Apagamos bem fogos, falta planear sem fogos

Urge assumir políticas para gerações, a começar na educação, com exigência, apoiando quem maiores dificuldades tem, mas exigindo responsabilidades, e os deveres de pensar, discutir e decidir.

O “desenrascar” é uma excelente característica do português e da sua cultura. Os benefícios são evidentes. Demonstramos a todos uma capacidade de enfrentar e ultrapassar qualquer situação inesperada, mesmo que tenha uma amplitude elevada em relação à normalidade.

A realidade é que, ao longo de vários anos e décadas, esta cultura enraizou-se até ao ADN do português, trazendo consigo a normalização de políticas de “adiar”, do “havemos de resolver” ou do “temos de estudar melhor o assunto”. Dito de outra forma: institucionalizou-se a “não decisão” até à existência da urgência do insustentável.

Ora, sempre aprendi que uma casa de “apaga-fogos” é uma casa de muita correria, tipo “baratas tontas” e pouca eficácia.

Esta é muito a sensação com que se fica em muitas das decisões (ou não decisões) a que assistimos. Só quando a casa está a arder é que chamamos os bombeiros e decidimos fazer um seguro contra incêndios, sendo visível a decisão realizada.

A institucionalização deste modelo, na cultura do país, tem criado baixos níveis de exigência global, por habituação do “sempre foi assim”, quer ao nível político, quer ao nível de relações de mercado empresa-empresa ou empresa-consumidor, e mesmo interpessoais, traduzindo-se a médio e longo prazo numa diminuição da qualidade do produto ou serviço prestado.

Isto está correto? Obviamente que não.

A realidade é que falta institucionalizarem-se etapas fundamentais em qualquer projeto: planear e fazer antecipadamente. Estas são etapas que no curto prazo não trazem visibilidade, nem demonstração de trabalho. Vivemos numa intensidade do ‘Like’ imediato e não da estruturação. Preferimos resolver o problema do que antecipar a existência do problema.

É possível mudar? Obviamente que sim.

Assumindo-se políticas para gerações, a começar na educação, com exigência, apoiando quem maiores dificuldades tem, mas exigindo responsabilidades, e os deveres de pensar, discutir e decidir.

Assumindo-se políticas imediatas de planeamento e execução, sem necessidade de estar nos holofotes da fama de decisões, apenas para mostrar que se fez qualquer coisa.

Criemos a prioridade nas culturas de planeamento, de criação, de aceitação do erro, de dever, de pensar, de antecipar, de decidir e… de fazer! Os bombeiros são e serão sempre necessários, mas para situações excecionais.

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