As indecisões de Aníbal

Os políticos devem servir os países que governam ou a que presidem. Ao fazê-lo, estão a servir os cidadãos que os elegeram e aquelesque o não fizeram, mas a quem prometem, após a eleição, servirem com a mesma lealdade que dedicariam aos que neles confiaram.


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Os políticos têm funções e obrigações distintas consoante os cargos que exercem e as constituições que regem os diferentes países. Parece uma verdade do Senhor de La Palisse, mas não é. Um regime presidencialista, um regime parlamentar e um regime como aquele que, em Portugal, chamamos de semipresidencialista determinam funções distintas para Presidentes da República, parlamentos e primeiros-ministros.

Aníbal Cavaco Silva é o atual Presidente da República. Mais uma “la palissada”? Nem por isso. Não basta ser, há que parecer. Porque o Presidente da República tem deveres. E alguns deles não se cumprem por missão. Há momentos em que Aníbal Cavaco Silva esquece, ou parece esquecer, a sua função e pensa que é o ex-primeiro-ministro. Aníbal Cavaco Silva disse, no Funchal, que foi, durante cinco meses, primeiro–ministro de um Governo de gestão. Aníbal Cavaco Silva esquece-se de que ninguém está à espera de o ouvir perorar sobre exemplos passados, descabidos, pois as circunstâncias não eram de todo as mesmas em que atualmente nos encontramos e que todos os portugueses querem saber o que vai decidir.

Ir quatro dias para a Madeira quando o país se arrasta na indecisão, quando os mercados internacionais se perguntam o que por cá se passa, quando o PCP e o Bloco de Esquerda protagonizam como se fossem Governo, tendo esse protagonismo assente numa aliança algo dúbia, feita de acordos diversos com conteúdo ligeirinho, não tomando qualquer decisão de fundo e parecendo estar a “divertir-se” com a ânsia de Costa em formar Governo e salvar a carreira política, é comportamento de alguém que parece ter-se esquecido que é o Presidente de todos os portugueses.

Como já aqui se disse, Cavaco Silva é, ainda, o Presidente. Os portugueses são sempre portugueses. Os eleitores de todos os partidos, os que não têm partido e os que votam como querem e lhes apetece merecem todos o mesmo respeito. Cavaco Silva, pelo respeito que nos deve a todos, tem de decidir. Decida como lhe pareça melhor, mas decida. Escolher um Governo de gestão, pedir a Passos Coelho que forme um novo Governo e o submeta ao Parlamento uma vez mais – mesmo sendo certo que é chumbado -, nomear um Governo de iniciativa presidencial, mesmo que, para isso, tenha que engolir um sapo do tamanho do mundo, pois disse que não o faria, ou escolher António Costa com um Governo suportado por uma maioria parlamentar que, por muito que não lhe agrade, existe, são as opções que Cavaco tem. Resta-lhe, fora estas opções, a demissão, sempre desonrosa, e a entrega das coisas a Ferro Rodrigues, político que, sem nunca ter sido bem sucedido, lá vai conseguindo cumprir a sua ambição pessoal.

Passos Coelho não quer, e faz muito bem, assumir um governo de gestão. Cavaco não quer, por motivos pessoais, abrir os olhos e ver que tem “o menino” na mão. Não tivesse falado demais e poderia agora desafiar Guilherme Oliveira Martins ou Lobo Antunes a formar um Governo de iniciativa presidencial, que conseguisse congregar todos aqueles que, sabendo que o país não pode estar à deriva, aceitassem que o próximo Presidente da República decidisse o nosso futuro. Estamos certos de que qualquer um dos dois nomes mencionados aceitaria fazer um governo transitório e servir Portugal. Mas Aníbal Cavaco Silva, Presidente, confunde-se com Aníbal Cavaco Silva, o cidadão de Boliqueime e é aqui que as coisas se complicam.

Dos candidatos presidenciais com mais hipótese de lhe suceder – e não falamos de sondagens com uma amostra de 600 cidadãos que dão 1% à candidata do Bloco ou 2% ao do PCP -, esperava-se que tomassem posição. Marcelo é sempre Marcelo. Isso tem deixado a direita louca. Ele sabe que só tem 38% dos votos no seu universo e quer mais. Não pode, pois, atacar Cavaco nem defender Cavaco, defender Costa ou atacar Costa. E fá-lo bem. O seu habitual “savoir faire” leva-o a transportar as televisões para dentro da igreja onde é suposto ir rezar, transporta-o para um concerto de Rui Veloso, acompanhado das câmaras de TV e da filha, quando todos esperavam vê-lo com a companheira de sempre e volta a levá-lo a uma reunião com o Presidente do Parlamento Europeu no momento em que a Europa está a braços com uma crise terrorista. Marcelo é “macaco velho”, tem uma equipa de campanha experimentada, com Miguel Relvas e Moita de Deus entre as suas tropas, e foge de decisões fraturantes como poucos.

Sampaio da Nóvoa junta muita esquerda e alguns notáveis, como é o caso mais recente caso do constitucionalista Jorge Miranda. Contava com o Bloco e com o PCP mas, a não ser que as candidaturas de Marisa e Hedgar sejam a fingir, a conta saiu-lhe furada. Sampaio da Nóvoa tem radicalizado o discurso, tentando ir ao coração dos bloquistas e de alguns comunistas. Nestes últimos não deve ter sorte, pois o reforço do PCP com a colagem a Costa implica que as gentes da CGTP queiram dar votos ao candidato do partido. Sampaio da Nóvoa tem atacado Cavaco e tentado penetrar no eleitorado socialista com o aval de alguns apoiantes de António Costa. Este não se descose. Está a ver o que dá a segunda volta, se existir, para fazer juras a quem estiver mais bem colocado. Nóvoa faz metade da campanha a anunciar apoiantes notáveis do PS, mas o que é certo é que tem beneficiado da moderação de Maria de Belém Roseira.

Tendo começado tarde, em relação aos dois primeiros, Maria de Belém Roseira foi, até quarta-feira, demasiado moderada na oposição a Cavaco Silva e muitos socialistas dizem dela o que centristas e social-democratas dizem de Marcelo: que não se assume. Belém Roseira foi presidente do PS, como Marcelo foi presidente do PSD. O seu eleitorado parece querer ouvir dizer à primeira mulher a assumir a candidatura a Belém que está com Costa, ou melhor, que está contra esta deriva dialogante de Cavaco. E Belém Roseira parece ter ouvido o apelo da esquerda moderada. Quarta-feira,   leu uma declaração os jornalistas na qual disse (de maneira muito simpática, como é seu apanágio), de Cavaco, o que poucos achavam possível. Cavaco Silva, segundo Belém Roseira, deve aos portugueses uma decisão. Seja lá ela qual seja. Agradou à esquerda. Espera-se que consiga segurar o centro direita entre os seus votantes.
De entre as pessoas que Cavaco Silva ouve, umas são parceiros sociais, outras são banqueiros, que ouve um a um como se o tempo fosse uma variável pouco importante, e, por último, mas com não menos importância, ouve a família, nomeadamente o genro, que apoia Costa, e a mulher, que partilha com ele “o desprezo” pelo PSD. Se Cavaco Silva não tem noção do tempo, pede-se que tenha, pelo menos, noção da razoabilidade na escolha de quem ouve e, sobretudo, da utilidade das suas decisões. E que faça como alguns dos seus colaboradores dizem: que decida pela sua própria cabeça.

Mas a campanha presidencial ainda vai no adro e entre o folclore de Marcelo, que esteve em banho maria durante dois anos, o excessivo “centrismo” de Belém Roseira, que ainda não conquistou o PS, e o radicalismo panfletário de Sampaio da Nóvoa, inventado por Cavaco Silva quando o convidou para discursar num 10 de Junho, o povo tem tempo para escolher. O que não tem, nem quer ter, é de esperar pelos caprichos de um Presidente que ainda não percebeu que perdeu o respeito da nação e a deixa nesta deprimente sensação de que a Presidência da República continua a ser grande mas é inútil.

Por Vítor Norinha/OJE

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