Braço de ferro entre bancos centrais e governos

A irresistível vontade dos governos em proteger a economia e as famílias poderá dar lugar a um maior endividamento público, que em alguns países, como Itália e Portugal, se encontram já em níveis bastante perigosos. Acresce que existe uma crise com o custo de vida, pelo que o aumento da pobreza é uma ameaça que deve ter sida em conta em 2023.

“Qualquer estímulo fiscal dos governos deve ser temporário, direcionado e adaptado a setores vulneráveis selecionados da economia” – Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, 03/11/2022

A economia mundial começa o novo ano dentro do mesmo enquadramento com que terminou 2022. Marcado pelas consequências de um mundo mais dividido, com o regresso da guerra no continente europeu, e a escalada das pressões inflacionistas, que por sua vez trouxeram a necessidade de uma implementação agressiva de subida de taxa de juro por parte dos bancos centrais , que não tem ainda um fim à vista.

O espetro de um longo e árduo processo de controlo dos preços tem vindo a ser visível nas expectativas de crescimento económico, sobretudo no que diz respeito às economias europeias desenvolvidas, sendo que muitas se encontram neste momento em risco de recessão.

À medida que se for prolongando o ciclo de subida de taxas para patamares historicamente elevados, e o impacte económico se for acentuando no seio das famílias, a tensão entre bancos centrais e governos também poderá crescer, sobretudo pela necessidade que o poder político irá sentir de implementar enormes medidas fiscais que permitam controlar a perca de poder de compra, a par do consequente descontentamento social e popular. Que, por seu turno, irá criar dificuldades de monta para que os bancos centrais consigam controlar a inflação.

Sinais apontam para probabilidade de recessão suave,

mas incerteza geopolítica pode agudizar-se

A nível global, 2023 será muito provavelmente um dos anos de menor crescimento mundial das últimas décadas. As expectativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apontam para uma evolução de 2,2% da economia global, o que representa um forte abrandamento dos 6% em 2021, e também dos 3,1% esperados para 2022 pelo observatório da OCDE.

Os elevados níveis de inflação atuais podem recuar progressivamente à medida que as pressões na cadeia de distribuição global vão sendo menores e o mercado de trabalho for, consequentemente, mais estabilizado. Mas estaremos sempre a falar de valores historicamente elevados para a inflação, com a OCDE a estimar que esta pode em 2023 – para os países desta organização que em 2002 registaram 9,4% – manter-se nos 6,6% e 5,4% em 2024. Contudo, este cenário encontra-se dependente da evolução de variáveis de elevada incerteza, nomeadamente geopolíticos.

Uma potencial escalada do conflito entre Ucrânia e Rússia, e das sanções em vigor que foram implementadas na sequência do mesmo, poderão agudizar este cenário, alimentando a inflação e destruindo a confiança generalizada dos agentes económicos, levando, por sua vez, a um menor ímpeto da atividade e adiando mudanças estruturais decisivas para as próximas décadas.

Por outras palavras, se a situação geopolítica se deteriorar, a probabilidade de recessão prolongada é elevada. Os bancos centrais terão que continuar a subir taxas de juro, ao mesmo tempo que o endividamento global permanece elevado e os governos veem o seu espaço condicionado para implementar estímulos fiscais em dimensão suficiente para contrabalançar as perdas de rendimento e do consumo decorrente dos aumentos dos preços.

Com a subida do desemprego para patamares historicamente elevados, a instabilidade social pode aumentar, o que cria pressão junto dos governos e decisores políticos para implementar estímulos fiscais que sejam capazes de contrariar o impacte do aumento do custo de vida.

A incerteza pode ter ciclos, nomeadamente, ligados ao rigor do inverno europeu. Mas também no mercado de trabalho poderá registar-se alguma estabilização durante a primeira metade do ano. E o que ocorrer em termos de agravamento do conflito na Ucrânia levar a maiores sanções internacionais ou maior envolvimento militar por parte dos países da Nato, poderá ser decisivo. Depois, a dependência europeia de energia é uma fragilidade que tem capacidade para impactar significativamente a atividade industrial, assim como os consumidores.

A severidade com que esta variável afetará a economia depende muito das temperaturas nos meses de maior frio. Para já, os países europeus conseguiram acumular reservas de gás suficientes (substituindo, durante o verão, grande parte do gás russo por gás natural liquefeito dos EUA) para ultrapassar o que está a ser um inverno moderado e ameno, o que dá a entender que os preços das matérias-primas podem estabilizar o suficiente para que a inflação possa também recuar.

No entanto, o problema da inflação está ainda longe de se encontrar numa trajetória sustentada e consolidada de descida. Desde logo, porque o mercado laboral nos EUA continua a registar uma pressão da procura elevada – existem quase duas vagas para cada trabalhador inscrito como desempregado, o que cria uma situação complexa de gerir em termos de política monetária por parte da Reserva Federal, que enfrenta uma inflação subjacente – que exclui energia e bens alimentares – que ronda os 4%.

Por outro lado, se não houver uma solução diplomática para a guerra que crie algum alívio nas sanções, a Europa terá de voltar novamente a preparar-se para o inverno, com muito menos acesso a gás russo do que se verificou em 2022.

Por fim, a China. O gigante asiático esteve adormecido economicamente no último ano, em virtude da forte implementação de medidas de covid zero, mas está a preparar-se para a reabertura. Se, por um lado, isso é positivo para o PIB mundial, por outro, vai exigir maiores consumos de gás natural. Ou seja, no final, poderemos ter uma pressão elevada sobre os preços suficiente para espoletar uma nova espiral inflacionista, que pode ser mais complexa de contrariar do lado da economia europeia.

Evitar uma crise de dívida soberana e apostar em estímulos

Para os responsáveis dos bancos centrais, e sobretudo no Banco Central Europeu (BCE), o principal objetivo neste momento é restaurar a estabilidade de preços. E isto assenta essencialmente num discurso marcado por uma maior agressividade das autoridades monetárias relativamente a subidas de taxas, em detrimento do crescimento e promoção do pleno emprego. Essas premissas estão agora fora da narrativa oficial dos bancos centrais – algo especialmente claro e evidente, por exemplo, no caso do BCE.

Noutra frente, contudo, está a permanente preocupação do poder político com as tensões sociais que crescem de dia para dia, à medida que o impacte do custo do dinheiro se faz sentir junto de empresas e famílias, alimentando o descontentamento e a exigência para que seja protegido o poder de compra através de estímulos fiscais.

Na Europa isto é especialmente relevante. O euroceticismo ganha contornos estruturais – governa em Itália e regista aumentos nas intenções de voto um pouco por todo o continente – e o sentimento de que o Estado, as instituições e o centro político tradicional europeu falharam na entrega de prosperidade é um fantasma antigo, que pode ser renovado se existirem significativas perdas de rendimentos e de postos de trabalho.

A pressão é, por isso, elevada de ambos os lados, e já forçou alertas por parte de Christine Lagarde, governadora do BCE, que reforça a necessidade destes apoios serem contidos e cirurgicamente focados nos segmentos mais vulneráveis. Mas, à medida que o descontentamento for crescendo, a probabilidade de os governos tomarem medidas mais abrangentes – aumentando o seu endividamento público – esse apelo pode acabar por tornar-se irresistível para alguns países, sobretudo onde existir menor taxa de poupança por parte das famílias, bem como elevados níveis de endividamento bancário.

Por último, o braço de ferro entre a necessidade de contração na política monetária e de pressão para incentivos fiscais poderão, também, estar na sustentabilidade das dívidas soberanas. A irresistível vontade dos governos em proteger a economia e as famílias poderá dar lugar a um maior endividamento público, que em alguns países (Itália ou Portugal) se encontram já em níveis bastante perigosos.

Esta é uma variável passível de causar fricção na Europa, onde o BCE mantém ainda ativo um programa de compras para conferir liquidez às emissões de dívida pública europeias – mesmo em ciclo de subida de taxas. Mas, ainda assim, as emissões dos países mais em risco na Europa – sobretudo a Itália – têm vindo a registar subidas dos seus prémios de risco.

Um contexto que poderá forçar uma discussão séria entre um pouco provável aumento dos programas de compras para evitar uma nova crise das dívidas soberanas europeias, e a necessidade de expansão orçamental por parte dos governos, para controlar o descontentamento social e proteger as economias em 2023.

‘Bottoms’ up’: delicada combinação de estímulos e taxas elevadas

A solução deste complexo braço de ferro não é simples. Contudo, o mundo financeiro já teve de enfrentar desafios destes antes.

Numa primeira resposta, a coordenação entre política monetária e fiscal tem sido a chave para resolver as maiores ameaças que o mundo sofreu na ultima década. Só que, nesta fase, há menor espaço para colocar enormes programas de incentivo às economias, tal como há menor espaço para uma coordenação global em virtude da escalada dos conflitos regionais e de impasses de cariz geopolítico.

Acresce que existe uma crise com o custo de vida que tomou conta de muitos países e geografias, e o aumento da pobreza é de facto uma ameaça que deve ter sida em conta em 2023. Na verdade, existe pouca capacidade fiscal para compensar os déficits que vão surgir nos orçamentos familiares, e as tensões sociais poderão intensificar-se.

Na sequência deste empobrecimento, poderá registar-se uma pressão maior sobre os sistemas políticos, ao ponto de assumir um caráter tão grave como seja uma crise soberana, sobretudo na União Europeia. Se é certo que apenas uma forte resposta monetária poderá dar a devida rapidez no controlo a uma indesejada espiral inflacionista, ignorar a necessidade de resposta fiscal pode também ser um erro com custos significativos para a democracia, que enfrenta atualmente desafios de monta.

Há, por isso, que procurar os equilíbrios que funcionem para o mundo financeiro, mas também para o mundo real.

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