As tradições ainda são o que eram

Esta é daquelas alturas do ano em que, aconteça o que acontecer, é obrigatório estar presente, independentemente de afazeres, de outros compromissos, de quereres e de desavenças.

As tradições podem não ser o que eram, mas isso não importa, nem um bocadinho, porque da forma que as vejo cumprem dois objetivos de valor incalculável: primeiro, dão-nos uma sensação de estabilidade, o que é importantíssimo nestes dias em que o tempo passa por nós a grande velocidade, como se estivesse a fugir, e nós, claro, a persegui-lo; depois, porque as tradições nos dão desculpas perfeitamente aceites, seja para uma festa ou celebração, para recordar a História (e estórias) ou ainda para reunir amigos ou família, como acontece agora, no Natal.

Esta é daquelas alturas do ano em que é impossível ficarmos indiferentes a tudo o que nos rodeia, porque não estamos a falar apenas de uma tradição, mas de um conjunto de pequenos sinais, que se acumulam para criar um todo muito familiar. Sem um destes pequenos símbolos, parece que nos falta alguma coisa para que o quadro esteja completo. É o pinheiro enfeitado e iluminado – nós ainda estamos na fase de “mãe, vamos fazer hoje a árvore de Natal?” –, que a dupla de gatos ensandecidos que temos em casa adora trepar; são bolas coloridas, fitas, estrelas, anjos pela casa e – muito importante – na porta da rua; são as prendas, claro, uma verdadeira dor de cabeça, mas também um gesto; é a música própria da época – “mãe, o CD do Natal?” –, confesso que tenho um CD com Sinatra, Dean Martin e até Johnny Cash, com Silent Night, White Christmas e mais umas quantas, que são uma espécie de banda sonora de dezembro; e até o frio, que convida a lareira e a camisolas grossas e meias quentes, de lã. E, depois, especialmente, a reunião da família. Aconteça o que acontecer, há um código não escrito que ordena uma reunião familiar, na noite de 24 ou no almoço de 25. Aconteça o que acontecer, é obrigatório estar presente, independentemente de afazeres, de outros compromissos, de quereres e de desavenças. Quem está fora regressa. Não há a mínima possibilidade de desculpa, nesta altura, a não ser existir um momento de união.

Esta é a forma que encontramos para cumprir um ritual de juntar toda a família e partilhar um momento. A desculpa pode bem ser pagã – lembrem-se que as festas de dezembro começaram com a Saturnalia, no então pouco cristão império romano – ou religiosas, para celebrar o nascimento de Cristo.

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