António Mexia alerta empreendedores: “Vai mudar tudo. Haverá mais dados, mais descentralização, maior complexidade”

O presidente da EDP encontrou-se com as nove startups com as quais a elétrica está a desenvolver projetos-piloto. Lembrou os tempos em que era o único “não-guru” na sala, garantiu que as ‘utilities’ estão mais capazes de resistir a uma crise e aconselhou os jovens empresários a mostrar “total abertura e transparência” com os seus parceiros.

“Gosto de associar caras a negócios”. A frase é de António Mexia e explica o facto de o presidente da EDP – Energias de Portugal ter passado o fim de tarde desta segunda-feira no LACS, em Lisboa. O CEO quis conhecer pessoalmente os fundadores das nove startups que estão a desenvolver projetos-piloto com a elétrica no âmbito do programa de aceleração Free Electrons e deu-lhes uma aula de 40 minutos sobre liderança, sustentabilidade e visão estratégica. No entanto, depois de ouvir os empreendedores, António Mexia também tirou alguns apontamentos: “Estou aqui mais para aprender do que para ensinar. O que nós procuramos aqui é esta capacidade de alguém ver aquilo que nós não estamos a ver, o que é que não podemos perder para o futuro”, disse.

A quebrar o gelo esteve Carla Pimenta, diretora de inovação do grupo EDP, que pediu ao presidente executivo da EDP que nomeasse os seus principais conselhos para os líderes do futuro. A reter: diversificarem os riscos; serem o mais disruptivos possível; saberem gerir os ativos que têm; colocarem-se no lugar da pessoa que têm à frente e procurarem entender as suas preocupações; mostrarem total abertura e transparência com os parceiros.

Até ao momento, o grupo EDP fez 30 investimentos em capital de risco de 35 milhões de euros no total. António Mexia recorda quando chegou a ser o “único não-guru” na sala e refere que agora se encontra com as startups para saber exatamente quais os problemas estão a tentar resolver com as suas soluções tecnológicas, porque tenta ter uma abordagem holística e “colocar as pessoas na equação”. “A economia deve mover-se pela eficiência, pela inovação, por evitar decisões que possam ser caras. Estamos no meio de uma revolução, portanto têm-se de preparar e estar do lado dos vencedores”, afirmou, acrescentando que o grupo quer ser o agregador dos sub-mercados nos quais as startups operam.

Friedrich Rojahn, fundador da alemã Solandeo, confessa que assim que conheceu os outros participantes do Free Electrons ficou “entusiasmado” por haver vários empreendedores a trabalharem na mesma área. “Conheces a ideia dos outros e pensas «claro que isto faz sentido, claro que precisamos disto»”. “Até acho que há aqui três ou quatro startups que podem juntar-se e trabalhar juntas”, retorquiu Gualter Sampaio, gestor de desenvolvimento de negócio da portuguesa Enging.

Luís Oliveira é um dos rostos por trás da Save 2 Compete, a segunda empresa portuguesa na fina. Nascida entre as quatro paredes da própria EDP, a startup criou uma plataforma personalizável para medir a eficiência energética das empresas e auxiliá-las a poupar e procura agora uma rampa de lançamento. “António Mexia é um ótimo professor. Basta ver o percurso que a EDP fez nos últimos 10 anos na energia eólica. É inspirador para quem está agora a querer singrar na transição energética”, realça o CEO, adiantando que a empresa está a preparar um aumento de capital de 3 milhões de euros.

 

“O que estava no meio era a central elétrica agora é o consumidor. O centro mudou da central elétrica para casa das pessoas e para fábrica”

Entre a aposta nas redes inteligentes e o crescimento das energias renováveis, as utilities mudaram mais na última década do que nos 50 anos anteriores, segundo o CEO da EDP. António Mexia defende que, atualmente, as empresas têm de saber onde estão os novos modelos de negócio e têm de perceber tanto ou mais do negócio do cliente do que ele próprio. Salientando que 40% do EBITDA que a EDP tem hoje não existia há 12 anos, o presidente da EDP ressalvou que foi em 2006-2007 que a empresa percebeu que se tinha de diferenciar por via da descarbonização da economia.

“O que estava no meio era a central elétrica agora é o consumidor. O centro mudou da central elétrica para casa das pessoas e para fábrica. Houve muita gente que esteve em negação para essa mudança. Hoje toda a gente quer renováveis e nem se fala de outra coisa. Estamos no meio de uma revolução que vem da descentralização, da descarbonização e da digitalização”, explicou aos jornalistas. “A próxima fase vai ser igual à nossa última década? Não. Vai mudar tudo, porque haverá mais dados, mais descentralização, maior complexidade”, sublinhou.

António Mexia garantiu ainda que as utilites estão mais aptas para resistir a uma crise, uma vez que antes tinham stocks maciços de ativos sem valor, excesso de capacidade instalada, que acabaram por ‘limpar’ ao longo dos últimos anos. A seu ver, as empresas energéticas sofreram de um posicionamento no setor que não estava ajustado à realidade da evolução tecnológica, mas demonstram estar mais “focadas” na escala e durabilidade, o que lhes gera uma “capacidade de reação totalmente diferente”.

“A última crise financeira chegou a ser mais sentida pelas utilities do que pelo setor bancário. As pessoas não têm essa noção. Quando se tem sistemas muito centralizados tem aquilo desenhado para a procura que espera que vá acontecer, a subir. A procura de repente cai e de repente há uma data de ativos em excesso de capacidade, que se tornam redundantes”

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