Asfixiados

Tudo parece pouco relevante perante os imponderáveis da nossa existência e subsistência quando se questiona se pode haver uma guerra nuclear.

Passou quase despercebida a efeméride de dois anos após o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, e o mundo mudou com a pandemia. O medo pelo desconhecido alienou e acima de tudo obstaculizou a manutenção do nosso estilo de vida e a liberdade total de circulação foi substituída pelo confinamento e distanciamento social, expressões, prevejo, que nunca mais deixarão de fazer parte do nosso léxico mais corriqueiro.

Ninguém reparou nessa data porque a arena mediática foi tomada em regime de exclusividade por uma guerra sem sentido, marcada pelo capricho de Putin invadir a Ucrânia, movimento esse que se previa curto e rápido e que se está a revelar um atoleiro. Os ventos de guerra voltaram a um continente que teve décadas de desenvolvimento em paz após a Segunda Guerra Mundial.

Há pequenos sinais oriundos da diplomacia que criam a esperança de um cessar-fogo, contudo, não sabemos se um novo espirro do líder russo poderá constipar a Europa e o mundo, logo, sob este cenário de imprevisibilidade a compasso dos humores de um autocrata do qual poucos conhecem o pensamento e, sobretudo, os sonhos e também os ressentimentos mais profundos, o equilíbrio geopolítico tornar-se-á diferente e estará muito mais próximo dos dias da Guerra Fria e dos personagens de John Le Carré.

Sem esquecer que mesmo nos esforços de mediação pela paz, actores como Israel, Turquia, China (na sombra, cínica e sem dar ponto sem nó) ocuparam o espaço que a União Europeia não teve a arte e o engenho de ocupar, e os Estados Unidos com Joe Biden são neste momento uma caricatura.

Face às incógnitas que sobressaltam o planeta, é engraçado como um simpático senhor veio ter comigo e me disse: “o senhor que escreve nos jornais e comenta na televisão já reparou que agora que não temos Governo é que estamos a ser bem governados”.

Sorri. É verdade, parece pouco importante que Portugal por culpa do processo do voto dos emigrantes ainda não tenha dado posse ao novo Governo, mas as coisas vão fluindo. Tudo parece pouco relevante perante os imponderáveis da nossa existência e subsistência quando se questiona se pode haver uma guerra nuclear.

O Novo Banco pedir 200 milhões ao Fundo de Resolução depois de pela primeira vez apresentar lucros; os seis anos de prisão para Ricardo Salgado; os outros processos de corrupção que não avançam, tudo parece pequenino ao olhar para os males do mundo.

Estamos asfixiados por uma tempestade perfeita de uma guerra da qual não conhecemos os contornos finais, por uma sexta vaga de pandemia que aí vem, preços de bens essenciais a disparar, seca extrema e até um pó do deserto que apagou as estrelas do céu. “Há décadas em que não se passa nada e semanas em que se passam décadas”, dizia Lenine. Desde Março de 2020 que mudámos a nossa relação com o mundo e ninguém sabe como vai ser o futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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