Baixas taxas de poupança condicionam capacidade de enfrentar crises, defendeu administrador da CMVM

“A poupança condiciona a capacidade de um país de financiar o seu investimento, com impacto na produtividade e no crescimento. Mesmo em períodos económicos desfavoráveis, a existência de poupança interna ajuda os países a lidarem melhor com aqueles efeitos negativos, nomeadamente porque os torna menos dependentes de financiamento externo”, frisou o administrador da CMVM.

“Em Portugal, as baixas taxas de poupança condicionam a flexibilidade financeira e a capacidade de enfrentar futuras crises”, alerta José Miguel Almeida, administrador da CMVM, na abertura da conferência anual “A Poupança no Mercado de Capitais: Investir num Futuro Sustentável”.

O papel da poupança na dinâmica da economia, através da sua ligação ao investimento, é reconhecido pela teoria económica, lembrou.

“A poupança condiciona a capacidade de um país de financiar o seu investimento, com impacto na produtividade e no crescimento. Mesmo em períodos económicos desfavoráveis, a existência de poupança interna ajuda os países a lidarem melhor com aqueles efeitos negativos, nomeadamente porque os torna menos dependentes de financiamento externo”, frisou o administrador da CMVM.

Mas, mesmo estando em níveis baixos, a poupança das famílias constitui uma parte importante da poupança agregada. E deu dados: “Em Portugal, a taxa de poupança das famílias desceu de quase 24% do rendimento disponível em 1985, para 10% no final dos anos 1990. Mais recentemente, no primeiro trimestre de 2022, era de 7,6% já após ter conhecido um forte aumento durante a pandemia, aumento este que, contudo, terá sido temporário. Em termos comparativos, o número equivalente na UE a 27 correspondia a 14,6% do rendimento disponível, o que ilustra a grande diferença entre Portugal e a média da UE a 27”.

A baixa poupança das famílias em Portugal merece ainda maior atenção quando se constata que existe uma elevada concentração dessa poupança. “Esta concentração evidencia o papel fundamental do nível de rendimentos nas decisões de poupança”, referiu. “Assim, é igualmente necessário criar condições económicas que propiciem um círculo virtuoso de poupança, uma vez que aqueles que poupam provavelmente investirão mais e terão maior capacidade para enfrentar situações económicas desfavoráveis”.

“Importa também analisar para que tipo de instrumentos essa poupança é dirigida porque a poupança das famílias pode assumir várias formas”, lembrou.

Em 2017, cerca de 97% dos agregados familiares portugueses possuíam ativos financeiros, cuja mediana e valor médio rondavam os 5 mil euros e os 24 mil euros, respetivamente. A CMVM diz que a elevada taxa de detenção de ativos financeiros é explicada pelo facto de quase todas as famílias terem uma conta de depósitos à ordem. A predominância de depósitos nos ativos financeiros das famílias é comum a outros países da área do euro, embora seja mais percetível em Portugal do que na maioria desses países.

Mas a aplicação de poupanças no mercado de valores mobiliários é bem mais reduzida. De acordo com o inquérito à literacia financeira da CMVM, apenas cerca de 27% dos respondentes eram investidores em valores mobiliários no momento da realização desse inquérito. “Isto, não obstante, estas alternativas serem competitivas e comparativamente mais rentáveis para a aplicação de poupança de longo prazo, considerando que teriam permitido obter maiores retornos líquidos de comissões e de IRS do que a aplicação em depósitos bancários ou em dívida pública”, salienta o administrador da CMVM.

“É por isso desejável um aumento do nível de poupança no nosso país e um maior envolvimento do aforro com o mercado de capitais”, apela José Miguel Almeida.

Tal como referido no estudo publicado ontem sobre “Incentivos à Poupança de Longo-Prazo”, no caso das famílias, “esta necessidade é especialmente acentuada no que respeita à poupança de longo prazo para a reforma”, frisou.

“Apesar de a taxa de substituição de rendimentos na velhice face à situação de atividade ser de 74% em 2019, este indicador poderá cair para valores próximos dos 50% ao longo das próximas duas décadas, tudo o resto constante”, disse, acrescentando que “esta queda provocará perdas significativas de bem-estar na idade de reforma no caso de não existir aumento da poupança privada de longo prazo que permita auferir benefícios complementares da pensão pública”.

Mas a poupança de longo-prazo não se extingue na poupança para a reforma, como referiu o administrador da CMVM: “A poupança para a prossecução de objetivos específicos de médio e longo prazo (como por exemplo a compra de habitação, de bens duradouros, de educação ou a constituição de um fundo de reserva) é essencial, pois permite aumentar os fundos próprios das famílias para a realização dessas despesas, diminuindo o excessivo recurso ao crédito, o esforço mensal das famílias associado ao crédito e o risco de incumprimento para o sector financeiro”.

“É neste contexto que o estudo ontem apresentado tem propostas de incentivos à poupança de longo prazo que são mais abrangentes do que apenas os que visam objetivos de reforma”, disse.

Noutro plano distinto, mas muito relevante para o desenvolvimento do mercado, o da literacia financeira, “emergem como fatores determinantes na decisão de investimento as fontes usadas para obtenção de informação relativa a produtos financeiros, a qualidade da informação obtida e aspetos de natureza comportamental”, destacou.

“A informação é igualmente fundamental na escolha da aplicação da poupança”, defendeu, dizendo que “a eficiente transição para uma economia (mais) sustentável depende largamente da disponibilização aos investidores de informação de qualidade, consistente e comparável, que possa ser por eles compreendida e ter uma efetiva utilidade para as suas decisões”. “É também essencial o desenvolvimento de uma variedade de produtos de investimento verdadeiramente sustentáveis que deem resposta às preferências dos potenciais aforradores”.

O sector financeiro e em especial o mercado de capitais são fundamentais para esta transição, defendeu José Miguel Almeida que considera que para concretizar esta transformação emergem três áreas de atuação essenciais. A primeira, relativa à qualidade que precisa de ser alcançada na informação não financeira divulgada pelas empresas e na consideração dos riscos e dos fatores de sustentabilidade pelas entidades gestoras de ativos e pelos produtos que comercializam.

“A regulamentação europeia, tal como o regulamento relativo à divulgação de informações relacionadas com a sustentabilidade no setor dos serviços financeiros (a SFDR) ou o regulamento da taxonomia, são marcos legislativos importantes para a melhoria da qualidade da informação divulgada ao mercado, mas será preciso tempo para se colherem os seus reais efeitos”, frisou o responsável pela CMVM e anfitrião desta conferência.

“No entanto, continuamos a trabalhar para a prevenção e deteção de eventuais práticas de greenwashing que, se não forem debeladas, podem afetar a credibilidade do mercado de investimentos sustentáveis e a confiança dos investidores”, disse.

A segunda área está ligada à consistência e a comparabilidade da informação. “O primeiro conjunto de 13 standards de reporte, a nível europeu, que esteve recentemente em consulta pública, é muito completo e abrangente, cobrindo os aspetos ambientais, sociais e de governo. A nível internacional, não posso deixar de congratular a importante iniciativa de desenvolvimento de standards pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) e que, esperamos, possam evoluir, num futuro próximo, para abranger outras dimensões além do clima”, disse.

“Atuamos num mercado global e, como tal, será crucial que exista interoperabilidade entre os diversos standards para alcançar a necessária consistência e comparabilidade”, avisou.

Por fim, falou da integração dos riscos de sustentabilidade nos modelos de negócio, da integração de características de sustentabilidade nos produtos de investimento e a mensuração dos objetivos e das metas, “o que poderá não ser facilmente apreensível pelos investidores”.

“Os distribuidores desses produtos também terão aqui um papel muito relevante a desempenhar como peça chave para que os investidores consigam identificar as suas preferências de investimento em matéria de sustentabilidade, avaliar e compreender as características de sustentabilidade e comparar os produtos disponíveis no mercado que dão resposta às suas preferências de sustentabilidade”, referiu o administrador da CMVM.

José Miguel Almeida lembrou que, em Portugal, “verificamos que a oferta de produtos de investimento sustentável tem tido uma evolução crescente nos últimos meses, mas esta oferta é ainda diminuta comparativamente com a existente em outros mercados europeus”.

A poupança é muito importante, em primeiro lugar para os próprios aforradores, ao longo do ciclo de vida, e será tanto mais relevante quanto melhor for aplicada, defende a CMVM.

“E, nessa escolha, o mercado de capitais pode ser uma solução que proporciona maior retorno para o investidor e, ao mesmo tempo, uma alavanca para um maior bem-estar coletivo, através do financiamento de uma economia mais sustentável”, defendeu o administrador do regulador dos mercados de capitais.

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