Banco de Portugal alerta para redução do rendimento disponível com a esperada subida dos juros

No seu Relatório da Estabilidade Financeira de 2021, o supervisor antevê a deterioração da qualidade dos ativos e materialização do risco de crédito e chama a atenção para a importância de um adequado registo de imparidades para crédito.

Cristina Bernardo

O Banco de Portugal apresentou o seu Relatório de Estabilidade Financeira de 2021, de dezembro, que analisa os principais riscos para a estabilidade financeira em Portugal, as vulnerabilidades subjacentes, assim como os desenvolvimentos da política macroprudencial.

A evolução da pandemia continua a ter impacto sobre a avaliação de riscos para a estabilidade financeira, diz o relatório.

“Apesar de, no curto-prazo, estes riscos terem sido mitigados, a incerteza na vertente sanitária e a acumulação de vulnerabilidades podem traduzir-se na materialização de riscos no médio-prazo”, alerta o supervisor bancário que avisa que “os efeitos da pandemia não estão ultrapassados, nem integralmente materializados, sendo ainda incerta a sua extensão total”.

Entre as principais vulnerabilidades e riscos para a estabilidade financeira, aprofundados nesta edição do Relatório, estão a reavaliação dos prémios de risco, em resultado do aumento de incerteza por parte dos investidores quanto à evolução da inflação e à reação das autoridades monetárias.

Mas também as alterações nas condições de financiamento nos mercados internacionais, com impacto nos  preços do mercado imobiliário residencial e no custo de financiamento do soberano e dos restantes setores institucionais.

O BdP alerta para potenciais perturbações da atividade das sociedades não financeiras (empresas) com impacto no incumprimento e materialização do risco de crédito, em particular nos setores mais afetados pela pandemia.

O relatório dá também conta da subida do rácio de endividamento dos particulares em relação ao rendimento disponível, sobretudo decorrente do crescimento do crédito à habitação, que afetaria a resiliência financeira dos particulares a variações do desemprego e consequentes quebras de
rendimento.

Para o setor bancário português, o Banco de Portugal antevê a deterioração da qualidade dos ativos e materialização do risco de crédito e chama a atenção para a importância de um adequado registo de imparidades para crédito.

A instituição liderada por Mário Centeno, alerta para a materialização do risco de mercado, decorrente de um aumento das taxas de juro de longo prazo, com impacto negativo no valor dos ativos financeiros em carteira, com destaque para a dívida pública. Isto terá impacto nas contas dos bancos ao nível dos resultados de trading (produto bancário).

O BdP alerta para a reduzida rendibilidade dos bancos, num quadro de taxas de juro baixas, expansão limitada do mercado de crédito doméstico e concorrência acrescida em segmentos mais rentáveis.

Por fim o relatório da estabilidade financeira destaca os desafios dos bancos associados ao processo de digitalização da atividade bancária, incluindo a vertente a cibersegurança, e a transição para uma economia sustentável.

“A preservação da estabilidade financeira em Portugal dependerá, crucialmente, da situação financeira dos agentes domésticos e da capacidade de resposta das autoridades nacionais”, considera do Banco de Portuga, que defende que “o retomar das trajetórias de ajustamento do período pré-pandémico é, assim, essencial”.

“O Banco de Portugal poderá tomar medidas macroprudenciais dirigidas à mitigação da potencial acumulação de risco sistémico em alguns setores”, avisa o supervisor.

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