente da câmara. No entanto, António Costa contou antes com uma atitude de oposição firme mas responsável, disponível para procurar consensos. No município, António Costa pôde negociar com um partido sem ser através dos jornais, de forma séria e empenhada.

Ora, é precisamente uma atitude, em primeiro lugar, de respeito pelos eleitores e por quem ganhou as eleições que é exigível a António Costa neste cenário nacional. Uma oposição disponível para tentar encontrar entendimentos quando estes são propostos por quem venceu as eleições.

Ao contrário do que seria espectável à luz da sua própria experiência e até atitude no passado recente, António Costa parece preferir construir uma maioria negativa e bloqueio, sem qualquer afinidade programática genuína, apenas alimentada pelos interesses dos protagonistas cujos únicos pontos em comum são o propósito de derrubar o Governo e tomar o poder. De facto, António Costa não era assim. Esta atitude egoísta que parece revelar assenta em duas circunstâncias que se conjugam: o orgulho ferido de António Costa e a impossibilidade de se realizarem novas eleições legislativas nos próximos meses.

Vale a pena pensar se o PS (mas também o PCP e até o Bloco) arriscaria “montar” a coligação anunciada se corresse o risco de ter de ir a votos em eleições brevemente. Como se apresentariam estes três partidos? Iriam coligados? Alterariam radicalmente os seus programas eleitorais apresentados pouco tempo antes? Assumiriam uma coligação pós-eleitoral? Na presente atitude do PS, PCP e Bloco há alguma cobardia política.

Por outro lado, o quadro em que se desenvolve o presente cenário político é claro: António Costa perdeu as eleições contra o que prometeu aos socialistas, depois de utilizar precisamente um resultado eleitoral para defender (e provocar) o afastamento do seu antecessor e contra todas as expectativas.

Na política, como na vida, muitas vezes o orgulho impede a tomada de decisões racionais e responsáveis. De certo modo, pode ser este fenómeno que impele António Costa a prosseguir esta espécie de fuga em frente, quase a suplicar um acordo e, aparentemente, disposto a ceder em toda a linha.

No atual cenário, depois de António Costa, contra o que seria “normal”, ter decidido não abandonar a liderança do partido socialista, a réstia de “normalidade” deve conduzir o líder socialista a respeitar a vontade maioritária dos portugueses, não recusando a disponibilidade para entendimentos com quem, legitimamente, pretende governar o país.

Aos partidos do Governo cabe a obrigação de, com humildade, reconhecerem que as circunstâncias se alteraram e que os portugueses sinalizaram a vontade de serem encontrados entendimentos com a oposição. Ironicamente, como António Costa fez em Lisboa.

António Prôa
Vereador na Câmara Municipal de Lisboa

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