Bancos pedem regras iguais para trading online em crescimento

A subscrição de produtos de investimento via online ganhou força com a Covid-19. Banca diz estar preparada para responder à procura, mas pede regras iguais para as fintech.

O cenário de baixas taxas de juro tem intensificado a procura por produtos de investimento, que oferecem uma maior remuneração de capital. E com a pandemia de Covid-19, que levou mais pessoas a utilizar os canais digitais, a subscrição deste tipo de produtos tem sido cada vez mais realizada via online. Os bancos dizem estar preparados para responder a esta mudança nos hábitos de investimento, mas pedem a mesma regulação para as fintech que prestam os mesmos serviços.

“O trading online é uma das tendências mais relevantes dos últimos anos no panorama global da atividade de trading”, começa por dizer o BCP ao Jornal Económico (JE), referindo que “esta tendência, que tinha começado já há alguns anos, alavancada em fatores como o menor retorno dos ativos sem risco (taxa de juro de referência negativas), levou a que investidores, que procuravam fontes alternativas de rendimento com recurso à utilização dos mercados financeiros, se interessassem por novos mercados e produtos de investimento alternativos”.

“A procura por uma maior remuneração do capital através de produtos de investimento tem sido notória, fruto, sobretudo, do contexto duradouro de baixas taxas de remuneração nos produtos de poupança mais tradicionais. O trading online tem sido claramente a via preferencial para subscrição deste tipo de produto”, refere, por outro lado, fonte oficial do Banco Montepio. Mais de 70% das ordens transmitidas por clientes do banco são online.

Covid-19 acelera tendência
A crise pandémica veio intensificar esta tendência. “Logo nos primeiros meses da pandemia observou-se um crescimento considerável dos volumes negociados, com especial predominância nos volumes online”, afirma o Santander Portugal. De acordo com o Montepio, citando dados da CMVM para 2020, o volume de ordens dos investidores residentes não profissionais subiu 42% face a 2019. Já em 2021, o aumento face a 2020 foi de 28,4%. A instituição financeira disponibiliza aos clientes o acesso à plataforma Montepio Trader GO, em parceria com o Saxo Bank.

“A pandemia trouxe maior disponibilidade das pessoas (…) com um crescente enfoque na utilização e no domínio das ferramentas digitais, o que permitiu um forte avanço na procura e utilização do trading online, catapultando investidores de diversos segmentos e perfis para uma escala realmente global”, salienta o BCP.

Na Caixa Geral de Depósitos (CGD), o “negócio de corretagem online apresentou um crescimento médio de 89% ao ano desde 2019”, adianta fonte oficial do banco estatal, acrescentando que, em termos de número de operações realizadas, “o canal online representa atualmente 88% do total do negócio de corretagem, quando em 2019 esse valor era de 61%”.

Banca pede regras iguais
Perante este aumento da procura por uma maior remuneração através de produtos de investimento, cada vez mais subscritos através da internet, os bancos garantem estar preparados para responder. “O sector financeiro tem correspondido ao desafio de ser competitivo no negócio de bolsa online, num contexto de clientes cada vez mais instruídos e exigentes”, afirma o BCP, notando que “este desafio [da bolsa online] deverá levar os bancos mais inovadores, que contam também com a confiança e conhecimento real das necessidades dos seus clientes (e investidores), a investir ainda mais em tecnologia”.

É que as instituições têm de conseguir competir com fintech internacionais altamente especializadas neste segmento. Isso é possível, diz o Montepio, “através de parcerias com entidades globais especializadas, da qualidade do aconselhamento e do apoio prestado ao cliente no processo de investimento e de serviços de valor acrescentado (que a amplitude da oferta do banco permite)”. Já o Santander diz beneficiar do facto de “ter uma oferta global e, estando sujeito à regulação do Banco de Portugal e da CMVM, de mecanismos de defesa dos clientes que não existem se o investimento for realizado através de uma fintech”.

As regras, defende o sector, deviam ser as mesmas para todos. Como concorrência há “novos operadores com grande capacidade tecnológica e, muitas vezes, sem as exigências regulatórias da banca comercial tradicional, o que, caso não seja corrigido não só coloca questões concorrenciais como, mais importante, pode levar a problemas na confiança dos investidores”, alerta o BCP.

Uma posição partilhada pelo Montepio, afirmando que “as fintech têm aguçado e impulsionado a inovação e a melhoria das propostas de valor dos bancos, mas as suas soluções têm beneficiado de um ambiente regulatório mais favorável”. É este cenário de menor regulação que permite às fintech oferecer custos mais baixos ou mesmo zero aos clientes. Por exemplo, a Revolut passou a disponibilizar um serviço para compra e venda de ações em 2019, sem comissões.

Já na CGD, considerando a maioria das ordens recebidas, o preçário a considerar é o aplicável aos mercados Euronext para valores de até 10 mil euros, com o custo a fixar-se em 7,5 euros. No Montepio, o cliente-tipo é aquele que negoceia ações no mercado nacional, com um valor médio de 7 mil euros por ordem, sendo que o custo da transação é de sete euros, aos quais se soma o Imposto do Selo.

De acordo com o banco liderado por Pedro Leitão, “em termos de custo, o preçário do banco está em linha com o preçário médio aplicado pelos restantes bancos nacionais, mas acima do valor médio praticado pelas várias fintech que estão a ganhar relevância no mercado”, salientando que “é importante que exista um level playing field para garantir as mesmas chances de sucesso para todos os players”.

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