Apelo à ministra da Cultura

Dizem que a senhora vai ficar no cargo por pouco tempo, o que é uma pena. Quando ouvi as palavras “ministra da Cultura” e “Teresa Morais” serem proferidas a propósito do comunicado relativo ao falecimento do realizador José Fonseca e Costa, dei por mim a exclamar: “É mesmo verdade! Existe um ministério da Cultura num […]

Dizem que a senhora vai ficar no cargo por pouco tempo, o que é uma pena. Quando ouvi as palavras “ministra da Cultura” e “Teresa Morais” serem proferidas a propósito do comunicado relativo ao falecimento do realizador José Fonseca e Costa, dei por mim a exclamar: “É mesmo verdade! Existe um ministério da Cultura num governo PSD/CDS!”.

Se na semana passada defendi as palavras do socialista Almeida Santos sobre a necessidade de fazermos uma “experiência” com um Governo de esquerda, agora compreendo o quão errado e injusto fui nessa apreciação. Precipitei-me. Um Governo com António Costa como primeiro-ministro e, por exemplo, Inês de Medeiros como ministra da Cultura, não seria uma novidade. Na realidade, vai fazer com que se interrompa essa outra “experiência” inédita em Portugal que é ter um Ministério da Cultura de direita em vez de uma simples Secretaria de Estado.

Não permitir à senhora ministra Teresa Morais a oportunidade de mostrar trabalho é algo que não deve ser feito. Por isso, nesta altura de indefinição política quanto ao futuro do Governo, deixo aqui um apelo à senhora ministra: faça algo que fique na história! Sugiro então que convide um grupo de jornalistas para viajarem consigo a Paris!

A sério! Quando lá chegarem, subam todos ao cimo da Torre Eiffel. Não, não é para fazer turismo e apreciarem a vista da cidade-luz antes que o Governo se apague. É para confirmarem com os próprios olhos, “in loco”, um detalhe histórico que merece ser do conhecimento da generalidade dos portugueses.

No ponto mais alto do mais conhecido símbolo de França e ícone mundial, está o antigo apartamento do engenheiro Gustave Eiffel. Esse espaço recria hoje, com o recurso a estátuas de cera, o momento em que o engenheiro francês e a sua filha, Claire, receberam naquele apartamento o inventor norte-americano, Thomas Edison. Foi a 10 de Setembro de 1889, o dia em que Edison apresentou a Eiffel a sua mais recente invenção: o fonógrafo.

O local está decorado com objectos da época da Exposição Universal de Paris. E, entre os quadros no apartamento de Eiffel está uma obra sua, inaugurada em 1877: a Ponte D. Maria Pia, no Porto. Sim, a “nossa” ponte está ali representada nessa cena histórica, no topo do maior símbolo de França, visitado por milhares de turistas diariamente. Os turistas fazem filas durante horas e pagam bem para visitarem aquele espaço. Todos os dias, pelas oito da noite, a Torre Eiffel ilumina-se de forma especial durante uns breves minutos.

Depois de mostrar isso aos jornalistas, a senhora ministra deve, logo de seguida, apanhar o avião para o Porto e levar a comitiva até à base da Ponte D. Maria Pia, abandonada há quase meio-século e anunciar ali a recuperação daquele monumento nacional.

A ponte pode não funcionar para o fim inicial, a travessia ferroviária. Mas, recuso-me a acreditar que não pode funcionar como um polo cultural, como ponto de visita turística obrigatória no Porto, como passagem para uma outra margem.

Anuncie um programa de recuperação daquele símbolo nacional e que lhe dê rendimento e reconhecimento internacional. Promova a interacção entre a autarquia, privados e Estado. Incentive um concurso de ideias que ofereça um futuro à Ponte D. Maria Pia. Inscreva o seu nome nesse projecto. A senhora ministra poderá não estar no poder o tempo suficiente para o ver concluído, mas, caramba, lá que ficará na história, lá isso vai ficar! Sonhe, senhora ministra, que a obra acaba depois por nascer!

Frederico Duarte Carvalho, 
Jornalista e escritor

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