As vítimas da inflação

A inflação afeta mais os mais pobres ou os ricos? A resposta é: obviamente que depende.

Durante a semana tive a oportunidade de participar num pequeno debate acerca de “O que é a inflação?” com dois dos melhores economistas nacionais – Pedro Brinca e Ricardo Reis – com quem tenho aprendido bastante. A dada altura, o moderador colocou uma questão interessante: a inflação afeta mais os pobres ou os ricos? Respondi que considerava que as famílias de menores rendimentos e sem poupança são as maiores vítimas da inflação. O Ricardo Reis ripostou e disse que são os mais ricos. Quem terá razão?

Como muitas vezes acontece em finanças e economia, e citando outro grande economista português (Jorge Farinha), a resposta é: “obviamente que depende!”. Em termos absolutos, não há qualquer dúvida que o Ricardo Reis tem toda a razão. Os que têm mais riqueza têm frequentemente dificuldade em ter uma rentabilidade das suas poupanças que supere a inflação, sobretudo quando ela é alta e aplicam em depósitos ou obrigações. Obtêm, portanto, taxas de retorno reais negativas que delapidam o poder de compra do seu dinheiro. Perde-se mais quando se tem uma rentabilidade nas poupanças positiva de 1% num ano com inflação a 5% do que num ambiente de inflação nula e com perdas de 2% nos investimentos. Quando os montantes são muto altos, a erosão do património atinge valores significativos que não se comparam com as perdas resultantes da inflação em famílias sem poupança. No entanto, os mais ricos não se privam de bens essenciais e, quando muito, podem optar por não gastar em outros itens que considerem demasiadamente caros.

Essa é a grande diferença: as famílias com menos recursos não têm essa discricionariedade no consumo e, como não têm margem de manobra, são muitas vezes obrigadas a escolher entre bens ou serviços essenciais ou impedidas de manter os níveis mínimos de poupança. Isto acontece sobretudo nos períodos de aceleração da inflação, quando os seus rendimentos – tipicamente salários e pensões – ainda não acompanharam a subida dos preços. Portanto, os mais pobres não veem as suas poupanças desvalorizarem, mas têm outros problemas, essencialmente ligados à sua qualidade de vida.

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