As personalidades que nos deixaram em 2017

Mário Soares, Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, Medina Carreira, Miguel Beleza, Helmut Kohl, David Rockfeller ou Liliane Bettencourt. Foram muitas as personalidades a quem dissemos adeus este ano.

Cristina Bernardo

As palmas ruidosas que acompanharam os últimos metros da viagem de Mário Soares, falecido a 7 de janeiro, deram lugar a um prolongado silêncio. Para trás tinham ficado os emocionados elogios fúnebres no Mosteiro dos Jerónimos, o banho de multidão no Rato, as homenagens prestadas pelos chefes de Estado estrangeiros. No Cemitério dos Prazeres, a urna do antigo Presidente tinha encontrado a última morada.

No dia do funeral, o filho João Soares chegou à Sala dos Azulejos do Mosteiro dos Jerónimos, onde estava a urna do pai, acompanhado dos filhos, da mulher e do primo Eduardo Barroso, por volta das 10 horas. De pé, cumprimentou anónimos. No exterior do Mosteiro dos Jerónimos, milhares de pessoas engrossavam já as filas para prestar a última homenagem ao presidente falecido no sábado.

Com música do Coro do Teatro de São Carlos, a derradeira despedida de Mário Soares terminou com um poema: “Os dois sonetos de amor da hora triste”, da autoria de Álvaro Feijó. A declamá-lo estava Maria Barroso, que numa intervenção gravada fez a última homenagem ao seu companheiro de vida, antes de seguir para o Comitério dos Prazeres.

Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal, morreu a 13 de julho. Apesar da fortuna, o caminho para a riqueza foi bastante longo. Nada que assustasse Amorim, habituado desde muito cedo a pegar no carro ou a ir de comboio para mostrar as virtudes da cortiça a outros mercados no estrangeiro. Nos anos 50, a terceira geração Amorim assume o comando da Amorim & Irmãos, Lda. Os quatro irmãos: José, António, Américo e Joaquim Ferreira de Amorim alteraram para sempre o panorama da indústria corticeira. Aliás, a primeira viagem de Américo Amorim à União Soviética é o início de um percurso pelos países de Leste.

Contornando as fortes dificuldades – numa época em que em Portugal mandava o Estado Novo e o mundo estava dividido em blocos ideológicos – a empresa torna-se a maior exportadora portuguesa para a Europa de Leste.

Segundo a empresa, “Os anos 60 ficam marcados com a fundação da Corticeira Amorim, que nasce com o capital social repartido entre os irmãos Amorim (Américo, António, José e Joaquim) e o seu tio Henrique. Em 1969, os quatro irmãos, que inicialmente tinham apenas 20% da empresa, tornam-se os seus únicos accionistas”.

O espírito inquieto do empresário dizia-lhe que a cortiça se transformaria numa matéria-prima valiosíssima. Tinha razão. O Grupo aposta, então, na diversificação da actividade, através do investimento em sectores e áreas geográficas com elevado potencial de rentabilidade. A visão futurista do empresário sempre lhe deu frutos. Hoje em dia, grande parte da cortiça, é exportada para todos os Continentes.

Retalho, Indústria, Telecomunicações, Turismo ou Media. A história de alguns dos maiores negócios em Portugal confunde-se com o percurso de Belmiro de Azevedo, o engenheiro natural de Marco de Canaveses, que morreu no dia 29 de novembro.

Engenheiro Químico, entrou em 1965 na Sonae Sociedade Nacional de Estratificados, uma pequena empresa com dificuldades económicas, como diretor de Investigação e Desenvolvimento. No início dos anos 80 torna-se acionista maioritário. Em 1984 esteve na criação da Modelo Continente e da seguradora MDS. Mais tarde, lançou em simultâneo sete ofertas públicas de venda (OPV) para colocar em Bolsa as empresas Agloma, Ibersol, Modelo Continente, Publimeios, Robótica, Selfrio e Viacentro. No final dessa década destaca-se a criação da Sonae Imobiliária e abertura dos primeiros centros comerciais em Portimão e Albufeira; venda de 10% do Banco Totta & Açores.

A década de 90 é marcada pelo lançamento do jornal “Público” e, em seguida, afasta a família de Pinto de Magalhães da Sonae após um longo processo em tribunal. Depois, a criação da Modalfa e Maxmat, a abertura do primeiro ginásio Solinca, a inauguração do Centro Comercial Colombo e a compra da Torralta, em Tróia.

“O mais importante nesta curta passagem pela Terra é procurar manter o estar e o ser em harmonia o máximo de tempo possível ao longo da vida. E, quando tivermos de partir, desejar serenamente deixar de estar antes de deixar de ser. Isto é, viver lucidamente a última etapa da vida”, disse em 2001.

O lançamento da Optimus, a venda de 4,3% no BPI e da participação da Portucel constituem outros marcos da carreira do empresário. “Pior é sempre não decidir ou decidir a desoras”, afirmou no seu discurso Belmiro de Azevedo, no evento de comemoração dos 50 anos na Sonae. “Não tive sempre razão”, acrescentou. E um desses casos ficou demonstrado na “história recente da Sonae Indústria”, disse.

“A minha primeira tarefa nesta empresa consistiu em destruir para voltar a construir”. Porque, justificou, “o que via” em 1965 “não servia para a Sonae”. Houve “muitos sucessos durante esta história”, mas também “insucessos”, como “a distribuição no Brasil, o processo Portucel, a OPA sobre a PT” – “exemplos que deixaram cicatrizes”, mas com os quais “soubemos aprender”.

Em 2007, Paulo Azevedo foi oficialmente nomeado o novo CEO da empresa, depois de um escrutínio interno que permitiu garantir que a escolha seria profissional e a melhor para o futuro do grupo. Belmiro aproveitou a apresentação de contas da empresa e desfez um tabu que o próprio tinha criado quando anunciou que ia passar a chairman do grupo. O primeiro a chegar à apresentação foi Paulo. Calmo e sorridente, deixou-se fotografar sem nunca perder a boa disposição. Nesse dia, escolheu uma gravata azul.

A seguir, chegou Belmiro de Azevedo , com uma gravata igual. Um pormenor que fazia toda a diferença. Era uma espécie de premonição do que viria a acontecer. Tinha começado a preparar a sua saída da liderança – o filho para a presidência da Sonae e, em 2013, abandonou a Sonae Capital, deixando a liderança nas mãos da sua filha, Cláudia Azevedo.

No plano nacional este foi também um ano marcado pelo desaparecimento de outras figuras nacionais como o músico Zé Pedro, o fiscalista Medina Carreira, o ex-ministro Miguel Beleza ou o bispo D. Manuel Martins. A morte de Liliane Bettencourt (herdeira da L’Oreal e a mulher mais rica do mundo), do milionário David Rockfeller, e de Hugh Hefner, fundador da revista ‘Playboy’ foram, entre outros, notícia em todo o mundo.

A 16 de junho morreu Helmut Kohl, apelidado por muitos de “o Pai da Reunificação”. Nasceu em Ludwigshafen am Rhein a 3 de Abril de 1930. Era o terceiro filho de um funcionário público e de uma dona de casa, que constituíam uma família conservadora e católica romana, que viu o filho mais velho sucumbir na II Guerra como soldado ainda quase criança e desesperou ao ver o último e lunático esforço de guerra de Hitler chamar o jovem Kohl para as suas fileiras. Não chegou a combater, mas deu mostras de querer entrar muito cedo nos avatares do pós-guerra: juntou-se à CDU, recentemente criada, em 1946, e foi um dos fundadores da juventude do partido na cidade onde nasceu.
Entretanto, desistiu de um curso de Direito para concluir um de História e Ciências Políticas – chegou a ser professor na Universidade de Heidelberg – e foi subindo os degraus no interior da hierarquia do partido até ter chegado, em Maio de 1969, a governador do Estado da Renânia-Palatinado (que fizera parte da zona de ocupação francesa no final da II Guerra), e, pouco mais tarde, a membro do Parlamento Federal (Bundestag). Já antes, em 1960, casara-se com Hannelore Renner (que haveria de se suicidar em Julho de 2001), com quem teve dois filhos.
Nas eleições federais de 1976, Kohl foi o candidato a Chanceler pela coligação CDU/CSU, tendo obtido 48,6% dos votos. Mas não chegou: o SPD de Helmut Schmidt, em coligação com o FDP, formou governo. Kohl decidiu então desistir do governo da Renânia-Palatinado e concentrar-se na liderança da oposição à coligação de centro-esquerda. Mas o partido acabaria por o castigar: nas eleições de 1980, Kohl foi preterido, e a coligação apresentou Franz Josef Straub como candidato a Chanceler. Também perdeu (outra vez para Schmidt) e voltou para o estado da Bavaria, de que era governador.

Dois anos mais tarde, um conflito entre os dois partidos de coligação no governo – o FDP queria uma liberalização radical das leis do trabalho, enquanto que o SPD preferia continuar a tradição proteccionista de que Bismark tinha sido pioneiro na Europa – ‘atirou’ o poder para os braços de Helmut Kohl. Através do chamado (e muito pouco usado e não isento de críticas) voto construtivo de desconfiança – que permite a um parlamento retirar a confiança a um governo se houver uma alternativa de sucesso potencial junto da oposição – Kohl tornou-se Chanceler da Alemanha.

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