As alterações climáticas têm as costas largas

O atraso na construção de canais de drenagem e outras estruturas para prevenir situações como a desta semana é incompreensível.

As alterações climáticas parecem ter as costas largas, como mais uma vez se viu na forma como a nossa classe política reagiu à destruição provocada pela intempérie que esta semana se abateu sobre Lisboa e outras localidades do centro e sul do continente.

É verdade que as alterações climáticas estão a tornar estes fenómenos mais frequentes e intensos. O que antes podia acontecer com intervalos de tempo de décadas, repete-se agora quase todos os anos. Chuvas intensas, tornados, nevões e ondas de calor que provocam incêndios florestais serão fenómenos a que, infelizmente, todos teremos de nos habituar ao longo das próximas décadas.

Porém, não estamos a falar de fenómenos contra os quais nada se possa fazer em termos de prevenção. E o facto de as alterações climáticas terem tornado estes fenómenos mais frequentes não é desculpa para os governos e as autarquias descartarem as suas responsabilidades no sucedido em Lisboa e em outras cidades afetadas pelo mau tempo desta semana.

Falando do caso concreto da área metropolitana de Lisboa, sempre ocorreram cheias em zonas como Alcântara ou Algés, pelo que volta e meia vemos casas e lojas alagadas e carros arrastados pelas águas. E ainda muitos lisboetas se recordam da trágicas cheias que ocorreram em 1967 e tiraram a vida a mais de 700 pessoas, muito antes de alguém falar em alterações climáticas.

Tudo isto torna ainda mais urgente a construção de canais de drenagem e outras obras estruturais que permitam reduzir ou mesmo eliminar as consequências destes fenómenos, como defendeu o Presidente da República na noite da passada quarta-feira. Por muito que se trate de obras invisíveis e sem retorno em termos eleitorais. Pelo contrário, até podem roubar votos, ao provocar interrupções no trânsito e afetar o turismo. Mas precisamos de decisores políticos corajosos, que saibam ver a longo prazo e não tenham medo de tomar decisões.

Porém, o risco de cheias não é o único que se coloca à região de Lisboa. Qual é o plano para uma situação em que ocorra um sismo semelhante ao de 1755? Está a Proteção Civil a postos para lidar com um cenário dessa gravidade? E quanto ao impacto de tal catástrofe na economia? Quando teremos uma cobertura obrigatória, a nível de seguros, que acautele o risco sísmico que a maior cidade do país enfrenta, tal como pede há anos a Associação Portuguesa de Seguradores (APS)?

Somos um povo que gosta de se fiar na sorte e de empurrar os problemas com a barriga, deixando para amanhã o que podíamos fazer hoje. Até ao dia.

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