Banif, como eu o vi

Esta é uma história meramente pessoal e não tem qualquer valor noticioso. É uma crónica e, como tal, reflecte apenas a visão de alguém que assistiu de longe, sentado no sofá, sem qualquer informação suplementar excepto aquela disponível publicamente e difundida na sociedade através de órgãos de informação devidamente registados, identificados e que obedecem às leis gerais do Estado.

Esta é uma história meramente pessoal e não tem qualquer valor noticioso. É uma crónica e, como tal, reflecte apenas a visão de alguém que assistiu de longe, sentado no sofá, sem qualquer informação suplementar excepto aquela disponível publicamente e difundida na sociedade através de órgãos de informação devidamente registados, identificados e que obedecem às leis gerais do Estado.

Primeiro facto: a 13 de dezembro, domingo à noite, fui interrompido na minha alienação por uma notícia de última hora da TVI sobre um problema qualquer no Banif. Não sou cliente, sou um português depauperado, cansado destas notícias de bancos, pelo que nem sequer me preocupei. Ou melhor, preocupei-me, por isso preferi não dar atenção o que é ainda uma atitude saudável face à ignomínia pública que se vive nos dias de hoje. Segundo facto: dois dias depois, na terça-feira, 15, li qualquer coisa sobre a TVI pedir desculpas pelos termos da notícia. Sei como o jornalismo funciona e percebi que havia ali interesses muito superiores à minha simples pessoa, pelo que, uma vez mais, entrei em negação.

Ouvi ainda no mesmo dia umas notícias vagas de que o atual primeiro-ministro – aquele senhor que há uns tempos andava a explicar as cheias em Lisboa -, tinha chamado a S. Bento os líderes parlamentares para falarem sobre o caso. Explicaram-me que era para acalmar as hostes durante o debate no Parlamento previsto para o dia seguinte. Terceiro facto: enquanto o Banif ameaçava processar a TVI pelos prejuízos financeiros causados com a notícia de domingo, António Costa ouviu no dia 16, quarta-feira, umas perguntitas sobre o caso no Parlamento e, segundo me disseram, até vieram do Bloco de Esquerda, um dos partidos que o apoia. Nada de especial.

Quarto facto: é noite de domingo outra vez, dia 20, e interrompem-me de novo o momento de alienação com o anúncio de uma comunicação qualquer do tal indivíduo que agora é primeiro-ministro (desculpem-me este tratamento menor do senhor, mas estou ainda habituado à imagem do que lá estava antes. Deve ser por isso que eles se mantém no lugar. Houve um que ficou mais de 30 anos no poder, lembram-se? Vai sair de Belém em março…). Como até sou uma pessoa que conhece pessoas informadas, já sabia o que ele ia dizer. Na segunda-feira, quando acordei, estava 300 euros mais pobre porque o Banif acabara de ser vendido ao Santander.

Nada de novo na frente ocidental, portanto. Finalmente, a 23, uma pessoa que conheço pessoalmente e com trabalhei no Porto, Paulo Morais, candidato a Presidente da República, deu uma entrevista na SIC Notícias onde disse o óbvio – ele diz sempre o óbvio. E o óbvio é que a TVI deu uma notícia que desvalorizou o valor do Banif e depois o primeiro-ministro António Costa vendeu o banco ao Santander – que é acionista da Prisa e esta da TVI – por um preço mais baixo e isso prejudicou-nos. Enfim, nada que me espante. Já agora, outros factos que eu sei: a presidente do Santander, a espanhola Ana Botín, esteve no encontro do grupo Bilderberg na Áustria, em junho passado.

O dono da TVI, o espanhol Juan Luís Cebrian, do grupo Prisa, também esteve nesse encontro. Luís Amado, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Sócrates, que é presidente do Conselho de Administração do Banif, também esteve num encontro do grupo Bilderberg, em 2012. E o actual primeiro-ministro, em 2008, também esteve num encontro deste grupo que, desde 1954, reúne uma vez por ano com um número restrito de políticos e empresários sem qualquer escrutínio público. Ah! E esteve lá também, nesse mesmo ano, Rui Rio, aquele que quer ser líder do PSD no lugar do líder do PSD. Por isso, responda-me: acham que vou perder tempo a preocupar-me?

Por Frederico Duarte Carvalho, 
Jornalista e escritor

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