António Ramalho deixa liderança do Novobanco (com áudio)

A sua saída ocorre depois do caso da divulgação das escutas feitas numa investigação tributária envolvendo Luís Filipe Vieira. António Ramalho fica no cargo até à apresentação dos resultados do primeiro semestre.

Cristina Bernardo

António Ramalho comunicou esta quinta-feira ao Conselho Geral de Supervisão que vai sair do Novobanco. O gestor deixa assim de ser presidente executivo do banco a partir de agosto, sabe o Jornal Económico que tentou falar com o CEO do Novobanco durante toda a manhã, mas sem sucesso.

A sua saída não é alheia ao caso da divulgação das escutas feitas numa investigação tributária, António Ramalho poderia ter de ser reavaliado segundo as regras de idoneidade que foram reforçadas pelo BCE recentemente.

Ramalho tinha acabado de ser reconduzido pelo Conselho Geral e de Supervisão para um novo mandato para o quadriénio 2021-2024.

O banqueiro chegou à liderança da instituição financeira em agosto de 2016, saindo agora do cargo seis anos depois. Na altura, substituiu Eduardo Stock da Cunha na liderança do banco nascido das cinzas do BES.

Recorde-se que a 23 de março, o Conselho Geral de Supervisão (CGS) do banco anunciou as conclusões à sua investigação ao comportamento do CEO depois das escutas reveladas na imprensa que tinham sido feitas pelo Ministério Público no âmbito da “Operação Cartão Vermelho”.

As escutas feitas no quadro desta investigação apontavam que CEO do Novobanco teria ajudado a preparar Luís Filipe Vieira, um dos grandes devedores da instituição bancária, a responder na comissão parlamentar de inquérito que investigou a gestão e as perdas do banco.

O CGS concluiu que António Ramalho “agiu com total integridade ao longo deste processo e não surgiram provas que comprometam sua idoneidade como CEO do Novobanco”.

Nessa altura, a Lone Star, acionista com 75% do Novobanco, deu o caso por encerrado. “Entendemos que o Conselho Geral e de Supervisão do Novo Banco e os seus órgãos competentes concluíram a sua revisão interna independente relativa às matérias reportadas no âmbito da Operação Cartão Vermelho, em fevereiro de 2022”.

A saída de Ramalho tem lugar depois de o banco ter anunciado recentemente que obteve, em 2021, os primeiros lucros desde que foi criado, ao registar um resultado positivo de 184,5 milhões de euros no ano passado, o que compara com prejuízos de 1.329,3 milhões de euros. Apesar disso, vai pedir 200 milhões de euros ao Fundo de Resolução.

“2021 foi o primeiro ano de rentabilidade positiva. Um ano de marcos históricos, com o regresso aos mercados financeiros, uma nova marca e do novo modelo de distribuição. Os quatro trimestres de lucros revelam um crescimento sustentável do modelo de negócio, e em rota para alcançar os objetivos financeiros e continuar a apoiar os nossos clientes e a economia portuguesa”, afirmou António Ramalho, CEO do Novobanco, citado no comunicado enviado à CMVM a 9 de março.

Apesar destes lucros, o Novobanco refere que vai pedir mais de 200 milhões de euros ao Fundo de Resolução, tal como o Jornal Económico avançou.

“O montante de compensação a solicitar com referência a 2021, no montante de 209,2 milhões de euros (valor não considerado no cálculo de capital regulamentar com referência a 31 de dezembro de 2021), teve em conta as perdas incorridas nos ativos cobertos pelo Mecanismo de Capitalização Contingente, bem como as condições mínimas de capital aplicáveis no final do mesmo ano ao abrigo do Mecanismo de Capitalização Contingente”, disse a instituição nessa altura.

Em resposta, no próprio dia a 9 de março, o Fundo de Resolução veio a público manter a sua convicção de que “não é devido qualquer pagamento” ao Novobanco referente às contas de 2021. “O Novo Banco divulgou hoje um resultado positivo de 184,5 milhões de euros, mas também a existência de uma insuficiência de capital de 209 milhões de euros face aos 12% de rácio CET 1 previstos no Acordo de Capitalização Contingente”, afirmou na altura fonte oficial ao Jornal Económico, questionado sobre o novo pedido realizado pelo Novobanco.

“Apesar da insuficiência de capital apurada pelo Novo Banco, os dados disponíveis confirmam o entendimento do Fundo de Resolução de que, em cumprimento do Acordo de Capitalização Contingente, não é devido qualquer pagamento relativamente às contas do exercício de 2021”, sublinha a entidade liderada por Máximo dos Santos.

Licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, António Ramalho foi presidente da Estradas de Portugal entre 2012 e 2015, e liderou a Infraestruturas de Portugal a partir de junho de 2015. Antes, foi vice-presidente e administrador financeiro do BCP e presidente da CP.

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