Calçar os sapatos dos portugueses e as taxas de juro

Enfrentamos uma combinação demasiado única e potencialmente tão nociva que os governantes e reguladores terão de tentar fazer mais do que negar publicamente o que aí vem

Um dos temas mais relevantes na gestão das sociedades, das instituições, ou das empresas, é a necessidade de os decisores, sejam eles políticos ou gestores, dedicarem algum do seu tempo a calçarem, em sentido figurado, os sapatos dos seus clientes, trabalhadores ou eleitores.

Não é por acaso que retalhistas, companhias aéreas, cadeias de comida rápida, para citar apenas alguns exemplos, têm programas que colocam, regularmente, os seus gestores e executivos em atendimento direto e presencial aos clientes.

É unânime notar que representa uma mais-valia perceber o que pensam os clientes, quais as suas expectativas e como se comportam. Talvez se justifique ter menos uma reunião interna semanal e em alternativa dedicar algumas horas ao contacto e à observação dos clientes. Será por decerto uma forma de melhor gerir e de se diferenciar dos concorrentes, demasiado envolvidos em processos internos e presos numa armadilha de processos de decisão onde todos pensam da mesma maneira, provêm dos mesmos estratos sociais, possuem níveis de rendimento equivalentes e por aí adiante.

Estas observações são válidas igualmente para que os decisores dediquem algum tempo a perceber os seus trabalhadores e os demais afetados pelas suas opiniões e decisões, incluindo os decisores políticos, no âmbito das suas declarações e das suas medidas que impactam na vida dos cidadãos.

Vem isto a propósito de recentes declarações do governador do Banco de Portugal e do ministro das Finanças. Embora reconhecendo que a alta das taxas de juro (Euribor) trará dificuldades às famílias que tenham crédito à habitação, um e outro referiram que a subida dos encargos mensais será previsivelmente mais baixa do que a aquela que ocorreu há uma década, no rescaldo da crise financeira desencadeada pelo colapso das hipotecas subprime nos EUA.

Permitam-me discordar. Primeiro, porque a subida das taxas de referência (Euribor) está a ser mais rápida que aquilo que foi antecipado há apenas um mês atrás. Depois, e muito importante, porque o mercado imobiliário residencial português sofre de três efeitos muito específicos.

A saber: os preços em Portugal subiram de forma expressiva de 2019 a 2022 (29% de aumento, neste período, quase seis vezes mais que em Espanha); a extrema velocidade com que as prestações de crédito à habitação sobem por efeitos da Euribor (e em Portugal a quase totalidade dos empréstimos à habitação são de taxa variável), em contraste com economias da Europa Central, do Reino Unido ou dos EUA, onde predominam as taxas fixas; e, finalmente, o rácio de endividamento líquido (muito concentrado em crédito à habitação) das famílias portuguesas, em percentagem do seu rendimento líquido é de 126% (sendo de 91% em Itália, 102% na Alemanha ou 106% em Espanha, por exemplo), acima de vários outros países relevantes na UE.

Dito de forma muito clara, enfrentamos uma combinação demasiado única e potencialmente tão nociva que os governantes e reguladores terão de tentar fazer mais do que negar publicamente o que aí vem. Até porque desta vez o problema é mais português que espanhol, italiano, francês ou alemão. Esperar passivamente pela solidariedade, ou por soluções europeias, talvez seja descuidado.

O senhor ministro e o senhor governador deveriam calçar os sapatos do cidadão comum, quanto antes, para assegurar o menor dano possível às famílias e aos bancos credores.

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