A banalização da tragédia num mundo desgovernado

O ano que se avizinha promete ser dos mais complexos e imprevisíveis de sempre para a paz mundial. Resta-nos esperança, porque dificilmente poderemos contar com política.

Há que dizê-lo sem rodeios: o estado da diplomacia internacional é uma vergonha. Basta assistirmos aos despojos da “Primavera Árabe”, em particular, ao que se passa na Síria para constatarmos a absoluta ausência de estratégia internacional para lidar com o tema. Todos devemos estar preocupados porque não mais podemos dar como certo que pertencemos a uma geração que até há poucos anos acreditou que não viveria  uma terceira guerra mundial. E este risco tomou-nos de assalto apesar de se ir anunciando. Agora perguntamos, talvez tardiamente: como é que se chegou a este ponto?

Lemos no preâmbulo da Carta da ONU uma das suas razões de existir: “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”. Pergunto: há quantos anos ouvimos falar da necessidade de reformas que a tornem mais operacional e eficaz, nomeadamente em matéria de prevenção e resolução de conflitos? Quase tantos quantos os que contam a sua existência, no entanto, pouco ou nada se tem evoluído.

O problema não se esgota na ONU. Hoje, também a UE vive das palavras vazias dos seus líderes. Chegam a ser confrangedoras as manifestações dos líderes europeus no fim de cada cimeira, mas simultaneamente reveladoras da total inoperacionalidade da União em matérias de intervenção em conflitos e promoção da paz e segurança. A somar ao falhanço das organizações, com Obama os EUA perderam força no seu sempre fundamental papel de policiarem o mundo e defenderem os valores da civilização ocidental. Ganha a Rússia, que cavalga em “roda livre” na promoção dos interesses de Putin.

A cada atentado, a cada morte com potencial de desencadear uma guerra, reagimos com sobressalto e medo que depressa passam a dormência. Como é possível, quando os tempos de hoje convocam os horrores do século XX aos quais não imaginámos regressar? Numa era em que nos tornámos operadores de câmara munidos do nosso smartphone e em que as redes sociais nos permitem assistir a tudo em direto, com um simples deslizar de um dedo (desde as maiores parvoíces às mais tenebrosas desgraças), somos também nós responsáveis pela banalização das tragédias.

Crianças bombardeadas em Alepo. Assassinos disfarçados de homens de fato e gravata e pistola em punho a balear um Embaixador que se esvai em sangue no chão. Camiões desgovernados que matam deliberadamente inocentes. É tudo isto que nos entra pela cabeça com uma velocidade e uma banalidade impressionantes. Tudo isto nos é mostrado quase como se a tragédia pudesse ser o guião de um reality show. Mas é mesmo a realidade.

É difícil encontrar benefícios civilizacionais nesta absoluta ausência de censura na transmissão de massacres e barbaridades. Tudo isto é altamente potenciador de ainda mais violência. Mas também nos diz uma verdade dura que não nos deve deixar dormir descansados: as situações de guerra e terrorismo estão a alastrar-se pelo mundo, desta vez dentro das nossas fronteiras, sem que a diplomacia internacional organizada consiga dar uma resposta eficaz.

Temos um cenário mundial que não nos pode dar confiança num mundo melhor a breve trecho. O ano que se avizinha promete ser dos mais complexos e imprevisíveis de sempre para a paz mundial. Resta-nos esperança, porque dificilmente poderemos contar com política.

 

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