As incongruências da banca

Final do ano. É tempo de desejar boas entradas mas, mais do que exprimir o desiderato, é tempo de antecipar 2017 e vamos fazê-lo para a banca.

Porquê este setor? Porque o financiamento bancário é o sangue da economia e sem ele a morte é certa. E aquilo que vemos é um financiamento menor à economia real, à economia instalada, mas também à nova economia. Recorde-se que atraímos a Web Summit de Dublin para Lisboa, mas se um jovem tem uma boa ideia dificilmente poderá ir à banca. Esta irá, provavelmente, redirecioná-lo para um business angel ou, com grande à vontade, irá pedir a garantia dos pais do jovem para emprestar dinheiro para um projeto que pode ser o futuro do país.

A banca não toma risco, o que se justifica pelo medo, pois nenhum bancário quer aprovar uma operação que pode gerar uma imparidade dentro de dois anos e que pode levar ao despedimento do responsável. O normal passou a ser o pedido de 30 assinaturas antes de aprovar o que quer que seja. Depois é a incompetência e já demos o exemplo da Web Summit e o financiamento dos pais. E depois vem a regulamentação. Quando um cliente incumpre, o banco terá de provisionar quase tudo, e a tendência é para não emprestar. A banca não resistiu ao enquadramento normativo que lhe foi imposto. Macedo, Ramalho, Ulrich, Amado ou Monteiro são os gestores do momento, mas nenhum deles conseguirá ir ao Ministério das Finanças ou ao Banco de Portugal e bater o pé contra o que lhes é imposto a partir de Frankfurt. Noutros tempos, Salgueiro, Vilar, Gonçalves ou Salgado tinham condições para o fazer.

2017 pode muito bem ser o primeiro ano do plano inclinado para a banca. O exemplo vem de Itália, França e Alemanha. A conclusão é óbvia: a regulamentação é estúpida e, por isso, não serve. A burocracia capturou a atividade bancária e está a afastar os clientes dos bancos. É fácil constatar que quem faz um depósito de 10 mil euros e consegue uma super taxa de 0,75% TANB vai ficar a perder na relação com o banco, porque na conta à ordem leva com comissão de manutenção, custo do cartão de débito e outras alcavalas. Resultado: é mais conveniente meter o dinheiro no colchão. O gerente até pode arranjar uma solução que é um produto do género obrigações dos EUA a 10 anos, com uma remuneração de 2,5%, tendo em conta que não é expectável que o país se apresente à insolvência nos próximos 10 anos. O gestor dá ao cliente um contrato de 15 páginas para assinar, em letra que ninguém se dá ao trabalho de ler e onde o mesmo cliente declara que tem consciência de que se trata de um produto de risco, tem cultura financeira suficiente para perceber o produto e que a decisão de investimento é da sua inteira responsabilidade!

É caso para rir, pois se estas instruções já existissem no tempo em que os produtos do GES andavam a ser vendidos, nenhum lesado teria direito ao que quer que seja e, o mais curioso, é que a nova legislação para a banca, feita em nome da defesa do consumidor, serve afinal, para proteger os bancos!
Temos ainda a questão dos balcões físicos. Estão a fechá-los e isso significa afastar clientes, independentemente do nível de envolvimento dos investidores e clientes com a web. Mas há mais. Imaginemos o Sr. Amorim quando, nos idos anos 80, começou a desenhar o BCP e a convidar pessoas, se lhe dissessem que os seus administradores teriam de ir ao Insead fazer um curso para ser autorizado! Como teria reagido?

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