Atrasos nos diagnósticos, subida de preços e telemedicina são os desafios

A pandemia criou uma situação explosiva na população envelhecida. Atrasaram-se diagnósticos e agora temos recordes de check-ups. O aumento de preços pelos prestadores de serviços é inevitável.

Os desafios para os seguros de saúde são conhecidos e passam pela recuperação do que não se fez durante os dois anos de pandemia a nível de prevenção e diagnósticos. Ao decréscimo conhecido de acesso a cuidados de saúde durante aquele período sucedeu-se um aumento da sinistralidade. Depois temos uma inflação galopante a par de escassez de profissionais de saúde e que é algo que irá conduzir a um aumento de preços por parte dos prestadores de serviços e que se refletirá no aumento do custo dos prémios dos seguradores.

Dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que 43,9% da população portuguesa com mais de 16 anos regista doenças crónicas ou de longa duração. E isto significa um esforço tremendo para o Serviço Nacional de Saúde e para os privados. Aliás, no SNS é conhecido as disrupções de serviços relevantes, enquanto os privados têm dificultar em responder à procura e o tema da sustentabilidade dos prestadores de serviços está em causa.

As soluções estão na telemedicina ou na prestação de serviços em casa como no caso da fisioterapia. Os cuidados domiciliários são uma solução à semelhança dos países nórdicos, tendo-se concluído que tratar pessoas em casa custa menos e as doenças também se propagam menos. E os operadores estão a movimentar-se. A Médis (grupo Ageas) reviu os acordos com o Hospital da Trofa, embora no mercado se espere um aumento dos custos a nível das convenções. E numa ótica de médio prazo não seria de estranhar que os prestadores de serviços usassem apenas as suas redes e criassem acordos específicos dentro de grupos. É uma solução idêntica à espanhola e em que os planos sendo globalmente mais caros mas, em proporção dos serviços prestados saem mais baratos, só que limitados a uma rede e com alguns benefícios como seja capital sem limites. O sistema caminha para modelos diferentes enquanto dá grandes passos como seja na resposta a nível de saúde mental onde os seguros estão a adaptar-se com planos de psiquiatria e psicologia. Registou-se uma grande pressão sobre os seguradores para a teleconsulta de psicologia mas hoje há muitos planos e na medicina online existe consulta de psicologia com a Multicare e a Médis a providenciarem planos gratuitos. Há ainda planos para a cessão tabágica e de orientação para o exercício físico. Na prevenção para uma vida saudável há planos bem definidos e um dos exemplos é o da Tranquilidade e Generali que estabeleceram uma parceria com a Hi!Healthy Insurance, uma start-up com 100% dos serviços dedicados à prevenção e com o foco no bem-estar, com acesso à rede Advancare e a ginásios. Os subscritores ganham com um sistema de pontos que descontam junto de parceiros. Continuam a faltar ações preventivas na saúde mental e os problemas económicos das famílias não ajudam nessa prevenção.

O papel da Inteligência Artificial
“A Inteligência Artificial (IA), incluindo algoritmos de regras ou ferramentas de Machine Learning (ML), tem e terá um papel fulcral na gestão de recursos e na melhoria da eficiência dos cuidados de saúde. E é precisamente na prevenção e deteção de doenças que penso poderá trazer, para já, mais valor”, avança Ana Pina da Future Healthcare. Por seu lado, João dias, consultor na AON fala do futuro e da telemedicina e “na qual foi feito um investimento muito significativo pelo mercado segurador nacional desde há quatro, cinco anos atrás e que teve um papel muito importante durante as fases mais críticas da pandemia, reforçando uma tendência que veio certamente para ficar”. A IA é relevante na prevenção, diz Ana Pina, e isto porque “permite por exemplo criar ferramentas que ajudem a comportamentos mais saudáveis, interagindo de um modo personalizado à situação clínica, mas também à situação social e pessoal de cada um. Possibilita criar ferramentas que identifiquem, por exemplo, as pessoas com maior risco de determinada doença. Assim, podemos ser proactivos e colocar a prioridade de aplicação de recursos nessas mesmas pessoas. A Inteligência Artificial e em particular as ferramentas de Machine Learning permitem ainda pensarmos que vamos poder mudar o paradigma de cuidados de saúde em condições muito heterogéneas, como são as doenças não comunicáveis que já referi, para a medicina de precisão ou de um modo mais amplo para cuidados de saúde de precisão. Estas doenças são muito heterogéneas e carecem de uma abordagem diferente. As ferramentas de ML permitem-nos tratar e analisar dados de alta complexidade e quantidade. É certamente o caminho para podermos ser mais “cirúrgicos” nas intervenções que propomos seja numa perspetiva de prevenção, de mudança de comportamento ou até de tratamento”. Acrescenta que os desafios são muitos e ainda que muitas destas ferramentas são consideradas dispositivos médicos e, portanto, “têm um processo criterioso de certificação. Claro que sendo fundamental que assim seja, são processos muitas vezes complexos e morosos. Por outro lado, existem muitas ferramentas já no mercado a serem desenvolvidas, a custos consideráveis se pensarmos que a sua utilização irá ser adicional a outras e, que no final do dia, é muito difícil serem integradas em experiências de utilização simples e benéficas para os clientes e para os clínicos que as utilizam. Este é seguramente outro desafio e é por isso também que desenvolvemos muitas das nossas ferramentas internamente”. Concluir que o principal desafio “é a mudança de paradigma de modelo de cuidados e de mentalidades de todos os intervenientes, que são necessários para que a saúde digital possa demonstrar o seu potencial alcance e valor. Com o início de uma era de IA e saúde digital, as seguradoras e as insurtechs têm importantes desafios. Por um lado, integrar na sua oferta soluções que incluam todas estas condições que referi. Portanto, soluções que incluam a prevenção e o apoio a mudança de comportamentos até ao acompanhamento de gestão destas condições. Depois, encarar a saúde digital como uma via de entrega de cuidados de saúde com qualidade, que pode fazer também a integração dos mesmos e não apenas como um serviço de comodidade de acesso rápido a uma opinião médica, muitas vezes amputada pela incapacidade de avaliação física. Sem dúvida há um caminho a percorrer e uma enorme oportunidade também no que pode ser uma oferta de “precisão”. João Dias salienta que os seguradores de saúde “têm continuado a inovar nesta área alargando os serviços da telemedicina à esfera da prevenção e promoção da saúde, através do desenvolvimento de novos serviços remotos na área do bem-estar e que abarcam valências que vão desde o suporte nutricional até ao apoio psicológico online”.

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