Atentados de Paris alteram atitude do Ocidente na Síria

Só há uma constante, uma universal: infortúnio. Ação, reação. Causa e efeito


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Paris assistiu em choque à matança de inocentes. A França respondeu a um ato de guerra do Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, e bombardeia Raqqa, bastião do jihadismo, em alternância com a Rússia. Só depois de sofrer ataques brutais (Paris, Egito) é que o Ocidente se prepara para atacar em força. Pela primeira vez, as três grandes potências militares (EUA, Rússia e França) se juntam contra um inimigo que é comum.

A França respondeu à matança da última sexta-feira em Paris despejando bombas sobre Raqqa, principal bastião jihadista na Síria. Horas depois, os caças russos bombardearam a mesma região. Peritos militares dizem que tal operação não seria possível, no mínimo, sem troca de informação prévia. Algo parece estar a mudar na vontade de combater o autoproclamado Estado Islâmico ou Daesh, acrónimo árabe porque também é conhecido. Algo está definitivamente a mudar!

Desde setembro até à última sexta-feira, dia em que uma operação militar, na forma de sete atentados com recurso a homens bomba – os primeiros do género realizados na Europa – espalhou o terror na cidade de Paris, a França não tinha realizado mais do que dois bombardeamentos na Síria. Desde os ataques de 13 de novembro que mataram pelo menos 130 inocentes (há largas dezenas ainda em estado grave), os Mirage e os Rafale não mais pararam em terra. Em oito dias, a França fez o que não fez em três meses.

Mas não é só. O duplo bombardeamento de Raqqa iniciado na segunda à noite,  a seguir aos atentados de Paris e poucas horas antes de a Rússia admitir, finalmente, que o avião da Metrojet com 224 passageiros a bordo explodiu sobre o Sinai com uma bomba, poderá ter sido a primeira operação concertada entre a França e a Rússia. E isto é uma grande novidade nesta guerra, que dura há mais de quatro anos.

França e Rússia estiveram, desde o início, em lados opostos na  Síria. A prioridade número um da diplomacia francesa, dos EUA e dos seus aliados sunitas (Arábia Saudita, Qatar, etc.) foi sempre abater o Presidente  Bashar al Assad. Pelo contrário, a Rússia e o Irão têm defendido a permanência do presidente alauíta no poder. Soldados iranianos e o Hezbolah libanês têm sido, de resto, o principal suporte do regime, enviando soldados que apoiam o Exército sírio nesta guerra civil que já fez para cima de 300 mil mortos.

Há pouco mais de um mês, numa demonstração de que há temas inegociáveis – o fim do regime poderia levar a uma desintegração territorial da Síria com implicações na geo-política de toda a região -, os russos, que têm uma base na província de Lataquia, intervieram militarmente cimentando, no início da sua intervenção, posições defensivas do Presidente. A campanha russa na Síria colheu, desde logo, críticas da coligação liderada pelos EUA e integrada pela França, sob argumento de que os russos não tinham entrado a matar sobre o Daesh. Pois não. E a coligação, liderada pelos EUA tinha?– a pergunta é legítima, considerando que há mais de um ano que os americanos e os seus aliados levam a cabo bombardeamentos nos territórios ocupados do Iraque e mais recentemente na Síria, sempre com tão fracos resultados. Ao que se assistiu desde esta espécie de banho maria da intervenção da coligação liderada pelos EUA? Ao crescimento do Daesh.

Este grupo terrorista, que se afastou do centro de decisões da Al-Qaeda, na qual intrincam as suas raízes, chegou, em menos de quatro anos, ao controlo de um território, fruto de conquistas na Síria e no Iraque, com o tamanho do Reino Unido. Surgido com um conceito de união política e religiosa, assente no autoritarismo (político) e na intolerância (religiosa), o Daesh luta por um regresso à Idade Média, na forma de vida, e às fronteiras anteriores ao acordo de Sykes-Picot, em 1916.

Adriano Moreira, que é provavelmente o maior nome português na área da Ciência Política, diz sobre o Daesh: “Este estado tem território, tem governo, tem exército, cobra impostos, explora matérias primas, persegue objetivos estratégicos e tácticos. Na realidade, é muito mais do que um simples grupo terrorista. À luz desta explicação, faz todo o sentido a primeira declaração de François Hollande após os atentados e posteriormente repetida: ‘A França está em guerra’”.

Adriano Moreira diz que é legítima a defesa da França “para uma declaração de guerra”. O  professor salienta que o momento para atacar a França não foi escolhido ao acaso, lembrando que vai reunir em Paris, dentro de semanas, uma das mais importantes conferências do ano, sobre a defesa do ambiente, que vai ter influência no preço do petróleo, uma das fontes de financiamento do Daesh (ver pág. 6).

O que, nestes quatro anos, as potenciais ocidentais não quiseram ver, ou não conseguiram compreender, é que o Daesh é uma organização moderna com fontes de financiamento que o tornam já praticamente auto-sustentável. O petróleo proveniente das refinarias que controla no Iraque e na Síria, a venda de obras de arte pilhadas nestes mesmos territórios, algumas das quais património da Humanidade, o tráfico dos refugiados para a Europa, os raptos de sírios ricos ou ocidentais e, por fim, embora não dispiciendos, os donativos para a causa por parte de milionários sunitas, apologistas da manutenção sem tréguas da guerra contra os xiitas.

Logo no início desta semana, quando os Mirage e os Rafale intensificavam a largada de bombas sobre Raqqa, o Presidente François Hollande reuniu com o secretário de Estado da Defesa norte-
-americano, John Kerry, acordando na necessidade de aumentar os esforços e a partilha de informação para melhor coordenação das ações na Síria. Hollande quer uma “coligação militar única”, que inclua a Rússia, e que o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprove uma resolução contra os jihadistas. Nesse sentido, o Presidente francês multiplicar-se-á em iniciatvas diplomáticas, que incluem, à cabeça, idas a Washington e a Moscovo, já na próxima semana. Enquanto isto, coube ao ministro da Defesa, Jean Yves-Le Drian, pedir à União Europeia que assista a França, país “atacado”, como está previsto nos tratados da UE.

Por Almerinda Romeira/OJE

Quo vadis Europa?
Neutralizar o Daesh exigirá tropas no terreno
Daesh é uma ameaça real
Há que controlar e punir o tráfico de armas

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