BCE. Lagarde não afasta subidas de 50 pontos em setembro e reforça que não irá permitir fragmentação

O BCE procura, com a subida anunciada de 25 pontos base em julho, “sinalizar o caminho” da normalização monetária, mas tal não implica que subidas mais expressivas não sejam decretadas em setembro ou nas reuniões que se seguirão. Lagarde reforçou ainda repetidas vezes que a fragmentação não pode ocorrer.

Christine Lagarde reforçou o compromisso do Banco Central Europeu (BCE) em lidar com a inflação em níveis recorde, não afastando, neste cenário, subidas de 50 pontos base (p.b.) em setembro e garantindo que a autoridade monetária tudo fará para evitar uma fragmentação na zona euro.

Na conferência de imprensa desta quinta-feira que se seguiu ao anúncio de que as taxas de juro se manteriam inalteradas em junho, a presidente do BCE afirmou repetidas vezes que a inflação tem de ser controlada, dado o peso que tem nas famílias europeias. Como tal, o banco começa agora a “traçar o caminho” para a normalização da política monetária, com Lagarde a garantir que mais subidas se seguirão depois de julho.

“Relativamente às taxas de juro, identificamos um caminho não limitado a um só movimento em específico, mas a um conjunto de movimentos dependentes da evolução das perspetivas”, referiu a presidente, sublinhando a condicionalidade das decisões no futuro próximo à evolução da situação económica, sobretudo da inflação.

Ainda assim, em julho a subida será de 25 p.b., ficando afastado um incremento mais expressivo. Lagarde explica que esta decisão é uma “boa prática e frequente entre os bancos centrais”, envolvendo “começar com um aumento gradual, não excessivo e que sinalize um caminho”, esperando depois para “observar como os mercados irão operar”.

A presidente do BCE projetou ainda que, “provavelmente, serão necessárias mais subidas” depois de setembro, embora com o banco a manter em aberto todas as opções e uma flexibilidade condicionante às perspetivas de curto prazo.

Quanto a uma possível fragmentação entre as dívidas nacionais europeias, dadas as diferenças no rácio de países periféricos como Itália, Grécia ou Portugal e as economias da Europa Central, Lagarde frisou repetidas vezes que o BCE “está comprometido com a prevenção da fragmentação”.

“O ponto crítico aqui é a transmissão da política monetária”, resumiu, sublinhando que a autoridade monetária irá usar os instrumentos à sua disposição para garantir que tal ocorre.

As perspetivas económicas do BCE foram revistas em baixa no que toca ao crescimento, que agora é visto como fechando o ano em 2,8%, ao passo que a inflação sofreu uma assinalável atualização em alta, passando agora para 6,8% no final de 2022. Questionada sobre a fiabilidade das previsões do banco, tanto no capítulo das projeções macro, como na garantia dada de que irá controlar a inflação, Lagarde deixou elogios ao staff do BCE.

“Estas projeções não são apenas do BCE, são de todo o Eurosistema. […] Todos os analistas cometeram o mesmo erro de projeção, mas o BCE é o único banco central que tem revisitado o trabalho que já foi feito, procurando em cada canto para perceber os erros cometidos”, afirmou a presidente, que destacou ainda as alterações feitas nos critérios para a subida de taxas.

“Muitos dos instrumentos que utilizamos, incluindo estes critérios, são considerações feitas durante onze anos em que tivemos de tentar o movimento oposto, ou seja, subir a inflação. Agora o objetivo é exatamente o oposto”, disse.

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