Azeite. Herdar a sabedoria de 300 anos

São 600 hectares de olival que começaram a ser tratados ainda no século XVIII. Hoje estão sob a gestão de um antigo jornalista e gestor financeiro, João Cortez de Lobão, e são um exemplo de agroindústria reconhecida mundialmente.


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Está nos EUA, em S. Francisco, vai a uma pizzaria e o azeite sabe-lhe divinalmente. Pensa que é italiano, mas não. É da Herdade de Maria da Guarda, em Serpa, no Alentejo profundo.

João Cortez Lobão é um gestor de um grande projeto agroindustrial familiar, a Sociedade Agrícola Maria da Guarda, que foi criada em 2005, mas que “herdou toda a sabedoria dos 300 anos anteriores em que era da família e que foi passando de geração em geração”. Cortez Lobão foi jornalista e gestor dos mercados financeiros mas, há uns anos largos, voltou às origens, à terra. Pai de oito filhos “de uma só mulher” como faz questão de frisar, explica as razões do “back to basics”.

“Nunca existe uma só uma razão. Existiu uma oportunidade e acredito que o setor agrícola tem muito espaço para crescer. A população mundial continua a aumentar bastante, a classe média duplica a cada 20 anos e quer melhorar os seus consumos alimentares”. Mas para quem trabalha? Cortez Lobão faz diferente de outros industriais. É responsável por 2 a 3% da produção nacional e apostou na venda a granel de grande qualidade e com preço competitivo. Não tem malparado na empresa e apresenta contas robustas.

Diz que os italianos “são os maiores embaladores do mundo porque têm uma força de vendas brutal que está assente em cerca de 230 mil restaurantes italianos que existem no mundo inteiro que apesar de, muitas vezes, não serem detidos por italianos ou italo-descendentes, gostam de ter marcas italianas de azeite”. Diz que para um português é quase impossível ter uma marca nacional de azeite em cima de uma mesa de uma pizzaria em S. Francisco, mas acaba por chegar lá via Itália, porque os italianos compram, embalam e depois põem-no nesse restaurante italiano em S. Francisco, ou Buenos Aires ou Pequim”.

A estratégia da produção nacional continuará a ser no virgem extra. “Há muito espaço para continuarmos a crescer em qualidade e continuarmos a marcar. Depois há um segundo passo que tem de ser dado, que é a distribuição e embalamento. Alguns já sabem fazer isso – cada um dará o passo proporcional ao tamanho da sua perna -, mas eu acho que também temos algum espaço para crescer para fora do chamado mercado da saudade, que consome os vinhos e os azeites portugueses. É possível partir para fora, ainda que seja muito difícil, por ser um mercado muito marcado pelos italianos. Mas temos, claramente, espaço, porque o nosso produto é belíssimo. Não temos os canais de distribuição que outros têm, mas temos espaço para continuar a crescer”.

A Herdade Maria da Guarda tem como grande trunfo o Alqueva e a capacidade de rega. “Trás-os-Montes tem um azeite de finíssima qualidade, mas tem custos de produção muito mais elevados, devido ao terreno dobrado e à dificuldade da rega. O centro e a Beira Baixa também têm zonas boas, mas apresentam dificuldades por causa da rega, que é um fator de produção que veio introduzir competitividade”. Esta mesma competitividade do azeite nacional consegue-se pela rega, pela mecanização e pela melhoria da qualidade dos lagares. “Nos últimos 20 anos, construíram-se muitos lagares com uma qualidade, uma limpeza e uma eficiência invulgarmente boas”, diz. “A tradição era que um lagar era uma coisa suja e, hoje em dia, é uma coisa limpíssima, sem cheiros. Isso tudo reflete-se depois na qualidade do azeite. Processos limpos, bem controlados, técnicas de precisão, limpeza apurada, isso no que respeita ao lagar. No que respeita ao olival, as novas técnicas dos olivais intensivos e super intensivos permitem uma apanha muito mais barata, mecanizada e um transporte muito rápido para o lagar. Um dos problemas graves dos lagares do azeite acontece quando a azeitona demora muito tempo a chegar ao lagar, pois, a partir do momento em que a azeitona larga a árvore, começa a oxidar, ou seja, começa a criar acidez. Quanto mais depressa ela chegar ao lagar, for espremida e transformada em azeite, mais se conservam as propriedades organoléticas originais do azeite. Esse foi um aspeto que progrediu brutalmente. A azeitona nunca fica à espera no olival para seguir para o lagar. A meio do dia, assim que o camião está cheio, segue para o lagar. Antigamente, chegava a esperar uma semana e, portanto, produzia-se um azeite que era lampante, de qualidade inferior”.

Mas hoje a agroindústria faz muito mais do que produzir e vender. João Cortez de Lobão, como antigo gestor financeiro e homem dos jornais, orgulha-se de dizer que a sua empresa “atrai talentos”. Diz: “Temos uma pessoa que veio do setor militar, licenciados em gestão e pessoas que vieram do setor da banca para trabalhar connosco no lagar. Ou seja, já conseguimos atrair talentos para a agricultura quando, antes, as pessoas a associavam à enxada. Isso tudo permite criar valor e, neste caso específico da Herdade Maria da Guarda, produzir muito azeite a um preço muito competitivo para vender ao mercado internacional a granel. Desta forma, evitamos o problema da faturação e da cobrança duvidosa, porque, no granel, recebe-se antes da entrega do produto, ou seja, o comprador que venha de qualquer parte do mundo para encher o seu camião cisterna, faz antes o depósito na conta e só depois levanta o produto. Não temos estrutura para controlar faturações nem malparado. Esse é um aspeto muito bom que permite baixar brutalmente os custos, pois há uma estrutura que desaparece. Para além disso, todo o processo de produção é muito mais barato nos dias que correm, produzimos um quilo de azeite a uma fração do preço a que se produzia há 20 anos. Porque a apanha, que representava a maior parte do custo, hoje em dia é muito mais barata por quilo do que era antigamente”.

Ainda assim, os investimentos são grandes. Foi feito um esforço global de 14 milhões de euros para 600 hectares de olival que está totalmente plantado e a produzir. E nos últimos 18 meses foram investidos mais 1,5 milhões de euros. A empresa já consegue “exportar” gestão, pois já tem casos de agricultores que os contratam para gerir terra e replicar os processos de produção da Herdade Maria da Guarda. Sem descurar eventuais parcerias com clientes que queiram cruzar participações, Cortez Lobão diz que o objetivo é manter os elevados níveis de competitividade. Já adquiriu mais alguma terra para além daquela que a família deixou e está a estudar outras compras, “mas sem pressa”.

Não esquece o passado e sublinha que “todas as fases são bonitas”. Afirma: “Guardo belíssimas recordações do jornalismo económico, tenho muitas saudades mas sei que as coisas não são repetíveis como se, por cada uma tentativa falhada, eu quisesse repetir o que fiz quando estava nos meus 20 e tal anos. Portanto, o sítio onde estou a cada momento é o melhor sítio para se estar. Estou e estive muito feliz no setor dos media, estive felicíssimo no setor financeiro nos anos 90, curiosamente, também muito bons anos. Depois tive a sorte de entrar no setor agrícola numa altura em que tudo estava a mudar e a mexer e que permitiu ver, com rapidez, a criação de valor, de emprego e de riqueza e a distribuição da mesma”.
Aliás as preocupações sociais estão na ordem do dia. “Somos uma empresa muito preocupada em termos sociais. Temos uma série de iniciativas, por exemplo, colaboradores com filhos menores de 10 anos têm um subsídio adicional de 50 euros por filho, o lar ou o infantário de Serpa ou a Caritas recebem, todos os meses, azeite para ser distribuído pelas pessoas, ou patrocinamos o Museu Nacional de Arte Antiga, porque sentimos que a fórmula económica só está completa quando a criação de riqueza tem também a distribuição de riqueza por quem necessita. Eu não passo a comer mais bifes, os meus chegam-me perfeitamente e o resto é, naturalmente, para distribuir pelas franjas da sociedade que precisam. Se todas as empresas trabalharem um bocadinho isso, o mundo fica um bocadinho melhor. Essa é uma parte da equação que eu, se calhar, não tinha no setor financeiro porque se vivia de uma maneira diferente, sem essas preocupações. Estou muito feliz agora mas também estive no setor financeiro e no dos media, não posso dizer que um é melhor que o outro. Fui profundamente feliz em cada um deles”.

E, em conclusão, não resisto a contar uma história na primeira pessoa do João Cortez de Lobão, o tal homem de 53 anos e com uma família numerosa. Contava que “no outro dia, estávamos a fazer o check in no aeroporto, e a funcionária dizia: ‘Se vai com tantas crianças, é necessária a autorização do pai e da mãe’. Pensou que eram filhos meus, da minha mulher e dos dois”. E eu disse: ‘São oito!’. ‘Mas são todos seus filhos’, perguntou. ‘Sim’, e a minha filha acrescentou: ‘E é só uma mulher!’”.

Por Vítor Norinha/OJE

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