As independências africanas no divã do tempo

As independências consagraram-se, em África, como propriedade exclusiva de uma geração e de certos partidos.

As narrativas críticas sobre as independências africanas não podem ser vistas como uma reconfiguração do legado histórico e da sua relevância. Bem pelo contrário, são propostas de reactualização e valorização deste acontecimento histórico, na medida em que constituem uma tomada de consciência de que as independências deixaram de realizar um conjunto de premissas utópicas do projecto do pré-independência.

Por exemplo, entre os nacionalistas angolanos, Pepetela, na sua obra “A Geração da Utopia”, retrata o herói que acaba por se isolar numa praia em Benguela. Este desfecho da narrativa de Pepetela já demonstrava uma reflexão crítica, e até distópica, sobre a independência, sem colocar em causa a luta pela libertação nacional dos povos africanos como a condição necessária para a afirmação das nações africanas.

No entanto, “Sair da Grande Noite”, obra de Achille Mbembe, não alterou a condição de sujeição humana de muitos africanos, que continuam a viver num formalismo jurídico e na marginalidade social e económica. Esta realidade, que afecta muitos países africanos, acaba por gerar uma descrença total e absoluta no valor político das independências africanas enquanto fenómeno de transformação política e social dos povos africanos.

Por isso, as autoridades oficiais do Estado preservam as independências como formas de exaltação do espírito nacionalista dos africanos do passado e não como uma marca dos africanos, não sendo cultivadas como actos de resiliência dos africanos.

Assim, as independências consagraram-se, em África, como propriedade exclusiva de uma geração e de certos partidos, gerando, por conseguinte, o princípio da legitimidade histórica. Esta legitimidade traduziu-se, no plano prático, no direito de acesso preferencial a certos cargos por um grupo particular de africanos, porque estes tinham lutado pela independência. Ou seja, uma dívida histórica sem prazo para o respectivo vencimento, gerando um certo sentimento de revolta contra a independência por cristalizar este comportamento das elites nacionalistas.

A preservação das independências como ocorrências exclusivamente do passado, retira-lhes, sobretudo, uma dimensão histórica, porque, segundo Walter Benjamim, a história é um objecto carregado do Agora. Sem uma reflexão crítica contemporânea das independências não há Agora.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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