Brasil, um desafio imenso pela frente

Em “Viagem ao País do Futuro”, a autora Isabel Lucas traça um roteiro de descoberta da identidade do Brasil a partir da literatura brasileira.

Em “Viagem ao País do Futuro”, a autora Isabel Lucas traça um roteiro de descoberta da identidade do Brasil a partir da literatura brasileira. Através de obras de escritores tão diversos como Raduan Nassar, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, João Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Milton Hatoum, Mário de Andrade, Lygia Fagundes Telles e muitos outros, viaja pelos estados do Brasil, numa revisitação das suas obras e respectivas temáticas, indo em busca de uma ideia de Brasil a partir das suas vozes literárias.

De entre as muitas vozes que são convidadas a refletir na sua obra sobre a história do Brasil e a formação da sua cultura e identidade encontra-se a autora e historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Foi por ter ficado encantada com as reflexões de Schwarcz que não hesitei em adquirir a sua mais recente obra, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro, uma breve História de Cinco Séculos”. Recomendo fortemente pelo retrato muito claro e lúcido de um país absolutamente fraturado pelo racismo, pela desigualdade social, pela violência, pelo sistema da escravatura, pela intolerância.

Para os “gringos”, o Brasil será sempre um mistério denso. A sua riqueza histórica e cultural é imensa e frequentemente mal compreendida. E no entanto, desde o período colonial até à República, o país tem convivido de perto com manifestações autoritárias e de violência que ecoam a atualidade.

Mesmo com eleições e o normal funcionamento das instituições democráticas, a proximidade ao autoritarismo manifesta-se pela nostalgia do tempo da ditadura, com um passado mitificado (muitas vezes criado por governos autoritários), pelo culto da personalidade da liderança política, pela concentração de rendimentos e desigualdade, pelos ataques constantes aos direitos das minorias – indígenas, homens e mulheres negros, LGBTQI+, pela doutrinação ideológica assente na matriz cristã, como se fosse a única a ser respeitada, pelo culto da violência, todos estes aspetos que desgastam os pilares da democracia e a colocam numa posição de enorme fragilidade.

O Brasil enfrenta, no momento presente, um momento decisivo. Numa altura em que os anos de Bolsonarismo criaram profundas divisões na sociedade, com a democracia sob constante ataque e os seus jornalistas, artistas e ativistas a serem perseguidos, as eleições de 2 de outubro podem forjar o futuro do Brasil. E qual o caminho que será escolhido pelos seus cidadãos e cidadãs? Os candidatos não poderiam ser mais diferentes: Jair Bolsonaro e Lula da Silva (com sondagens a mostrarem avanço de Lula da SIlva na primeira volta), que regressa às lides políticas depois de um período conturbado que levou à sua prisão por mais de 1 ano, após um julgamento parcial encetado pelo juiz Sérgio Moro.

A crise de identidade que o Brasil vive não se limita às suas fronteiras. A sua polarização é também o reflexo da crise global que vivemos. Mas se não queremos que o Brasil fique associado ao rosto mais feio de tudo o que Bolsonaro representa, se queremos que os seus artistas, escritores e jornalistas floresçam, então há que resistir e encontrar a esperança num país feito de tantas camadas complexas e fascinantes. Que o Brasil saiba transformar esta crise no início de uma nova etapa.

 

 

 

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