Barómetro ‘verde’: Associação ambientalista vê com “preocupação” investimento de 371 milhões em hidrogénio verde

O barómetro ‘verde’ da ANP/WWF vê com preocupação a aposta no valor de de 371 milhões do Governo no hidrogénio verde, argumentando a competitividade com a produção de energia à base de renováveis, custos ambientais e a perpetuação de investimentos na infraestrutura de transporte de gás natural.

A ANP/WWP divulgou, esta terça-feira, 15 de dezembro, um barómetro ‘verde’ que tem como principal objetivo avaliar e acompanhar as opções de investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) português em termos ambientais. A classificação dos investimentos é feita em três cores: a verde para o que deve ser mantido como está, amarelo para o que deve ser alterado/melhorado, e vermelho para o que deve ser excluído.

O investimento de 665 milhões de euros nas florestas, mais de mil milhões de euros para a mobilidade sustentável e os cerca de 620 milhões para a eficiência energética nos edifícios, são consideradas como medidas positivas (a verde) e com “relevância ambiental”, enquanto que o investimento na gestão dos recursos hídricos no país e no Algarve (641 milhões de euros) — que aos olhos da ONG, deve priorizar a moderação do consumo e não a sua eficiência — e a aposta no hidrogénio verde (371 milhões), são marcadas a amarelo.

“Vemos com preocupação a possibilidade da produção do hidrogénio verde competir com a procura pela eletricidade produzida através de postos renováveis”, explicou a responsável, durante a apresentação do Barómetro ‘verde, via Zoom.

De acordo com a ONG, a aposta neste recurso, suscitam ainda questões quanto aos custos ambientais da água de elevada pureza necessária e quanto à perpetuação de investimentos na infraestrutura de transporte de gás natural (i.e., um combustível fóssil que deve ser descontinuado) para exportar o hidrogénio verde.

Ainda a amarelo, a ANP/WWF marca o investimento de 93 milhões para a agenda de investigação e inovação para a sustentabilidade da agricultura, alimentação e agroindústria e 32 milhões de euros para o cluster do mar nos Açores, argumentando que “não é claro se este servirá para preparar uma futura exploração de recursos minerais em mar profundo” tal como foi sugerido por António Costa e Silva, em julho.

A vermelho, ou as “medias que consideramos que não deveriam estar contempladas no PRR”, surgem os investimentos relacionados com a barragem do Pisão (171 milhões de euros), a continuação da aposta em estradas, entre outras infraestruturas, no valor de 833 milhões de euros e a ausência de referência do papel do oceano na recuperação. Segundo a ANP/WWP, o PRR deveria incluir referência ao papel do oceano na recuperação sustentável, nomeadamente ações alinhadas em três eixos: proteger e recuperar a vida marinha, planear e transitar para uma economia circular e sustentável e liderar a agenda internacional do oceano.

2021: o novo super-ano para o ambiente?

Num ano completamente atípico motivado pela pandemia da Covid-19, os temas ambientais, que têm estado no topo da agenda política mundial, recuaram para segundo plano, atrasando por mais 12 meses progressos ‘verdes’ que deveriam ter sido alcançados em 2020.

O ano ficou marcado pela perda de biodiversidade, altura em que se registou um declínio de 68% nas populações de espécies de vertebrados nos últimos 50 anos, e pelo agravamento da pegada ecológica: a 22 de agosto esgotou-se os recursos naturais da Terra, quase um mês depois comparativamente a 2019 e em Portugal o mesmo se verificou, porém, um mês mais cedo: 25 de maio.

Além da evidente pandemia que resultou em milhares de mortes por todo o mundo e um enfraquecimento da economia e dos sistemas nacionais de saúde, a mineração em áreas protegidas (APs) e em mar profundo e o adiamento da entrada em vigor para o setor da restauração da diretiva sobre Plásticos de Uso Único (algo que agravou ainda mais a utilização de plásticos descartáveis) foram considerados igualmente como pontos negativos no “Balanço e Tendências Ambientais” anual elaborado pela Associação Natureza Portugal e a World Wide Fund for Nature (ANP/WWF), divulgado esta terça-feira.

Restaurantes vão poder utilizar plásticos descartáveis até 2021

Embora tenha sido um ano repleto de desafios, a ONG não deixa de reconhecer avanços, principalmente em matéria de desflorestação. Foi lançado o Programa de Transformação da Paisagem, uma iniciativa que visa mudar a paisagem para ser mais resiliente aos fogos e o lançamento de uma consulta pública da Comissão Europeia sobre a diminuição da desflorestação e degradação florestal que conta já com mais de um milhão de participações.

Outra tendência para 2021, será a relação entre saúde e natureza, explicou Ângela Morgado, diretora-executiva da ANP/WWF. Este ano “ficou patente como a destruição da natureza pode afetar a nossa saúde e economia” e ainda o debate sobre o novo aeroporto, dado que está em cima da mesa a possibilidade de ser feita uma Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) sobre o aeroporto do Montijo.

Para a agenda ambiental de 2021, está no topo da agenda a discussão para uma nova Lei do Clima nacional, sendo que já foram entregues no Parlamento cinco propostas de lei de bases do clima (PAN, PCP, PEV, BE, PS), e uma sexta está a caminho (PSD) e a execução do Plano de Resiliencia e Recuperação (PRR) que prevê receber 13,9 mil milhões para promover a recuperação da economia da crise provocada pelo coronavírus, 37% dos quais devem ser alocados à “transição climática”.

Isto deverá acontecer durante a presidência portuguesa do Conselho Europeu (PPCE), que acontece durante os primeiros seis meses do próximo ano e que deverá priorizar adaptação às alterações climáticas, em linha com a implementação do Pacto Ecológico Europeu.

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