Até a ventania anda traiçoeira na União Europeia

O vento do Futuro, segundo estudos produzidos por especialistas, tende a tornar-se muito traiçoeiro, gerando uma situação complexa na exploração da energia eólica.

1. O vento anda arredio. Pretendem/pensam alguns países da Europa combater a crise climática muito pela aposta na energia do vento, e este a trocar-lhes as voltas!

No último ano, segundo o programa Copérnico da União Europeia (de recolha, tratamento e disponibilização de informação sobre o estado do tempo na Terra), o vento atingiu o pico mais baixo e irregular dos últimos 40 anos, nomeadamente em países do Norte da Europa, como o Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo e Alemanha.

“Em 2021, a velocidade das correntes de ar a uma centena de metros de altitude – a altura das eólicas – diminuiu entre 10 e 15% na Europa do Norte em relação às médias habituais” (“L’Express-le Sept”, 6 de Outubro 2022). Assim, a eólica que participava no “mix” da electricidade do Reino Unido “com 18%, viu-se reduzida a 2%, em Setembro 2021”.

O vento do Futuro, segundo estudos produzidos por especialistas, tende a tornar-se muito traiçoeiro, gerando uma situação complexa na exploração da energia eólica.

As perspectivas apontam para a consolidação desta evidência actual, pondo em causa o papel que às eólicas estava reservado no combate à crise climática, com a produção de energia sem emissão de gases com efeito de estufa (CO2).

Dada a capacidade das turbinas eólicas [quer terrestres (onshore) quer marítimas (offshore)] ser muito sensível à velocidade do vento, esta pode tornar-se uma fonte de energia inadequada e cara, face a outras fontes alternativas.

Poderá esta situação ser revertida em benefício da UE?

2. A União Europeia, infelizmente, não tem uma política energética comum, uma das suas graves falhas estruturais e um dos símbolos maiores de soberania. E nunca terá, enquanto Alemanha e França não se entenderem sobre certos princípios básicos relativos à energia.

O sistema energético da Alemanha vem se desenvolvendo, desde há muito pela Energiewende – um conceito alemão de transição energética, assente nas energias renováveis e sobretudo a saída da nuclear. De facto, uma combinação de energias fósseis e renováveis.

Três meses depois do “desastre nuclear” de Fukushima, Angela Merkel, aproveitando a emoção da população, toma a decisão política de fazer o seu país sair da energia nuclear, fazendo passar no Parlamento o decreto do fecho das 17 centrais nucleares alemães até 31 de Dezembro 2022.

Merkel toma, então, uma decisão política de um enorme significado para o seu país, com efeitos determinantes na UE, permitindo-lhe aparentemente acelerar a transição energética, conjugando energias renováveis e gás natural russo, o que não corresponde estritamente a produzir energia limpa, pois não consegue desenvencilhar-se das energias fósseis, necessárias às renováveis de produção intermitente.

Dois erros crassos numa só decisão. Retirar do “mix eléctrico” a nuclear e tornar-se dependente em mais de 50% do fornecimento de gás dum só país, embora barato.

Perante esta decisão há quem afirme: o problema de fundo da energia na União Europeia decorre de opções erradas de um só país e acrescenta a Alemanha nunca fará a transição energética limpa, sem recurso à energia nuclear. Um tema e um debate interessantes e, talvez, a prazo, o princípio da solução da crise estrutural europeia.

3. Problemas de preços do gás já os havia antes da guerra, até porque o ambiente vivido era crítico, mas tudo se complicou com ela. E depois, no tempo da guerra, já nem Merkel era chanceler, ampliando bem mais a complicação.

Ao chanceler Scholz falta pulso, como bem demonstrou ao deixar enredar-se por Joe Biden na visita à Casa Branca, na triste história do gasoduto em que Biden afirma, em plena conferência de imprensa conjunta, “não haverá Nord Stream2” e o chanceler nem pestaneja com esta intromissão grosseira e humilhante.

A Europa no mau caminho

4. Enquanto a Ásia, nomeadamente China, Índia, Japão e Coreia do Sul e em menor grau EUA e Canadá aceleram na direcção da nuclear, a Europa entrou em queda no seu uso, devido a um grupo de países ter seguido a Alemanha. Hoje, alguns estão a recuar, de forma ainda hesitante. Até a própria Alemanha não vai encerrar todas as centrais nucleares até finais de 2022, temendo o frio de Inverno que vem aí e segundo consta com algum rigor.

A França que sempre produziu energia nuclear também acusa quebra de produção, por ter andado, por influência da Alemanha, com hesitações e ter descurado a manutenção adequada das suas centrais, vendo-se agora obrigada a desactivar alguns dos seus reactores para manutenção. Até o presidente francês, Emmanuel Macron, apesar de ter mudado de agulha quanto ao nuclear, atravessou um período de hesitação. Nas eleições últimas, apresentou um plano de relançamento da nuclear, embora os seus críticos refiram que se trata de um plano mínimo.

A situação energética na Europa, sem estratégia comum, com grandes incompatibilidades e ainda agravada pelas dificuldades de substituição do gás russo e preços três vezes mais caros, enfrentará uma crise prolongada, muito grave e recuos no combate à descarbonização. Atingir as metas em que a Europa se empenhou no Acordo de Paris não passa de um sonho, quando até as centrais a carvão altamente poluidoras estão a ser activadas, sobretudo na Alemanha.

Segundo um estudo da Rystar Energy para o American Petroleum Institute… os EUA e o Catar em conjunto nem num horizonte de 10 anos terão capacidade para fornecer à Europa mais de 50% dos consumos de gás antes fornecidos pela Rússia e, não nos podemos esquecer, que dos EUA vem sobretudo gás de xisto, de menos qualidade e caro.

Segundo a Rystar Energy, após 2025, as possibilidades de aprovisionamento irão melhorar ligeiramente. Mas, nos próximos três anos, a situação é crítica. A Europa vai sofrer muito nos invernos. Os preços de gás vão ser elevados e a quantidade reduzida. As famílias e empresas muito atingidas.  Frio, emprego, salários em risco, e fecho de empresas.

Haverá saída?

Sim, a médio prazo, mas voltamos ao princípio. Sem entendimento para uma estratégia energética na UE nada feito. A energia é o motor da economia, todos sabemos e, sem energia de qualidade não há desenvolvimento nem descarbonização das sociedades. O que equivale a recuos significativos em várias frentes, incluindo o combate às alterações do clima.

Numa zona do Planeta, onde os recursos energéticos são escassos, uma transição energética doseando energias fósseis e energias limpas não se apresenta realizável sem o recurso à energia nuclear complementada com energias renováveis competitivas. A concretização levará o seu tempo, mas previamente exige entendimento. Um problema complexo, pois, há muitos lóbis contra o entendimento, sobretudo do lado alemão.

Uma revolução mental, o mais difícil, na União Europeia na área da energia precisa-se. A nuclear terá de conquistar o seu lugar seguro, porque segura sem dependências a estratégia da UE. Outros caminhos, com as tecnologias conhecidas do presente, não nos levam à descarbonização da sociedade europeia, mas ao declínio da Europa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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