As respostas às perguntas que iam marcar 2017

Estes eram alguns dos temas que previsivelmente iriam marcar o ano que agora termina. Na altura, tínhamos perguntas para as quais era necessário encontrar respostas.

Jose Luis Gonzalez/Reuters

Na última edição publicada em 2016, a equipa do Jornal Económico definiu 17 perguntas que não tinham ainda resposta e que, no nosso entender, iriam marcar o ano que agora termina. Nestas questões abordávamos os temas que considerámos mais suscetíveis de influenciar a realidade que temos por missão reportar e que, quando chegamos ao final de 2017, revisitamos as perguntas feitas e as respostas que os acontecimentos nos deram.

O diabo chega no próximo ano?
Não chegou. Este foi um tema de 2016 e de boa parte de 2017. Questionava-se se a economia portuguesa, fragilizada, dependente da ação do Banco Central Europeu (BCE) para conseguir financiar-se nos mercados internacionais, conseguiria aguentar-se em 2017, depois da política de devolução de rendimentos, ou se vinha lá o diabo e fazia derrapar as contas públicas e arrastava o país para nova austeridade, como aventava Pedro Passos Coelho. Pois bem, os pessimistas saíram derrotados em toda a linha. O crescimento económico manteve-se, o défice caiu para um mínimo da democracia, o desemprego desceu e Mário Centeno passou de patinho feio do governo a Cristiano Ronaldo das Finanças europeias, nas palavras do ex-ministro alemão Wolfgang Schäuble, assumindo a presidência do Eurogrupo. Nem as pequenas coisas – como as cativações –, onde se esconde o ‘demo’, foram suficientes para por em causa o ministro mais popular do governo.

Passos Coelho chega às autárquicas?
Chegou às autárquicas, mas não passou daí. Menos de 48 horas depois de o PSD ter registado o pior resultado de sempre em eleições autárquicas, conquistando apenas 79 autarquias, Pedro Passos Coelho desistia. Anunciou que não se recandidataria à presidência dos social-democratas e que não queria ser o cimento que tornava possível a existência da “geringonça”. Menos sete câmaras do que em 2013 – que já tinham sido menos 31 do que nas eleições anteriores – e queda para terceiro lugar em Lisboa e no Porto foram a gota de água que fez transbordar o copo. A verdade é que Passos Coelho parece nunca ter recuperado de ter vencido as eleições legislativas, mas não ter conseguido formar governo, nem, depois, constituir uma oposição relevante.

Sócrates vai ser acusado no processo Marquês?
José Sócrates foi, finalmente, acusado, naquele que é considerado o processo do regime e que conta com mais 18 outros arguidos individuais e 9 sociedades. Pela primeira vez, um ex-primeiro-ministro é acusado pela justiça. O Ministério Público assaca-lhe a prática de crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. Acusa-o de ter recebido mais de 24 milhões de euros, entre 2006 e 2009, em troca do favorecimento ilegal de interesses do Grupo Lena, do Grupo Espírito Santo e da Portugal Telecom. Não estará sozinho no banco dos réus: juntamente com Sócrates são também arguidos aquele que foi o patrão do maior banco privado português, Ricardo Salgado, e os gestores responsáveis por uma das maiores empresas portuguesas, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava.

A geringonça faz o tri?
Fez o tri. Foram três orçamentos de Estado aprovados pela maioria de esquerda, sem vacilar ou, dito de forma diferente, abanando muito pouco. O teste mais difícil seria mesmo a proposta para 2018, porque o acordo que uniu as esquerdas no apoio ao governo do PS está já praticamente esgotado, porque a derrota do PCP nas autárquicas – perderam 10 câmaras e registaram o pior resultado de sempre – deixou os comunistas a questionar se foi boa ideia entrar no arco de governação e porque o PS se envolveu numa trapalhada de voltar atrás na palavra dada e chumbou a contribuição dos produtores de energias renováveis que tinha negociado com o BE. Mesmo assim, o OE 2018 foi aprovado com o voto a favor de PS, BE, PCP, PEV e PAN, mesmo só os socialistas tenham demonstrado algum entusiasmo.

Portugal sai do défice excessivo?
Saiu. A Comissão Europeia fez a recomendação a 22 de maio, depois de longa espera, explicada pela necessidade de perceber se a trajetória de redução do défice orçamental era consistente. Portugal tinha reduzido o défice orçamental para 2% do PIB em 2016 e as previsões de Bruxelas indicavam que o saldo se manteria abaixo da meta de 3% inscrita no PEC em 2017 e 2018. Três semanas depois, o conselho de ministros das Finanças da União Europeia (Ecofin) formalizou o encerramento do Procedimento por Défice Excessivo (PDE) aplicado a Portugal, oito anos depois.

Donald Trump constrói um muro nos EUA?
Não e sim. A construção de um muro a separar os Estados Unidos da América do México, que foi uma das polémicas pedras de toque da campanha eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca, não teve início em 2017. Em setembro começaram a ser testados protótipos – oito, no total, com diferentes alturas e diferentes materiais – perto do posto de fronteira de Otay Mesa, a leste de Tijuana. Mas Trump ainda não tem a aprovação do Congresso para pagar a construção e o governo mexicano já avisou para nem pensarem em apresentar-lhe a fatura. Até lá, subsistem os mais de 900 quilómetros de vedação já existente, começados a instalar por Bush pai e continuadas por Clinton, que representam quase um terço da fronteira entre os dois países.

A extrema-direita chega ao poder na Europa?
Se excetuarmos o que aconteceu na Áustria, onde os conservadores do Partido Popular venceram as eleições legislativas, mas tiveram de se coligar aos extremistas e populistas do Partido da Liberdade para garantir a governação, a extrema-direita não chegou, ainda, ao poder na Europa. Mas cresceu e as eleições em França e na Alemanha comprovam-no: Marine Le Pen foi derrotada nas presidenciais gaulesas, mas arrecadou 34,5% dos votos; a germânica AfD (Alternativa para a Alemanha) conquistou 12,6% dos votos nas eleições de setembro e tornou-se a terceira força do Bundestag.

Síria vai acentuar a crise de refugiados?
Não, antes pelo contrário. A derrota militar do Daesh no terreno – ainda que os anúncios do fim da guerra possam ser apenas sinal de demasiado otimismo – alterou a situação na Síria e influenciou os fluxos migratórios que marcaram os últimos anos. De tal forma, que mais de 31 mil exilados dos 5 milhões que há na região regressaram casa na primeira metade de 2017, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Na Turquia, foram mais de 50 mil os que, em apenas duas semanas, aproveitaram a abertura temporária das fronteiras para celebrarem em solo sírio a festividade muçulmana do Eid al-Adha. Isto, ainda antes de Rússia, Irão e Iraque anunciarem a vitória sobre o Daesh.

Brexit: um divórcio amigável ou litigioso?
Um divórcio demoradamente negociado. Primeiro, as negociações pareciam arrastar-se; depois, com o aproximar do final do ano, aceleraram e definiu-se um momento para a saída do Reino Unido da União Europeia – 23h00 do dia 29 de março de 2019 – e chegou-se ao ponto de discutir o custo – mais de 40 mil milhões de euros. O problema será explicar este acordo em casa.

O Papa Francisco vai abdicar no próximo ano?
Não. A questão colocava-se, depois do precedente estabelecido por Bento XVI e pelas notícias que indicavam que Jorge Maria Bergoglio – que completou 81 anos de idade há duas semanas – poderia não se sentir com saúde para a tarefa hercúlea que é suceder a Pedro. Aliás, o Papa Francisco disse mais que uma vez que esperava que o seu pontificado fosse curto: “Tenho a sensação de que o Senhor me colocou aqui para uma missão breve”, disse. Mais de quatro anos já passaram desde a investidura, em março de 2013, e a missão parece não ter terminado.

O euro vai valer menos do que o dólar?
Não e apesar das apostas de bancos como o Barclays, o Goldman Sachs ou o Detsche Bank, que acreditavam que o dólar norte-americano iria fechar 2017 a valer mais do que o euro, o que não acontecia desde 2002, cedo se percebeu que não aconteceria. A moeda única tocou mínimos logo no início do ano, a 3 de janeiro, nos 1,04 dólares, mas não voltou a valer menos do que 1,05 depois dessa primeira semana. E subiu, para 1,1 dólares, em maio; para 1,15, em julho; para 1,2, em setembro. E nem as três subidas das taxas de juro este ano, com que Janet Yellen se despediu da Reserva Federal, ajudaram.

Vamos continuar a pagar os erros dos bancos?
Sim, os custos com a crise bancária continuaram a pesar e vão continuar, ainda que indiretamente, a ser sentidos pelos contribuintes. Isto, tendo em conta o custo anual de processos já longos – como o do BPN, que já dura desde 2008 –, mas também de processos mais recentes, com o caso do empréstimo contraído pelo Fundo de Resolução para fazer a resolução do Banco Espírito Santo, que implica, nesta altura, diz a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, um perdão de “cerca de 630 milhões de euros”. Até ao final do ano passado, os custos do Estado com a banca, entre ajudas, garantias e outras necessidades, já tinha ultrapassado os 14 mil milhões de euros. Só em juros de empréstimos que teve de contrair para apoiar o sistema financeiro a conta do Estado ultrapassa 1.800 milhões de euros.

Os transportes vão funcionar melhor?
Não funcionaram melhor. Longe disso. Se a preocupação, no final de 2016 era o modelo em que a TAP iria funcionar, a prática do uso dos serviços de transportes mostrou que o défice não estava tanto na aviação, mas antes no metropolitano, na ferrovia e na rodovia, especialmente em Lisboa, onde as queixas se acumularam. Só no primeiro semestre do ano, a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes recebeu, diretamente ou por via de livros de reclamações, mais de 8.000 queixas, a maioria das quais – quase 90% – nos setores rodoviário e ferroviário.

O ‘bull market’ vai continuar?
Continuou. Aliás, os analistas utilizam uma palavra só para classificar o que foi o ano de 2017 no mercado acionista: “Excecional!”, assim, com exclamação. Lisboa superou a generalidade dos pares europeus, que também viram os índices subir. Em Espanha, a tendência tremeu um pouco com a crise catalã, mas assim que a questão política serene – não que haja vislumbre que tal aconteça – o índice de Madrid deverá seguir o mesmo caminho, de alta sustentada. Nos Estados Unidos ainda foi melhor, com o Nasdaq a ganhar quase 30% desde o início do ano. O dinheiro barato, a confiança crescente de consumidores e empresários, a revisão em alta das perspetivas e das projeções de crescimento económico, tudo ajuda ao momento do mercado de capitais, que está numa da mais longas séries de ganhos de que há memória, apesar de crescer degrau a degrau, de forma lenta.

As ‘telecoms’ vão comprar a TVI e a SIC?
Não compraram, mas a corrida das telecomunicações em direção aos media teve início com a Altice, que controla a operadora de telecomunicações PT Portugal (Meo), a anunciar, a 14 de julho, um acordo com a espanhola Prisa para a compra da Media Capital, dona da TVI, estação líder no mercado português, numa operação avaliada em 440 milhões de euros, que motivou críticas dos concorrentes do setor das telecomunicações, Nos e Vodafone, mas também do setor da comunicação social, a Impresa. O negócio transbordou para a política e para a discussão pública e já teve um processo regulatório atribulado, com uma ‘não decisão’ da ERC, que deixa todo o ónus com a Autoridade da Concorrência, que detém o processo.

A bolha imobiliária vai rebentar?
Não rebentou, antes pelo contrário, avolumou-se. Mas os analistas consideram que não se trata de uma bolha, mas de um ajustamento de preços no setor do imobiliário, depois dos anos de crise – entre 2011 e 2014 Portugal viveu subordinado a um programa de assistência internacional. O facto é que em zonas urbanas – especialmente em Lisboa e Porto –, onde os estrangeiros assentaram praça, seja temporariamente, como turistas, seja para viver, os preços dispararam. Na capital, o primeiro trimestre de 2017 foi o melhor de sempre para o mercado imobiliário, com os preços a atingirem a maior subida desde o que o INE regista este tipo de dados; a meio do ano, o preço do metro quadrado era avaliado pelos bancos em mais de 2.115 euros, quase o dobro da média nacional. Em três anos, o valor subiu cerca de 20%, para valores quase pré-crise. Em setembro, a ideia é que 2017 fechará como o melhor ano de sempre para o setor imobiliário, com o investimento a superar os 2.000 milhões de euros.

Jorge Jesus vai descer à terra?
Não foi ainda em 2017 que Jorge Jesus levou o seu Sporting a vencer o campeonato, que acabou com um tetra do Benfica – o primeiro no seu historial –, com os encarnados a vencerem ainda a Taça de Portugal e, também, a Supertaça. Já na época que se iniciou este ano, tudo é diferente, com os leões a chegarem ao Natal em primeiro lugar no campeonato, a par do Porto, mas com mais três pontos que o Benfica. E nada vai mudar até ao final o ano.

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