Banqueiros desvalorizam livro do ex-Governador Carlos Costa porque o importante “é olhar para o futuro”

Na conferência “A banca do futuro”, os responsáveis dos cinco maiores bancos – CGD, BCP, Novobanco, Santander Totta, e BPI – desvalorizaram as revelações polémicas.

O vogal do Conselho da Administração e da Comissão Executiva da Caixa Geral de Depósitos, José João Guilherme (2-E), o presidente do BPI, João Pedro Oliveira e Costa (3-E), o CEO, Santander Totta, Pedro Castro e Almeida (3-D), o presidente do Millennium BCP, Miguel Maya (2-D), e o presidente da Comissão Executiva do Novo Banco, Mark Bourke (D), participam na conferência “Banca do Futuro”, em Lisboa, 16 de novembro de 2022. ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, em Lisboa, os responsáveis dos cinco maiores bancos – José João Guilherme, administrador da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Mark Bourke, CEO do Novobanco; Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Totta e João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI – desvalorizaram as revelações que Carlos Costa, ex-Governador fez no livro de Luís Rosa e no discurso de lançamento que ocorreu esta terça-feira.

“Não li nem pretendo ler”, disse o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, “o que queremos é saber para onde ir”, defendendo que o importante é olhar para o futuro. Uma posição relativamente consensual entre os banqueiros.

“Já houve comissões de inquérito, já houve pessoas que não tomaram Memofante, devemos passar à frente, a história está contada no sentido em que os bancos estão bem”, disse o CEO do BPI, que não vê nenhuma vantagem numa comissão de inquérito.

“Estamos preocupados em resolver problemas que vamos ter de enfrentar com os clientes”, disse o presidente do BPI, que acrescentou que “começar é de muitos, acabar é de poucos”.

O banco é citado no livro de Luís Rosa, “O Governador”, sobre os dez anos de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal por causa da ex-acionista do BPI Isabel dos Santos e também por causa do SMS que o primeiro-ministro enviou a Carlos Costa recentemente a explicar o telefonema em 2016, dizendo que a referida “inoportunidade” do afastamento de Isabel dos Santos estaria relacionada com o processo de venda da participação da filha do ex-presidente angolano num outro banco, o BPI, ao espanhol CaixaBank.

O presidente do PS rejeitou hoje pressões do primeiro-ministro ao Banco de Portugal, defendeu que foi António Costa quem “libertou” o BPI de Isabel dos Santos, referindo-se  ao diploma, promulgado na altura pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa que pôs fim às limitações ao exercício de voto nas instituições financeiras com o propósito para resolver o impasse na estrutura acionista do BPI. Isto porque o CaixaBank detinha na altura 44,1% do capital do banco mas de apenas podia votar com 20% – um valor semelhante ao do então segundo acionista, a Santoro Finance, que tinha 18,6% do BPI. Isto impedia que o CaixaBank conseguisse comprar a totalidade do BPI. A lei que na altura foi tida como feita à medida do BPI, mereceu críticas de Isabel dos Santos.

“É a espuma dos dias. É agenda mediática”, disse, por sua vez José João Guilherme, administrador da Caixa Geral de Depósitos, que prefere olhar para o presente pois “a banca portuguesa nunca esteve tão capitalizada”. O importante, disse, o administrador da CGD, é que “se tivermos uma recessão temos muito mais condições hoje do que há 10 anos. Temos liquidez, temos uma análise criteriosa de risco e estamos a concorrer pelos melhores investimentos e pelos melhores empréstimos e iremos competir de certeza pelos melhores depósitos. Isto é o que importa. A conversa sobre quem disse o quê não adianta nada”.

Também o CEO do Santander em Portugal disse que não vai ler “O Governador”. Recorde-se que o Santander comprou o “Banif bom”, no âmbito de uma medida de resolução aplicada no fim de 2015 e é um dos temas polémicos do livro.

Relativamente ao Santander ser citado no livro disse que ficou com a perceção que “cada um tem visões diferentes” dos factos. “Não tenho de ajustar contas com ninguém, nem sou político”, disse Pedro Castro e Almeida que admitiria ler um livro “sobre talento, sobre educação, sobre o futuro da banca, sobre inteligência artificial, sobre cibersegurança, agora não vou investir nestas questões”.

O presidente do Millennium, Miguel Maya, admite que vai ler “o livro nos jornais e eventualmente a parte que ao BCP diz respeito”. Mas recusa fazer comentários sobre a polémica dos últimas dias.

Miguel Maya acentua “outra perspetiva” que é a de frisar que “a questão não é se há pressões, é se somos independentes para resistir às pressões e eu não tenho uma dúvida que sou independente para resistir às pressões”.

“As pessoas são donas das suas palavras”, frisou.

Mark Bourke, do Novobanco também sublinhou que não leu o livro (que só existe em português) que “o que queremos é saber para onde ir, não é recuperar o passado”.

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