Exige-se líder

É fundamental a CGD ter um líder à sua frente, porque sem uma Caixa robusta e credível Portugal será menor e o risco para os contribuintes maior.

Cartão do partido, cunha ou interesse mútuo (ex: um pau mandado para efectuar ou permitir negociatas), a pomposidade do nome ou cargo que ocupa e por último (se não estorvar) o mérito, é esta a hierarquia dos factores decisivos no recrutamento em Portugal, com especial ênfase na administração pública, mas não em exclusivo. Admitindo que o ainda presidente executivo da CGD não tenha sido escolhido por interesses partidários, é certo porém que não o foi devido ao mérito. A leviandade com que o processo da recapitalização e reestruturação do maior banco nacional tem sido brindado é, com um enredo diferente, equivalente aos quatro anos do governo PàF, que deliberadamente prejudicou a Caixa pelo interesse eleitoralista de não aumentar o deficit e da sua privatização futura.

Portugal tem diversos cargos empresariais da maior importância, que podem ser ocupados por algumas dezenas de gestores, contudo a CGD é um caso excepcional. Para além de ser o maior banco nacional é igualmente público, o que faz com que os candidatos à sua presidência executiva tenham que ser não de primeira linha, mas sim excepcionais e com uma inegável capacidade de liderança. Isso reduz a lista a dois ou três gestores que, para além da enorme valia técnica, conquistaram o topo pelo seu trabalho e detêm a imprescindível experiência em liderar. António Simões (HSBC) é um deles, no entanto Horta Osório (Lloyds) é sem dúvida a escolha ideal, pelo simples facto de ter a experiência inegavelmente bem-sucedida de presidir a um banco alvo de uma recapitalização pública.

António Domingues apesar de quase três décadas no BPI, um banco muito menor que a CGD, nunca carregou o fardo dos holofotes da presidência executiva, esteve sempre na sombra de Fernando Ulrich. Se o leitor não acha isso significativo, lanço o desafio: lembra-se de quem eram os vice-presidentes ou os segundos na hierarquia dos maiores falhanços de gestão em Portugal? BES, Banif, BPN, BPP ou PT? Dos novos candidatos ao cargo fala-se de Nuno Amado, como se a história da sua gestão no BCP não fosse uma tragicomédia em que o maior banco privado vale meia dúzia de “tostões”, ou Paulo Macedo, como se ter sido administrador do BCP, ministro da Saúde e Director-Geral dos impostos fossem valências suficientes para tratar da saúde da Caixa com o dinheiro dos nossos impostos. Ou ainda Carlos Tavares, uma perfeita nulidade, repito, nulidade, à frente do regulador CMVM.

António Costa começou bem ao assumir o problema da CGD, mas desde então tem sido sempre a descer. Pedro Lino, aquando da resolução do BES, afirmou, e bem, que a PàF conseguiu destruir o mercado de capitais como nunca o PCP se atreveria. No caso da Caixa, a geringonça conseguiu destruir a importância e a salvaguarda de uma CGD pública numa dimensão que nem a PàF se atreveu.

Chega de amadorismos ou promiscuidades com assuntos sérios. Apelo a que António Costa demonstre a mesma eficácia que alcançou ao formar e segurar a geringonça, conseguindo que Horta Osório, António Simões ou outro de nível similar, aceite uma proposta indecente – trocar os milhões e a respeitabilidade que hoje usufruem por um desígnio nacional e patriótico, certamente denso de complexidades políticas. É fundamental a CGD ter um líder à sua frente, porque sem uma Caixa robusta e credível Portugal será menor e o risco para os contribuintes maior.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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