Cabo Verde. Primeiro-ministro pede aos jovens para não emigrarem

O primeiro-ministro cabo-verdiano afirmou hoje que não há motivos para emigração por falta de oportunidades, apesar da crise, e que investimentos como a expansão do porto na ilha do Maio permitem fixar os jovens.

“Cada investimento deste tipo tem que abrir portas de esperança e de confiança, principalmente para os jovens. Não há razões para sair de Cabo Verde, para emigração forçada por falta de oportunidades. Temos que criar todas as razões para os nossos jovens ficarem em Cabo Verde e investirem em Cabo Verde, acreditarem neste país e fazerem este país acontecer. E Maio pode fazer a diferença”, afirmou Ulisses Correia e Silva.

Ao intervir hoje na inauguração da obra de reabilitação do Porto Inglês, na ilha do Maio, uma das maiores empreitadas públicas em curso no país, a cargo desde 2019 da Teixeira Duarte, em consórcio com outra empresa portuguesa e uma cabo-verdiana, no valor de 36 milhões de euros, o chefe do Governo reconheceu os impactos das crises provocadas pelos sucessivos anos de seca, da pandemia de covid-19 e agora pela subida de preços devido à guerra na Ucrânia.

“Estamos a recuperar, a relançar. Depois vamos ter que tornar este país muito mais resiliente, com uma economia muito mais diversificada e com o sentido do futuro (…) Tempos difíceis não duram para sempre. Há de passar e havemos de ser felizes novamente”, disse ainda.

A ilha do Maio conta com cerca de 7.000 habitantes, sendo a terceira menos populosa do arquipélago e emblemática pela atividade de extração de sal desde o século XVII. Apesar de se encontrar junto à Praia, capital do país, a falta de condições no porto – como a rampa ‘roll-on/rool-off’ agora colocada – impedia o incremento desta relação de proximidade, desde logo ao nível do turismo, mas também no escoamento de produtos para um mercado com mais de 200 mil pessoas (ilha vizinha de Santiago).

De acordo com as estimativas apresentadas hoje, a obra vai permitir movimentar 100 mil passageiros por via marítima na ilha do Maio já em 2025, o triplo do registo atual, operando dois navios em simultâneo e reduzindo de três para uma hora o tempo da viagem à cidade da Praia.

“Há investimentos que mudam a vida das pessoas e mudam a vida da economia. A expansão e modernização do Porto Inglês é um desses momentos. Um verdadeiro corredor marítimo que abre portas marítimas entre a Praia, o resto de Cabo Verde e a ilha do Maio”, destacou Ulisses Correia e Silva.

O arquipélago enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turística – setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do arquipélago – desde março de 2020, devido à pandemia de covid-19.

Em 2020, registou uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, seguindo-se um crescimento de 7% em 2021 impulsionado pela retoma da procura turística. Para 2022, devido às consequências económicas da guerra na Ucrânia, nomeadamente a escalada de preços, o Governo cabo-verdiano baixou a previsão de crescimento de 6% para 4%.

O primeiro-ministro sublinhou o impacto da obra no porto do Maio para a “mobilidade de pessoas, na movimentação de cargas e mercadorias, na redução do tempo, comodidade da viagem”, mas também “nas operações portuárias, embarque e desembarque, carga, descarga”.

“Tudo mais facilitado. Basta ver aquilo que nós temos entre Santo Antão e São Vicente [a linha mais movimentada do país], duas ilhas que se conectam pelo mar e que se conectam com a mobilidade de pessoas, com mercadorias e com mobilidade da economia. E é isto que representa este investimento: Maio conectado com o resto do país e Maio conectado com o resto do mundo. Há momentos que marcam a diferença na construção de futuro. Este é, de facto, o momento da ilha do Maio”, disse ainda.

A obra foi financiada em 50% (17,8 milhões de euros) pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), em 30% pela União Europeia (11 milhões de euros) e 20% (7,8 milhões de euros) pelo Estado de Cabo Verde.

“Gostaria de agradecer a boa parceria do BAD e da União Europeia, que são instituições com vocações diferentes, mas que têm feito boas parcerias. Boas parcerias e com alguns exemplos em áreas fundamentais para Cabo Verde”, reconheceu Ulisses Correia e Silva, enfatizando a abertura ao investimento externo, nomeadamente no turismo.

“Eu sei que nós somos um povo aberto. Nós somos um povo que acolhe bem e nós queremos investimentos. Todos estão convidados a investir em Cabo Verde e na ilha do Maio. Maio tem um grande potencial no desenvolvimento do turismo. Mas um turismo sustentável, num bom equilíbrio entre a natureza, o ambiente e a economia. E vamos transformar esse potencial em realidade”, apontou.

A obra integra o projeto de “Expansão e modernização dos portos Inglês (ilha de Maio) e da Palmeira (ilha do Sal)” e foi realizada pelas portuguesas Teixeira Duarte (37%) e SETH Sociedade de Empreitadas (33%), em conjunto com Armando Cunha Cabo Verde SA (30%).

Presente na inauguração, o presidente do BAD, Akinwumi Adesina, destacou o exemplo de governação e democracia de Cabo Verde no continente e o facto de a instituição já ter financiado 600 milhões de dólares (cerca de 603 milhões de euros) em projetos estruturantes no arquipélago desde 1997, como a do porto do Maio: “Vai expandir a economia do Maio, escoar a produção, transformar a cara da economia. Vai ser também um grande ativo para o resto do país e impulsionar o turismo”.

“A modernização e a expansão do Porto Inglês faz parte dos investimentos que vão ajudar Cabo Verde a recuperar a sua rota de crescimento. A obra constitui um ponto de viragem na ligação da ilha à cidade da Praia e ao seu aeroporto, libertando o seu potencial e permitindo riqueza nacional através da expansão de um modelo de turismo sustentável”, reconheceu o diretor para a Política de Desenvolvimento Sustentável da Comissão Europeia, Félix Fernandéz-Show, esperando que só esta obra “venha a gerar centenas de postos de trabalho” na ilha.

Acrescentou que Cabo Verde “é um país que cumpre o que promete” e “onde os investimentos são traduzidos em resultados em que os parceiros internacionais podem confiar”.

Com as obras, o porto vai ter 350 metros de cumprimento, uma profundidade variável até 15 metros, duas rampas para navios ‘roll-on/roll-off’, quebra-mar de 150 metros, duplicação do terrapleno e instalação de uma rampa metálica ajustável às necessidades dos navios de pequeno porte e construção de uma nova estrada de acesso com 800 metros de comprimento.

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