Calma, que vão dizer sim

António Costa venceu as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015 com uma maioria absoluta de 190 deputados. Calma, que vão dizer sim. O líder socialista conseguiu ainda uma segunda vitória: o Presidente da República chamou depois o líder do PSD para formar governo, ficando o PS como o “fiel de balança”. O secretário-geral […]

António Costa venceu as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015 com uma maioria absoluta de 190 deputados. Calma, que vão dizer sim. O líder socialista conseguiu ainda uma segunda vitória: o Presidente da República chamou depois o líder do PSD para formar governo, ficando o PS como o “fiel de balança”.

O secretário-geral socialista revelou-se assim um estratega político de primeira água. Afinal, ele, que é militante socialista desde os 14 anos, viu muitas vezes como se ganham e perdem eleições e sabe bem o que custa governar. E governar nesta altura é algo que poucos querem fazer. Por isso, António Costa vai poder dirigir Portugal sem parecer que o está a fazer! Podem perguntar se o PS vai ter um governo de esquerda. Por favor, não me façam rir. O PS é um partido “responsável”, tem um “programa” e não vai apoiar “maiorias do contra”.

O líder do PS deixou isso claro na noite das eleições. Primeiro, houve aquele momento do discurso em que parecia que ia anunciar a demissão e a plateia começou a clamar “não, não”, até que o líder, benzido, pujante e confiante, pediu calma e avisou que iriam dizer “sim” ao que ele ia anunciar. E sim, António Costa atingiu o seu objectivo. Percebeu-se, finalmente, a táctica de campanha do homem que fez tudo certo para perder eleições: ele queria ter menos deputados do que a coligação junta, mas ser capaz de integrar um governo de maioria absoluta com PSD e CDS sem a responsabilidade de ter de o liderar ou estar representado no executivo.

Basta recordar que esse era o plano que Cavaco Silva tinha pedido a António José Seguro aquando da crise “irrevogável” de Paulo Portas no Verão de 2013. Se António Costa não tivesse aproveitado o resultado das eleições Europeias de maio de 2014 para avançar para a liderança do PS, de repente teríamos Seguro como primeiro-ministro e isso seria o fim do PS, que era obrigado a governar.

Assim, António Costa pode gerir S. Bento desde o Largo do Rato. E isso é algo que o PSD e CDS concordam, pois a solução permite-lhes manter os empregos do “aparelho”. Reparem que dentro dos partidos da coligação ninguém pediu a cabeça dos líderes Passos Coelho e Paulo Portas. E havia bons motivos para isso, visto que ambos tiveram uma derrota estrondosa. Afinal, Passos e Portas clamavam que tinham salvo Portugal dos descalabro financeiro, regularizaram as contas, mandaram a Troika embora e alertaram para o facto de que não podíamos regressar ao passado dos tempos do PS de Sócrates e desperdiçar o sacrifício que os portugueses fizeram nos últimos quatro anos.

Apesar destes apelos, perderam deputados, perderam a maioria absoluta que justificava a sua coligação e tiveram de entregar o poder a António Costa. Pior: ficaram com a responsabilidade de continuar a governar, sem a possibilidade de fazer oposição desde a bancada da oposição. Essa está entregue a apenas 36 deputados da esquerda comunista e radical.

No meio deste cenário, Marinho Pinto e Rui Tavares não foram eleitos apesar da cobertura mediática permanente. Há ainda o PAN, que é um partido com valores e que pode ser o único com o valor acrescentado de ser um “outsider” na política. Quanto a mim, que fui candidato pelo MPT, posso dizer que, pelo menos, não precisei de me despir para termos mais votos do que outros.

Temo é pelo crescimento da extrema-direita. Acho algo anacrónico que um partido que se diz nacionalista e português seja xenófobo, quando todo o português sabe que somos cidadãos do mundo e de cultura universal. Assim, estamos agora entregues ao poder dos mercados dos senhores do mundo, que governa sem oposição.

Por Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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