Banca começa a acompanhar o ritmo inovador das ‘fintech’ para se manter atual e relevante

Especialistas de ‘trading’ online e de ‘startups’ financeiras admitem que têm abrandado o ritmo dos processos de transição digital para que a banca tradicional consiga acompanhar. A literacia financeira e a celeridade são prioridades.

O número cada vez maior de fintech e outras startups a operar no sector financeiro tem acelerado a transição digital da banca tradicional, dizem representantes da fintech hAPI e da corretora XTB ao Jornal Económico. Contudo, o ritmo a que esses processos de inovação se dão é outra conversa: para uma coexistência benefíca e pacífica entre os diferentes agentes, alguns progressos têm de ser abrandados, mas a banca já acordou para a urgência em abrir as portas à inovação.

“Tem sido muito interessante ver como a banca tradicional começa a perceber e está a tentar dar a volta a todo este contexto”, diz o co-fundador da hAPI, Diogo Nesbitt. A fintech criou uma solução que permite, em poucos segundos, fornecer aos diversos clientes toda a informação e documentação exigida durante os pedidos de financiamento, tarefa que pode levar horas, ou até dias, a certificar. Para Nesbitt, a banca tem beneficiada da cooperação com as fintech, mesmo que o ritmo de trabalho e expetativas fossem, no início, destoantes: “Começamos a encontrar aqui maneiras de trabalhar, que é sempre a parte mais difícil – para nós, uma semana é muito tempo. Para a banca tradicional é muito pouco”, confessa. “Temos vindo a tentar trabalhar isso com eles”, continua, até porque a pandemia e todo o cenário de restrição física “veio acelerar esses processos”. No fundo, a própria solução tecnológica que a hAPI promete tem sido alusiva à sinergia com a banca. “Tentamos dar isso mesmo”, explica o líder da hAPI, “rapidez nos processos, desburocratização”.

Mas nem só de acompanhar a digitalização, com toda a celeridade que dela advém, se ocupa a banca. No sector financeiro há tendências que se começam a acimentar junto dos consumidores, esses cuja exigência não conhece limites, como diz o Head of Sales da XTB, Nuno Mello.

“O consumidor tem vindo a ser cada vez mais exigente e a pandemia alterou também os hábitos de consumo”, reconhece o responsável da corretora, que opera num modelo 100% digital. A alteração dos hábitos de consumo, diz, notou-se desde logo nos produtos financeiros. “Enquanto corretora, temos tentado ao máximo aproveitar este interesse crescente dos investidores”, refere. Interesse que começou a ganhar uma nova expressão “desde o início de 2020”, admite Mello.

“As pessoas estavam em casa e muitas delas com menos rendimentos. Procuravam alguma forma de obter um rendimento extra”, diz. “A XTB tentou aproveitar ao máximo (…) Essa exigência dos consumidores fez crescer a empresa em ferramentas e em produtos”, garante. Mas que expressão teve essa exigência noutras áreas do sector financeiro? Se os balcões já eram uma memória de tempos idos, no caso dos bancos, agora a demanda é por (ainda mais) rapidez, eficiência, celeridade e segurança. A banca bem tenta, admite Diogo Nesbitt, mas muitas das competências digitais ainda só são possíveis recorrendo às fintech – mas não é por falta de vontade ou capital. “Nós nas fintech conseguimo-nos especializar em algo muito específico e quando assim é, consegue-se fazer as coisas de forma mais rápida e mais assertiva – não podemos dizer que qualquer banco, se quisesse fazer isto, não pudesse investir o dinheio e tempo a tentar fazê-lo”, diz.

Receios e propensão ao risco
A questão sobre se a banca é ou não capaz de acompanhar o ritmo prende-se com o mindset, apreensão e com a morosidade em concluir processos: “Eles têm muita coisa sempre para tentar mudar”, explica Nesbitt. “Notamos que existe um compliance muito rígido: sempre que é preciso analisar uma nova tecnologia, só essa análise é algo que, na banca tradicional, leva muito tempo. Existe muito receio de dar um passo em falso”. “Numa startup, numa fintech, existe uma propensão ao risco sempre maior. Em alguma banca também, a mais recente, como um Revolut”, explica.

Para Nuno Mello, este atraso em implementar melhorias técnicas não pode ser só imputado aos bancos, ou às corretoras, até porque é preciso haver sempre um que dá o primeiro passo. “Uma abertura de conta [em corretora] há dez anos era um monte de papel”, recorda, “hoje é tudo feito online em pouco minutos – foi preciso também alguém dar esse primeiro passo para as restantes o poderem fazer”, explica. Mas o Banco de Portugal e a CMVM não são imunes a considerações: “Também são um bocadinho conservadores”, admite.

Diogo Nesbitt repara que “a escala de tempo vai reduzindo”, e dá o exemplo da abertura de conta num banco: “Duas horas era o normal, hoje é dez minutos e parece que dez minutos já é demasiado tempo”, atira. Quanto ao caminho que a banca tem a percorrer na jornada da digitalização, há “dores de crescimento” a assinalar, mas também grandes benefícios a colher, nomeadamente com a redução de custos – que terá reflexo direto para o consumidor – e com a possibilidade de abrir as portas a novos ativos, como é o caso das criptomoedas. “Nós claramente trabalhamos num sector que reduz custos à banca”, diz o representante da hAPI, “e isso terá impacto direto no consumidor”. Imagine-se, por exemplo, um processo de abertura de crédito à habitação, que tipicamente incorre em várias comissões por validação de documentos e certificação.

“A banca é muito reativa”
Já sobre a abertura de horizontes por parte da banca tradicional a novos ativos, especificamente digitais, ambos os convidados da JE Talks acenam que é uma questão de apreensão que só depende do primeiro a arriscar, tal como foi com a abertura das contas de forma 100% digital, nota Nesbitt: “No primeiro dia que algum aceitar, vão todos atrás”, brinca. “A banca é muito reativa”.

“É difícil dizer [qual será o primeiro banco]”, admite Nuno Mello, mas a aposta do representante da XTB recai sobre a banca especializada em investimentos. “Por exemplo um Banco Best, ou um Big”.

Contudo, a literacia financeira continua a ser um obstáculo ao sucesso de muitas das ambições mais firmes das fintech. Quando questionado se será relativamente fácil inteirar a população portuguesa das temáticas em torno dos criptoativos, de forma a tornar esses e outros produtos financeiros mais acessíveis, Mello olha para os exemplos estrangeiros para explicar que a penetração de soluções digitais no tecido português se prende com a pirâmide demográfica. “Países mais jovens como a Dinamarca, Noruega, Finlândia… O grau de penetração da banca é cerca de 90%”, diz. “Em Portugal, é apenas 45%”.

“Se ninguém explicar às pessoas mais velhas como usar as novas tecnologias, elas vão continuar a ir ao balcão, a usar cheques”, explica o responsável da XTB. Já Diogo Nesbitt olha de forma otimista para o futuro, que se traça com os novos players.

“Existe um desconforto, mas começa-se a discutir, a perceber onde é que podemos encaixar”, garante.

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