BCE pode subir taxa de juro até 2,25% este ano, mas não vai ficar por aqui

A inflação continua a não dar tréguas, com a taxa a alcançar os 9,1% em agosto na zona euro. Para travar esta escalada dos preços, o BCE vai continuar a subir os juros este ano, e poderá mesmo levar a taxa até aos 5% nos próximos dois ou três anos.

O Banco Central Europeu (BCE) está a subir as taxas de juro. E a expectativa é que seja ainda mais agressivo na reunião desta quinta-feira, com o mercado a apontar para um aumento de 75 pontos base, depois de ter iniciado a inversão do ciclo da política monetária em julho. Mas a instituição liderada por Christine Lagarde não deverá ficar por aqui, aumentando os juros para 2,25% até ao final deste ano e podendo ir até aos 5% num horizonte não muito longínquo, dependendo de como evoluem os dados económicos.

Até onde vão subir as taxas de juro? “Para se responder a esta questão é necessário analisar a abordagem que o BCE usa”, começa por referir o diretor de estudos económicos da IESEG, Eric Dor, numa análise sobre o ritmo da inversão de ciclo de política monetária, a que o Jornal Económico (JE) teve acesso.

O banco central liderado por Christine Lagarde “está a dar muito ênfase aos conceitos de taxa de juro real neutra e de taxa terminal”, refere o professor da escola francesa. A taxa neutra é aquela que mantém a economia em pleno emprego e com inflação estável na meta de 2% do BCE. Ou seja, que não estimula nem arrefece a economia. Já a segunda traduz o pico dos juros neste ciclo.

A taxa neutra, refere, é “muito difícil de medir”. No entanto, “há um consenso no mercado de que esta recuou”, situando-se na zona euro, de acordo com estudos económicos, entre -1% e 1%. Já a taxa terminal situa-se entre 1% e 3%, nota Eric Dor, referindo-se à taxa de juro da facilidade permanente de depósito. No caso da taxa de juro diretora, é preciso somar 50 pontos base, uma vez que é esse o diferencial entre ambas.

“Se a inflação, observada e prevista, já estivesse estável nos 2%, seria suficiente para o BCE fixar a taxa média no nível da taxa terminal”, explica, o que levaria a “política monetária a ser neutra, sem ser acomodatícia ou restritiva, e manteria uma situação de equilíbrio de pleno emprego com a inflação nos 2%”.

Inflação ainda longe da meta de 2%

Mas não é isso que está a acontecer. A taxa de inflação na zona euro situou-se nos 9,1% em agosto. E o BCE está a “apertar” a política monetária. “Isto significa que, temporariamente, para tentar travar a inflação, o BCE tem de ter como meta um juro médio que é mais elevado do que a taxa terminal”, afirma o professor. Para isso, o banco central “tem de avançar com sucessivos aumentos das taxas para alcançar, no seu horizonte de projeção, uma taxa terminal temporária superior” ao nível final.

O diretor de estudos económicos da IESEG recorda que Philip Lane, economista-chefe do BCE, sugere que a taxa terminal temporária vai depender da situação e que, por isso, terá de ser revista em cada reunião do banco. “A orientação futura foi agora substituída por uma abordagem pragmática em que o BCE mantém o direito de mudar o seu foco reunião a reunião, dependendo de novos dados disponíveis”, afirma Eric Dor, salientando que quando a inflação começar a ir em direção ao alvo de 2%, a taxa terminal temporária poderá gradualmente convergir com a taxa terminal de equilíbrio.

“Inicialmente, dada a magnitude do excesso de inflação a ser reduzido, e uma vez que os fatores que a alimentam devem persistir, a taxa terminal temporária pode exceder a taxa de equilíbrio em, pelo menos, 1,5%. A taxa terminal temporária pode, por isso, situar-se entre 2,5% e 4,5% ao longo do horizonte de projeção, com uma média de 3,5%”, afirma Eric Dor, notando que o “horizonte de projeção situa-se entre dois e três anos, pelo que vai muito além de dezembro de 2022”.

Até ao final do ano, a taxa de juro aplicável à facilidade permanente de depósito pode alcançar os 1,75%, frisa, uma vez que o BCE subiu os juros em 50 pontos base em julho. A taxa de depósito está em 0%, enquanto a taxa de referência está nos 0,5%, podendo esta última “alcançar os 2,25% até ao final do ano”.

Isto porque, de acordo com a análise, o banco central poderá agora avançar com “aumentos sucessivos de 0,75% em setembro, de 0,5% em outubro e de 0,5% em dezembro”. Assim, “em conjunto com outras taxas, a taxa da facilidade permanente de depósito pode continuar a subir em 2023, até alcançar um nível entre 2,5% e 4,5%, portanto uma média de 3,5%, dependente da avaliação dos dados económicos pelo BCE”, refere Eric Dor, com a taxa de referência a poder ficar entre 3% e 5%, ou seja, uma média de 4%.

A par do BCE, países têm de agir

O professor da IESEG alerta, contudo, que a ação para travar a escalada de preços não pode vir apenas do banco central. É preciso que cada país adote as suas próprias medidas para responder ao contexto atual.

“A inflação é muito diferente entre os países da zona euro. É, por isso, difícil imaginar que a mesma política monetária, e as mesmas taxas de juro para todos os países, possa ser adequada para todos para reduzir a inflação”, nota na análise.

Isto significa que, para moderar a inflação, são necessárias “medidas dos governos nacionais de controlo de preços ou de atribuição de subsídios, adaptadas à situação específica de cada país, além da política monetária”.

Vários países já adotaram medidas para responder à escalada dos preços. Tanto Espanha como a Alemanha decidiram baixar o IVA do gás. Já, em Portugal, o Governo decidiu, em vez de mexer na taxa de imposto, permitir a passagem do mercado liberalizado para o regulado, sem custos para o consumidor, garantindo que esta é a solução que permite o preço mais baixo no gás para as famílias e pequenos negócios.

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