Bolsonaro diz ser patriota mas não compreende a base de uma pátria, considera investigador

Numa análise à gestão da área cultural pública no Brasil em 2019, Manevy identificou retrocessos frisando que nos últimos 20 anos o país tinha avançado em direção a um Estado democrático onde há o reconhecimento dos direitos culturais, mas este novo Governo vê o setor como um opositor.

O investigador brasileiro Alfredo Manecy considerou hoje que o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, recusa entender que a base de uma pátria é a cultura, comentando os ataques ao setor que marcaram o primeiro ano do seu mandato.

“A maior deceção em relação ao Bolsonaro é ver um Presidente que fala muito em pátria e nação, mas não compreende que a base de uma pátria é a cultura. Isto mostra o quanto é falacioso o uso da palavra pátria”, disse em entrevista à Lusa.

Manevy é professor e investigador da área cultural, foi presidente da Spcine, agência de fomento para setor de cinema, programas de televisão e novos medias da cidade de São Paulo, secretário executivo de políticas culturais do Ministério da Cultura, além de secretário-adjunto da cultura no município de São Paulo.

Numa análise à gestão da área cultural pública no Brasil em 2019, Manevy identificou retrocessos frisando que nos últimos 20 anos o país tinha avançado em direção a um Estado democrático onde há o reconhecimento dos direitos culturais, mas este novo Governo vê o setor como um opositor.

“A relação do Governo Bolsonaro com a cultura é uma relação de identificação da cultura como um inimigo, uma área problemática que o Governo busca desconstruir”, frisou.

“Bolsonaro vê a cultura como uma ameaça porque [a arte se dá] num espaço de liberdade, de experimentação, um espaço de não domesticação perante qualquer Governo, não só [em relação] a este. A cultura é uma das áreas mais autónomas de qualquer sociedade e, portanto, o Governo priorizou a área em sua guerra cultural e [elegeu] artistas como adversários”, acrescentou Manevy.

Logo que tomou posse, o chefe de Estado brasileiro declarou uma “guerra contra o marxismo cultural”. Um dos seus primeiros atos foi extinguir o Ministério da Cultura, tornando-o uma secretaria dentro da pasta da Cidadania que, no final do ano, foi transferida para o Ministério do Turismo.

Ao longo dos meses, os principais organismos públicos de promoção cultural foram ocupados por elementos com ideias conservadoras alinhadas ao pensamento do Presidente e cuja nomeação geraram grande polémica.

A secretaria de Cultura é ocupada desde novembro pelo encenador e dramaturgo Roberto Alvim, até então presidente da Funarte, uma das mais importantes entidades de apoio às artes no país, que revelara a lealdade a Bolsonaro, acrescentando as palavras “cristão, nacionalista e conservador” ao seu perfil no Facebook.

Alvim declarou querer formar um “exército de grandes artistas espiritualmente comprometidos com o Presidente e com os seus ideais”, dispostos a “dar as vidas pela edificação do Brasil, através da criação de obras de arte que redefinam a história da cultura nacional”.

Dante Mantovani, um professor de Linguística, foi nomeado no final do ano para comandar a Funarte e tornou-se famoso após declarar num vídeo publicado no seu canal no YouTube que “o rock leva ao aborto, ao satanismo” e “ativa a indústria do aborto”.

Já a Agência Nacional de Cinema é dirigida por um líder evangélico, Alex Braga Muniz, que cortou o apoio à participação de realizadores brasileiros em festivais internacionais.

A Fundação Cultural Palmares, criada para promover ações de valorização da cultura negra, foi entregue ao jornalista Sérgio Nascimento de Camargo, que nega a existência de racismo e que quer pôr fim ao Dia da Consciência Negra.

Além dos gestores e equipa repleta de polémica, órgãos de governo e empresas públicas que patrocinam eventos culturais passaram a praticar o que muitos artistas classificam como censura.

“Há uma nova forma de censura, uma censura que é velada, criada por mecanismos orçamentários, jurídicos e políticos. É muito importante para o Governo manter uma aparência de democracia, então eles fazem a censura criando subterfúgios”, afirmou Manevy.

O Governo brasileiro cancelou um edital de subsídios às produções com temas Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgénero (LGBT).

O chefe de Estado defendeu publicamente a criação de um filtro para projetos de incentivo cultural, citando a área do cinema, quando defendeu que o poder publico apoie apenas projetos adequados aos valores conservadores.

“Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine [A Agência Nacional do Cinema]. Privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ficar usado para filme pornográfico”, declarou o Presidente em julho.

O investigador citou, entre os pontos que revelariam a instauração do que chamou de “censura velada” cortes de recursos e extinção de editais para projetos culturais alegando falta de recursos.

“O Governo está testando por meio de vários episódios a capacidade de reação e resistência da sociedade brasileira contra a censura. Nós já temos censura, uma censura velada, feita com subterfúgios, alguns ridículos que não enganam ninguém, tanto que podemos falar em censura”, disparou.

“Ainda se tenta criar um simulacro de democracia, um simulacro para que o Brasil não perca estes ‘status’ internacional [de democracia] porque isto levaria a um tipo de crise que ele [Governo] não quer por hora trazer (…) Existem censura sendo feita ainda como um balão de ensaio de algo maior que precisamos evitar, criando uma frente democrática ampla”, concluiu.

Recomendadas

Marcelo lembra que há vários focos de guerra e critica UE por ter estado em “autocontemplação”

O Presidente da República considerou hoje que a União Europeia esteve em “autocontemplação” e “continua a não saber encontrar maneira de se relacionar com África”, relembrando que, além da Ucrânia, há outros focos no mundo que ameaçam a paz.

Brittney Griner libertada pela Rússia em troca de prisioneiros com os EUA

A basquetebolista norte-americana estava presa desde agosto. Os norte-americanos soltaram o negociante de armas Viktor Bout, mais conhecido como “comerciante da morte”, que esteve preso nos EUA durante 12 anos.

Bruxelas quer que plataformas passem a cobrar IVA para evitar concorrência desleal

De acordo com as atuais regras de IVA, são os próprios prestadores de serviço – sejam motoristas ou donos de alojamento local – que são obrigados a coletar o IVA e a remiti-lo para as autoridades tributárias do seu país.
Comentários