António Zambujo: alma de alentejano

O nascimento em Beja e a infância com a avó, aliados ao contacto com o canto alentejano, influenciaram a identidade do fadista. Hoje sai o seu novo trabalho, “Até Pensei que Fosse Minha”, só com músicas de Chico Buarque.

As primeiras recordações musicais, e mais precisamente do fado, de António Zambujo remontam à sua infância, quando ouvia os discos (em vinil) de cantores consagrados, como Amália, Tony de Matos, Francisco José, entre outros. Algo que o cantor oriundo de Beja “absorvia como uma esponja”.

A escolha e preferência de António Zambujo recaía sobre os fadistas masculinos. Eram eles que ouvia com maior frequência e que depois tentava imitar. De início apenas para si. Só quando já era adolescente é que teve coragem de mostrar aos outros os seus dotes vocais. Antes disso, apenas quando estava sozinho com a avó aproveitava, também, para experimentar os instrumentos que encontrava por casa, como a harmónica, o acordeão e o piano (a guitarra apareceu um pouco mais tarde). Quando não sabia as letras… a avó dava uma ajuda.

E tudo isso teve influência na carreira de António Zambujo. O tom algo melancólico das suas músicas está intimamente associado ao contacto com o canto alentejano. O próprio cantor reconhece que as influências com que cresceu, as chamadas bases, são determinantes na definição da identidade de um artista.

Mas não é algo exclusivo de Beja. António Zambujo encontrou semelhanças com as mornas de Cabo Verde, com alguma música sertaneja e considera curioso o facto de o mesmo estilo de música “viajar” por vários pontos do mundo e como é possível, a semelhante distância, haver tantas similaridades na estrutura da música.

Este contacto influencia não só o desenvolvimento da carreira, mas sobretudo a “paixão”. A paixão por todas as influências e que António descobre à medida que investiga. “É como a sensação de encontrar água”, revela o cantor.

Apesar de ter uma imagem algo ‘low profile’ a carreira de António Zambujo está repleta de prémios. O primeiro ganhou-o aquando do segundo trabalho – Por Meu Cante (2004) – que contribuiu para ser considerado, pela Fundação Amália Rodrigues, como o Melhor Intérprete Masculino de Fado. Sem desdenhar os prémios recebidos, reconhecimento do trabalho feito, para António Zambujo nada há de melhor do que, ao longo do tempo, ganhar o respeito e admiração do público. Ter mais pessoas a gostar do seu trabalho. “Ter as salas esgotadas nos locais onde tocamos e ter a sensação de que as pessoas saem satisfeitas”, confessa. Ou os discos venderem cada vez mais… “Esse é o verdadeiro prémio/reconhecimento”, afirma o fadista. Os outros alimentam “o ego e deixam um bocadinho mais felizes, mas o verdadeiro reconhecimento é o do público. É esse que interessa”.

Isso é possível porque António Zambujo conseguiu criar uma identidade que se manteve constante ao longo do tempo. E aqui entra algo em que acredita piamente: o melhor que um músico pode fazer é desenvolver a arte de escutar. A presença em festivais, o ouvir outras músicas e outros artistas leva-o a crescer como profissional. E para isso é precisão saber escolher os “mestres”. Saber a quem seguir em termos de canto, de composição. Depois “é ter a esperança de que as pessoas gostem do trabalho”.

O “novo” fado português

No panorama atual do fado português, António Zambujo assume-se fã de Ricardo Ribeiro e admite uma “adoração muito grande” por Ana Moura e Carminho. Mas há muitos mais. Alguns deles ainda a percorrer o caminho de busca pela sua identidade, mas que “estão no caminho certo”. Porque isso é o principal: encontrar a identidade. “Uma pessoa ouvir uma música e conseguir identificar quem está a cantar – isso é o que define melhor o artista”.

Mais do que cantor, António Zambujo é também compositor. E se, por vezes, algumas canções “saem rápidas”, outras há que levam o seu tempo. Nada capaz de preocupar o fadista que assume não ser muito disciplinado quando se trata de compor. “Sou mais de impulso. E, normalmente, quando as músicas saem, saem de facto inteiras.” Pelos menos as melhores. Estas não precisam de retificações ou ajustes.

É o dia-a-dia que move António Zambujo, que gosta de compor sobre coisas que vê, “coisas simples do quotidiano”. “Não consigo imaginar sobre coisas que não vivi”, reconhece. É a alma alentejana a “falar”. É como “estar à janela e escrever sobre esse assunto”.

Tributo a Chico Buarque

Embora reconheça que cantar “algo nosso” seja diferente, António Zambujo alerta para a importância da interpretação. Algo bem patente no seu último álbum, onde presta um tributo às músicas de Chico Buarque. “Ao cantar as músicas de outro artista acabamos por nos apropriarmos delas, de lhe darmos a nossa interpretação e isso é algo de muito pessoal.”

Inicialmente este trabalho não estava previsto na agenda de António Zambujo. No entanto, com o tempo, começou a “fazer todo o sentido”. Foi assim que surgiu o “Até Pensei Que Fosse Minha”, que conta com participações de Chico Buarque, Carminho, Roberta Sá, entre outros. O disco, colocado hoje à venda, integra apenas canções de Chico Buarque, que também deu a sua “ajudinha” no projeto. Segue-se, em novembro, uma digressão pelo Brasil. O ano de 2017 vai começar com dois concertos: a 2 e 3 de Março, no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.

E desfrutar (do disco). Esse é o principal objetivo de António Zambujo para os próximos tempos. Porque, como reconhece o fadista, tocar ao vivo acaba por alterar (um bocadinho) o que foi feito em estúdio. “O disco é o registo saudosista daquele momento. À medida que vamos tocando as músicas estas vão ganhando uma outra consistência.”

Sobre o futuro, Zambujo adianta que, no próximo ano, vão sair “um CD e um DVD com os concertos nos Coliseus”.

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