As zungueiras, as nossas heroínas sem rosto

A mulher zungueira é uma marca histórica e simbólica da cidade de Luanda. Qualquer transformação da condição da mulher zungueira terá de ser feita através de uma perspectiva de diálogo entre as autoridades oficiais e as zungueiras.

As zungueiras são vendedoras ambulantes e expressam a poética da resiliência humana na dura realidade de Luanda, porquanto vão resistindo à sua sentença de miséria e de subjugação humana. Igualmente, estas heroínas estão submetidas aos actos de violência física e simbólica, por exemplo, dos fiscais e dos agentes das forças policiais.

Qualquer cidadão angolano deve encarar as zungueiras como a expressão da negação da fatalidade social. No entanto, entendemos que não se pode olhar para as zungueiras numa perspectiva estritamente poética, porque estas também são reflexo do fracasso das políticas públicas angolanas.

Mesmo no meio deste descaso governamental, estas senhoras continuam a resistir ao tempo e ao seu fatal destino, muitas vezes com um estranho sorriso e alegria contagiante. Quando se inicia um negócio com uma zungueira não adquirimos apenas um bem, mas, também, a possibilidade de tomar contacto com uma longa história de vida.

As zungueiras transformaram os seus pesadelos diários em sonhos. Muitos jovens angolanos puderam concluir a sua formação académica graças ao (muito digno) ofício das suas mães zungueiras. De forma que se tornou bastante comum ouvir-se o seguinte: “na bacia de uma zungueira sai de tudo, o lucro para sustentar o negócio, a alimentação da casa e os estudos dos seus filhos”.

A esta ginástica comercial está subjacente um risco muito elevado, visto que, na eventualidade de um agente de uma autoridade policial ou fiscal reter o negócio desta senhora zungueira, a sua cadeia comercial desmorona-se num instante. Estas senhoras operam dentro de uma cadeia de miséria ou de sobrevivência, sempre desafiando a vida e a morte.

Mesmo no seio deste paradigma social e sujeitas a cenários de violência, as zungueiras ergueram os sonhos de vida e, sobretudo, de ascensão social dos seus filhos.

Para isto, saem das suas casas madrugada adentro, o que constitui, em si, um sério risco para a sua própria segurança, atendendo ao facto de viverem em bairros com elevados índices de criminalidade, em particular nas horas em que não há muitas pessoas nas ruas ou quando não existe iluminação. Mesmo assim, não há risco que contenha a força da mulher zungueira.

Assim, quando as autoridades governamentais, centrais ou locais, desejam condicionar a actuação das mulheres zungueiras, devem, antes de tudo, louvar essas mulheres e procurar, sobretudo, dignificar tais pessoas, sem utilizar estas mulheres como meio ou forma de atingir um fim político.

Para tal, devem estudar as melhores formas de criação de políticas públicas a favor das zungueiras que envolvam actores da sociedade civil e excluam as autoridades que possam utilizar meios coercivos na sua actuação. Estas autoridades podem constituir-se como um risco de fracasso de qualquer actuação governamental, devido ao longo historial de abuso já cometido. Por isso, torna-se importante reconstituir o nível de confiança política junto às zungueiras.

A mulher zungueira é uma marca histórica e simbólica da cidade de Luanda. Qualquer transformação da condição da mulher zungueira terá de ser feita através de uma perspectiva de diálogo entre as autoridades oficiais e as zungueiras. Caso contrário, será uma política desenhada ao sabor da necessidade dos governantes e não perspectivada para lidar com as preocupações de tais mulheres. Perpetuando-se a velha lógica de uma perspectiva idealista e não realista, mais simbólica do que efectiva.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Recomendadas

A solidão que tanta falta nos faz

O que acontece quando a vida em conjunto se torna uma escolha forçada e a única alternativa? O que acontece quando escolhemos, de forma constante, abdicar da nossa privacidade?

Proibido poupar

Uma sociedade que oprima a poupança e reduza o indivíduo a uma máquina de consumo será, indubitavelmente, opressora.

A crise da habitação e o papel do Estado

A banca e o supervisor podiam ter evitado a excessiva utilização de créditos à habitação com taxa variável.
Comentários