BCE: “Riscos para as perspetivas de crescimento económico são claramente negativos”

Ao mesmo tempo, aumentam os riscos para as perspetivas de inflação. Os dois fatores justificam contínua subida das taxas de juro, para já sem fim à vista depois de três subidas consecutivas.

“Os riscos para as perspetivas de crescimento económico são claramente negativos, especialmente no curto prazo”, refere o boletim económico do BCE divulgado esta quinta-feira, indicando como variáveis determinantes a guerra de longa duração na Ucrânia, que coloca em causa a confiança dos mercados e as cadeias de suprimentos.

“Os custos de energia e alimentos também podem permanecer persistentemente mais altos do que o esperado. Um enfraquecimento da economia mundial pode ser um entrave adicional ao crescimento na área do euro”, acrescenta.

Ao mesmo tempo, aumentam os riscos para as perspetivas de inflação. “O principal risco a curto prazo é um novo aumento dos preços da energia a retalho. A médio prazo, a inflação poderá vir a ser superior ao esperado caso se verifiquem aumentos dos preços dos produtos energéticos e alimentares, um agravamento persistente da capacidade produtiva da economia da área do euro, um aumento persistente das expectativas de inflação acima da meta do Conselho do BCE, ou aumentos salariais acima do previsto. Por outro lado, uma queda nos custos de energia e um enfraquecimento adicional da procura reduziriam as pressões sobre os preços”, aponta.

O banco central sinaliza que, após o terceiro grande aumento consecutivo da taxa de política monetária que aconteceu no dia 27 de outubro, “o Conselho do BCE espera aumentar ainda mais as taxas de juro, para assegurar o regresso atempado da inflação ao objetivo de inflação de médio prazo de 2%”.

Esta trajetória já era de esperar, sendo que a entidade baseará a futura trajetória das taxas diretoras na evolução das perspetivas para a inflação e a economia, seguindo a sua abordagem reunião a reunião. Assim, continua incerto quando se atingirá o pico dos juros, uma questão que tem inquietado os investidores.

Inflação e receios de recessão justificam contínua subida das taxas de juro, para já sem fim à vista

O BCE justifica o ciclo de aperto monetário com a elevada taxa de inflação. Em setembro, lê-se no documento, a inflação na área do euro atingiu 9,9%, frutos dos altos preços da energia e do aumento da procura no pós-pandemia, pese embora esteja a recuar por se avizinharem tempos difíceis.

“A política monetária do Conselho do BCE visa reduzir o apoio à procura e prevenir o risco de uma subida persistente das expectativas de inflação”, refere.

Para além da inflação, os receios com uma recessão preocupam o banco central. A atividade económica global contraiu no segundo trimestre, e há dados que sugerem que vai continuar um ritmo de crescimento moderado  no curto prazo.

“Embora haja alguns ventos favoráveis ​​para a economia mundial devido ao maior afrouxamento das pressões da cadeia de suprimentos global devido a melhorias na oferta e ao enfraquecimento da procura, os riscos negativos persistem. Isso está associado à contínua incerteza geopolítica, em particular a possíveis interrupções relacionadas à guerra injustificada da Rússia contra a Ucrânia e a um possível agravamento dos desenvolvimentos do coronavírus (COVID-19) no outono e no inverno”, acrescenta.

O BCE diz que a atividade económica na zona euro deverá ter abrandado significativamente no terceiro trimestre, prevendo o Conselho do BCE  um enfraquecimento ainda maior no resto de 2022 e no início de 2023.

“Ao reduzir os rendimentos reais das pessoas e aumentar os custos para as empresas, a alta inflação continua a diminuir os gastos e a produção. Graves interrupções no fornecimento de gás pioraram ainda mais a situação e a confiança dos consumidores e das empresas caiu rapidamente, o que também está a impactar negativamente a economia”, indica a nota.

A instituição dá conta ainda que a deterioração dos termos de troca, leia-se, a desvalorização ao longo dos últimos meses do euro face ao dólar (esta quarta-feira negoceia novamente abaixo da paridade), pesa nas economias europeias uma vez que os preços pagos pelas importações sobem mais rapidamente do que os recebidos pelas exportações.

Apesar de reconhecer a resiliência do mercado de trabalho no terceiro trimestre, com a taxa de desemprego  permanecer no nível historicamente baixo de 6,6% em agosto, o BCE afirma que “o enfraquecimento da economia pode levar a um desemprego um pouco mais alto no futuro”. Não obstante, dá ainda nota que os “dados salariais de entrada e acordos salariais recentes indicam que o crescimento dos salários pode estar  recuperar”.

O BCE cita ainda o mais recente inquérito sobre empréstimos bancários da área do euro, o qual indica “que os padrões de crédito ficaram mais rígidos para todas as categorias de empréstimos no terceiro trimestre do ano, uma vez que os bancos estão cada vez mais preocupados com a deterioração das perspetivas para a economia e os riscos enfrentados pelos seus clientes na atual conjuntura. Os bancos esperam continuar a apertar os seus padrões de crédito no quarto trimestre”. Contudo, o mesmo não acontece para o lado das empresas, que continuam robustos, uma vez que “precisam de financiar altos custos de produção e acumular stocks”.

Recomendações do BCE aos Governos

O banco central pede que, para se limitar o risco de alimentar a inflação, as medidas de apoio fiscal para proteger a economia do impacto dos altos preços da energia devem ser temporárias e direcionadas aos mais vulneráveis. De recordar que esta recomendação não foi seguida pelo Executivo de Costa no “Famílias Primeiro”.

“Os formuladores de políticas devem fornecer incentivos para reduzir o consumo de energia e reforçar o fornecimento de energia”, continua o boletim.

“Ao mesmo tempo, os governos devem adotar políticas fiscais que demonstrem seu compromisso com a redução gradual dos altos índices da dívida pública. As políticas estruturais devem ser concebidas para aumentar o potencial de crescimento e a capacidade de oferta da área do euro e reforçar a sua resiliência, contribuindo assim para a redução das pressões sobre os preços a médio prazo. A rápida implementação dos planos de investimento e reformas estruturais no âmbito do programa Next Generation EU dará um importante contributo para estes objetivos”. Aqui encaixa o PRR, que tem estado na ordem do dia da arena política portuguesa.

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