Brasil

A Internet aproximou o Brasil e Portugal, como não acontecia desde pelo menos a década de 60. Portugal e Brasil tem um percurso ímpar na sua História. Desde a independência do Colossal Estado Sul-americano que ambos os países mantiveram uma proximidade cultural e social, porventura muito mais que económica, que não só resistiu às vagas migratórias como se solidificou com estas.

Os meus miúdos têm andado preocupados com a nova Diretiva comunitária que procede à revisão dos direitos de autor no espaço online europeu. Não, com 11 e (quase) 9 anos, o meu Tomás e a minha Júlia não têm precocidade anormal em termos de consciência cívica e social. São “apenas” miúdos, o que só por si encerra algo enorme. A verdade é que os meus filhos são crianças do seu tempo, deste tempo, logo ávidos consumidores do Youtube, e fãs dos principais youtubers. E estes, que provavelmente têm mais influência na nossa descendência do que a prudência aconselharia, têm estado histéricos sobre os artigos 11º e 13º da Diretiva acima referida, com as habituais frases de alarme. Desta feita “a internet pode mesmo acabar”, dizem as estrelas mediáticas contemporâneas. Bem.. claro que isso não vai acontecer. Em princípio é uma medida positiva, ainda que não esconda que me diverti com o longuíssimo vídeo de Filipe Neto, o maior youtuber brasileiro (28 milhões de seguidores) numa acalorada resposta à minha amiga Sofia Colares Alves, chefe da representação da Comissão Europeia em Portugal. Sim, porque esta Diretiva, como tudo o que emana da UE, reúne a atenção do resto do mundo, e tem, na maior parte da vezes, repercussão além-Atlântico e além-Urais. Não vou desenvolver muitas considerações sobre a Diretiva, mas uma conversa entre escola e casa, com o meu filho de onze anos e o meu sobrinho de 10, fez-me pensar no “diabo nos detalhes” que esta medida, como outras, sempre pode carregar.

Falava-me o Tomás sobre o tema, quando o meu sobrinho me questiona sobre consequências práticas. Começámos os três a conjeturar, estrada fora, uma situação perversa decorrente do novo enquadramento legal. “imaginemos” – avanço eu – “um vídeo sobre…”, “O Pinto da Costa!”, respondem num surpreendente e telepático uníssono os dois petizes. “Muito bem”, avanço eu, “Imaginemos um vídeo onde um youtuber, ou um comediante, goza com factos da vida desportiva ou pessoal do Pinto da Costa, utilizando a prerrogativa informal de fazer comédia com figuras indiscutivelmente públicas”, proponho. “ Imaginemos agora que o histórico líder não gostava do conteúdo ou da forma como era caricaturado e decidia exigir o apagamento do vídeo, não pela substância – o argumento da paródia – mas porque no vídeo era utilizada uma música, um quadro, uma marca, cujos direitos de autor não tivessem sido convenientemente salvaguardados”. Os dois rapazes logo entenderam que “um truque, um expediente”, algo acessório, eventualmente possibilitará que se censure um conteúdo que não gostamos, e que pouco ou nada terá que ver com o objecto da queixa. Esta caso leva-nos igualmente a perceber que….

2 – … A Internet aproximou o Brasil e Portugal, como não acontecia desde pelo menos a década de 60. Portugal e Brasil tem um percurso ímpar na sua História. Desde a independência do Colossal Estado Sul-americano que ambos os países mantiveram uma proximidade cultural e social, porventura muito mais que económica, que não só resistiu às vagas migratórias como se solidificou com estas.

Até ao fim das suas monarquias uniu-os uma família real comum, a que se juntou, antes e depois desse momento, um entendimento entre agentes da cultura. Na verdade, até aos anos 60, e não obstante a distância oceânica entre as margens, aquilo que se fazia no Brasil tinha eco em Portugal e vice-versa. A que se sucedeu um longo período de influência num só sentido, de lá para cá, incorporando o povo português no seu vocabulário, hábitos e cultura aquilo que via e revia nas revolucionárias novelas ou na contagiante MPB. De cá para lá, nada. Os Brasileiros deixaram de perceber o nosso “sotaque” (e para não parafrasear Saramago quando, com sobranceria, reagiu a uma plateia que não o entendia, dizendo “a Língua é minha, o sotaque e o problema são vossos”, por aqui me fico), achavam-nos de bigode, homens e mulheres, agarrados ao fado e à sardinha assada. A Internet, e as novas migrações que ocorreram em ambos os sentidos nos últimos 10 anos, tudo mudaram. No caso dos Youtubers brasileiros, eles vêem Portugal como a Europa. A “sua” Europa. A Europa que eles entendem e que, sobretudo, os entende. Não .. os tempos do “oi? não entendi!” não estão completamente para trás, mas os miúdos de ambos os lados do Atlântico estão mais próximos do que nunca.

É uma história incrível a que estas duas “terras de nosso Senhor” têm como património comum. Relembremos que após a fuga da Corte Lisboeta para o Rio, no idos de 1808, e da criação do Reino Unido de Portugal e Algarves no Rio, o que fez do Portugal o primeiro império Europeu com capital fora da Europa em 1815, no rescaldo da derrota Bonapartista, os dois territórios Lusófonos viveram um intrincado novelo que só em culturas com as nossas características comuns tal seria possível. Um Príncipe , D. Pedro, que lidera a independência do Brasil, tornando-se seu Imperador, e que regressa para ser Rei de Portugal, na prática por duas vezes? E um Rei de Portugal, seu pai D. João VI, que perde esse território imenso, para posteriormente tornar-se seu imperador , ainda que por pouco tempo , por troca com o seu filho? Alguém imagina tal acontecer em outros países? Daí que seja tão relevante a exposição de 60 itens, maioritariamente pinturas do rei, que evoca os 200 anos da coroação de D. João VI, o primeiro monarca europeu a ser coroado fora do velho Continente, a decorrer no MHN – Museu Histórico Nacional , no Rio de Janeiro. Uma efeméride que tem passado à margem em terras lusas mas que urge corrigir.

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