Arctic Monkeys no MEO Kalorama. Intemporais e elétricos, os britânicos estão de volta

O mais novo dos festivais de Lisboa confiou à mítica banda britânica a tarefa de encerrar o segundo dia. Alex Turner e companhia não desiludiram e entregaram um dos melhores concertos que a banda já deu em Portugal (e já lá vão nove).

Pode-se, enfim, dizer que o concerto que os Arctic Monkeys deram na noite de sexta-feira, em Lisboa, foi um dos melhores a que o Parque da Bela Vista já assistiu, especialmente se tivermos em conta que o recinto já assistiu a muitos concertos – demasiados, se julgarmos pelo estado de saúde da relva. E a afirmação ganha peso quando nos recordamos que o fizeram num festival que abre as portas pela primeira vez, o MEO KALORAMA. A fasquia elevou-se, ou melhor, foi elevada por Alex Turner e companhia, e esperamos que não desça no último dia de festival.

A cumprir a pontualidade britânica e sem grandes cerimónias, os Arctic Monkeys entraram no palco principal do MEO KALORAMA recebidos por uma ovação e pelos gritos de um festival que acabou por esgotar a sua segunda noite, segundo a organização. É compreensível, que já lã vão uns anos desde a última passagem por Portugal, no NOS Alive em 2018, e mais ainda desde a primeira vez que por cá atuaram, em 2006. Os fãs são outros, talvez, mas os britânicos provaram que o repertório destas décadas mais do que chega e sobra para fazer tremer um público inteiro. E temos que tirar o chapéu a qualquer banda que arranque um concerto com o trunfo que outros, menos capazes e assegurados artistas, guardariam bem para o fim do espetáculo. Foi o caso de Do I Wanna Know?, do prodigioso álbum AM, que disparou a banda para um campeonato estratosférico onde poucos chegam.

Mas aqui, como já dissemos, não houve cerimónias, medos e também houve pouca conversa e engodo, coisa que até se engole nalguns concertos mas que noutros, como este, se dispensa. E ainda bem. Alex Turner nunca entrou no modo histriónico, a roçar o histérico, que é típico de um frontman do rock, como fez o líder dos Duran Duran há pouco mais de dois meses no mesmo palco – até porque isso nem faria muito o seu estilo.

O êxtase sentia-se fora de palco e muito antes, cá em baixo, entalados no meio da plateia que, desesperada por um metro quadrado modesto para se abanar, fez os possíveis para se chegar perto do palco até às 23h00, hora programada para o início do concerto. Muitos sem sucesso. Uns sorriam aos encontrões e ânimos alheios, como quem já tinha saudades disto e sabe que o bem-bom está prestes a encerrar até para o ano, outros reclamavam a voz alta do desconforto e movimentação do público, como já é habitual em festivais que não oferecem sofás insufláveis.

Aqui também ninguém conseguiria permanecer muito tempo sentado e suspeitamos que os pés estiveram pouco tempo no chão, para algum alívio de um recinto que, no final do verão e dois festivais depois, quer sopas e descanso. Sequelas boas, dirão uns. Coisa evitável, dirão outros. A poeira já é um souvenir garantido na Bela Vista.

Antes de ecoar Brianstorm, não houve tempo para recompor energias ou publicar vídeos no Instagram – Deus nos livre de vir aqui sem mostrar que aqui viemos, já que à falta de ecrãs maiores, os fãs mais pequenos e que ficaram para trás foram assistindo ao concerto todo por um dos muitos telemóveis que se aguentaram no ar até ao fim.

Foi com Teddy Picker que o público português mostrou a sua excelente capacidade de abraçar temas que noutros países caíram na obscuridão. Alex Turner não deixa de esboçar um sorriso leve ao reparar que aqui, um povo de outra língua e doutra génese, sabe disparar todas as letras a partir do primeiro acorde, das mais comerciais às mais esquecidas. No MEO KALORAMA, os Arctic Monkeys trouxeram êxitos e outras menos badaladas, para nos recordar que trazem o saco cheio, sim, mas que vem aí um novo álbum, The Car, já no próximo mês.

E é também natural que haja uma transcendência geracional para uma banda deste estatuto, sinal claro de que a boa música não expira, tal como nos provaram os Metallica este ano, no NOS Alive. De qualquer forma, a receção calorosa e pesada a cada tema não fez dos britânicos uns mansos descansados. Pelo contrário, a corrente só se intensificava a cada paragem, relaxada apenas pelas poucas mas benditas baladas que serviram de compasso ao fôlego de uma banda, mas também ao de um público que, por umas horas, não se queixou nem da relva perdida em combate, nem do frio, nem sequer da cerveja espanhola que é servida nos bares do novo festival. Primeiro estranha-se, depois aceita-se.

Houve encaixe para temas vindos de Suck It and See, um dos álbuns menos efervescentes dos Arctic Monkeys, mas que em Lisboa pediu para que se tirasse o pó a Library Pictures ou That’s Where You Were Wrong, temas que comprovam que Turner é um liricista da primeira divisão, bem acompanhado por Jamie Cook na guitarra, Nick O’Malley no baixo e pelo incansável baterista Matt Helders. Engraçado é notar que, ao fim destes anos todos, permanece uma paixão coletiva pelo vocalista de poucas palavras, de sorriso tímido, que deixou algumas (e alguns) fãs a suspirar.

Suspiros que deram rapidamente lugar a ecos quase perfeitos quando chegou, por fim, a hora do adolescente I Bet You Look Good on the Dancefloor e arrepios, até alguma comoção, às notas finais de 505. Pelo repertório e para não deixar ninguém com fome ou como FOMO (fear of missing out), os britânicos garantiram que meteram na mala Arabella e R U Mine?, fazendo as delícias da geração Tumblr que não estranha temas vindos da mítica cordilheira de som negra que cimentou os Arctic Monkeys no repertório popular.

Um concerto aguardado, sim, mas concretizado em pleno, a provar que as músicas não envelhecem apesar de os anos passarem pelos fãs, mas aparentemente não passarem pelo quarteto britânico, que embalado pelos portugueses ou ansioso para rebentar charts antes do fim do ano trouxeram tudo aquilo que faltou, por exemplo, noutras passagens por Portugal.

Este tinha tudo para ser um concerto a meia haste, de forma a não comprometer nem a banda que cá não vinha há quatro anos nem o festival que só soma 48 horas de existência. Mas não houve ferrugem ou cansaço. Foi mesmo um dos melhores concertos que os Arctic Monkeys já deram em Portugal e arriscamo-nos a dizer que foi talvez um dos concertos do ano, dentro ou fora de um festival.

Conheça a setlist completa:

  • Do I Wanna Know?
  • Brianstorm
  • Snap Out of It
  • Crying Lightning
  • Teddy Picker
  • Potion Approaching
  • The View From the Afternoon
  • Cornerstone
  • That’s Where You’re Wrong
  • Library Pictures
  • Tranquility Base Hotel + Casino
  • Why’d You Only Call Me When You’re High?
  • I Ain’t Quite Where I Think I Am
  • Do Me a Favour
  • From the Ritz to the Rubble
  • I Bet You Look Good on the Dancefloor
  • Knee Socks
  • 505
  • One Point Perspective
  • Arabella
  • R U Mine?
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