Bósnia-Herzegovina: eleições ensombradas por milhares de votos inválidos

Quatro dias após as eleições, ainda não há resultados validados e o risco do não reconhecimento do ato eleitoral ou da sua repetição é grande. Entretanto, na República Srpska, Mirolad Dodic jura fidelidade a Moscovo.

O número de votos inválidos encontrados nas urnas das eleições na Bósnia-Herzegovina, que decorreram no passado domingo, é, segundo os jornais do país, de cerca de 420 mil. Só para o parlamento federal, mais de 8,5% dos votos são inválidas, cerca de 127 mil, segundo relata a Rádfio Slobodna Europa. Destes, mais de 76 mil são da Bósnia-Herzegovina e cerca de 50 mil vêm da República Srpska, a entidade sérvia da federação.

Os votos considerados inválidos para a eleição dos membros da presidência da Bósnia-Herzegovina – um elemento da República Srpska, um dos bósnios muçulmanos outro dos croatas bósnios – serão cerca de 105 mil: 65 mil da Bósnia-Herzegovina e o restante do lado sérvio – onde se acrescentam mais 32.500 votos inválidos para a assembleia nacional do território.

A União Europeia já se mostrou preocupada com a situação – que tem tudo para incentivar a desagregação da federação e lançar os seus três distintos territórios numa tensão que, todos o sabem, pode levar ao reinício do conflito armado.

O presidente da Comissão Eleitoral Central da Bósnia-Herzegovina, Suad Arnautovic, anunciou à Rádio Free Europe (do mesmo grupo editorial) que irá solicitar a verificação dos votos inválidos. “A minha iniciativa será a de verificar. Um grande número de votos inválidos pode indicar algumas situações que não são comuns e convido a Procuradoria da Bósnia-Herzegovina a envolver-se no acompanhamento deste processo”, disse. A repetição das eleições é um dos caminhos em vista.

Na noite seguinte às eleições, dois candidatos ao cargo de presidente da federação pelo lado da República Srpsaka, Milorad Dodik – apoiante da Rússia e da independência do seu território – e Jelena Trivic, declararam vitória, apresentando dados diferentes sobre o número de votos.

A delegação da União Europeia na Bósnia-Herzegovina disse à RSE que “a União incentiva as autoridades competentes a lidarem com as alegações sobre irregularidades, com o objetivo de reforçar a confiança nos resultados eleitorais e na administração eleitoral”.

Entretanto, Dodik disse, segundo a agência russa TASS, que o seu território continuará a cooperar com a Rússia e “o Ocidente deve respeitar isso”. “A nossa principal prioridade de política externa é a cooperação bem-sucedida com a Sérvia, a Rússia, a nossa amiga Hungria, com a China. É claro que não fecharemos as portas ao Ocidente, tentaremos conversar com eles também, mas eles devem aprender que tal não será mais possível se exigirem obediência e submissão. Portanto, se o Ocidente quer falar, deve respeitar as nossas prioridades de política externa”, disse.

Um pouco mais a leste, o presidente da Sérvia, disse mais ou menos o mesmo. Aleksandar Vucic disse que não tem medo “daqueles que ameaçam a Sérvia por não impor sanções à Rússia e que sua resposta aos líderes europeus será educada, responsável, séria e de longo alcance”. Vucic fez estas declarações na véspera da Cimeira de Praga da Comunidade Política Europeia, entidade lançada sob ideia do presidente francês Emmanuel Macron. A União Europeia anunciou que a questão será levantada por vários países participantes na cimeira.

Relacionadas

Influência russa na Europa II: as eleições na Bósnia-Herzegovina

Com a República Srpska a tentar minar a federação – e a pressão da Rússia, da Hungria, da Croácia e da Sérvia para que isso aconteça – as eleições deste domingo dificilmente conseguirão ajudar a que haja alguma paz política. Quanto à paz militar, ninguém sabe até quando será mantida.
Recomendadas

Ucrânia: Duas bases aéreas russas atacadas por ‘drones’ ucranianos

O Ministério da Defesa da Rússia afirmou que duas bases aéreas situadas no centro do país foram hoje atacadas por ‘drones’ (aeronaves não-tripuladas) ucranianos, fazendo três mortos.

EUA. Democratas e Republicanos em disputa acesa por último lugar no Senado

O último assento do Senado norte-americano por atribuir nas eleições intercalares será decidido terça-feira, numa segunda volta renhida no estado da Georgia entre o Democrata Raphael Warnock e o Republicano Herschel Walker.

“A Arte da Guerra”. “Os curdos são uma espinha encravada na garganta da Turquia há muito tempo”

A entrada dos exércitos da Turquia na Síria está iminente em resultado de um atentado em Istambul atribuído ao PKK, partido curdo na Turquia. Veja a análise de Francisco Seixas da Costa no programa da plataforma multimédia JE TV.
Comentários