Cantar Natália Correia, uma homenagem que antecipa o centenário do nascimento da escritora

Em 2023 celebra-se o centenário de Natália Correia, vulcão literário e mulher de causas. A urgência sempre lhe correu nas veias. A urgência de partilhar a sua visão do mundo. E por ser urgente recordá-la e ao poder das suas palavras, dia 22 de novembro, um grupo de cantoras portuguesas sobre ao palco da Aula Magna, em Lisboa, para uma homenagem.

“Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.”

Se outros versos poderosos de Natália Correia vêm imediatamente à memória, este é um dos que sintetiza de forma subliminar a sua acutilância e fina ironia. E convocamos ainda outros versos deste poema, “A defesa do poeta”, publicado em “A mosca iluminada” (1972) para homenagear Natália: “Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão”.

É por esse fogo e paixão que no dia 22 de novembro, na Aula Magna em Lisboa, um grupo de artistas desafiados pela Sociedade Portuguesa de Autores vai apresentar um concerto em antecipação do aniversário dos cem anos do nascimento de Natália Correia, que se assinala em 2023. “Será um concerto inteiramente alicerçado na poesia de Natália Correia, único na sua estética, e onde a Mulher tem o protagonismo”, lê-se no comunicado.

A conceção artística e musical é da responsabilidade do produtor e compositor Renato Júnior, que musicou alguns dos poemas mais emblemáticos da escritora e convidou algumas das melhores vozes femininas para os interpretar. Ana Bacalhau, Áurea, Amélia Muge, Elisa Rodrigues, Katia Guerreiro, Mafalda Veiga, Patrícia Antunes, Patrícia Silveira, Maria João, Rita Redshoes, Sofia Escobar e Viviane vão subir ao palco no dia 22 de novembro. As interpretações que serão apresentadas em concerto serão parte integrante de um novo álbum a editar no início do próximo ano.

Um vulcão chamado Natália Correia

Nasceu Natália de Oliveira Correia a 13 de setembro de 1923 na ilha de São Miguel, Açores. O pai emigrou para o Brasil ainda Natália era criança, e a mãe mudou-se para Lisboa com ela e a irmã. A insularidade tornou-se uma linha de força na sua carreira literária, ou melhor, como poetisa, como sempre gostou de se definir. Poetisa sim, mas sempre polivalente naquilo que escrevia. Do romance às peças de teatro, passando pelos ensaios, a sua vida literária estendeu-se também ao “outro lado”, o de editora. Foi feliz, disse um dia, como editora e coordenadora da Editora Arcádia. Experiência que se revelou particularmente relevante quando chegou à televisão (RTP), onde criou e apresentou o programa “Mátria”, que a própria definia como uma forma de sublinhar a liberdade íntima da Mulher e o seu papel na definição do que é a humanidade.

Figura marcante da cultura e da literatura portuguesas contemporâneas, Natália Correia manteve sempre uma posição de independência relativamente a modelos e movimentos literários, e distinguiu-se também pela sua atividade política, exercendo o cargo de deputada à Assembleia da República com a mesma irreverência que marcou toda a sua vida. Ao ponto de ver a sua ousadia verbal e temática censurada durante o regime salazarista, ao ser impedida de publicar algumas obras, como as peças “A Pécora” e “O Encoberto”, violentas desmistificações de alguns dos mitos nacionais.

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