Capitalistas somos todos, sem excepção

O meu desejo de Natal este ano é por muito mais consciencialização, por muito mais activismo de repúdio pelo polvo da política, dos aparelhos e das suas claques.

Raríssimas, Tancos, Incêndios, Viagens ao Euro, Tecnoforma, Submarinos, Swaps, Sócrates… serão estes casos muito diferentes do BES, GES, PT, BANIF, CGD, BPP, BPN? Não! Aliás, são mesmo muito semelhantes em quase tudo o que importa:

1º Não houve qualquer tipo de prevenção, supervisão ou regulação que os impedisse.

2º Depois de muita espuma, nada de realmente efectivo e eficaz foi criado para impedir que os mesmos possam ocorrer de novo.

3º Seja qual for o caso, em nenhum deles existe qualquer culpado e condenado que esteja a cumprir pena efectiva.

4º, e mais importante, TODOS derivam de um pecado humano, a ganância, nem mais nem menos. A ganância por dinheiro, ou por poder, que trará dinheiro ou o salvaguardará.

Então, por que razão nos “segundos” casos a culpa é bem identificada e reside no Capitalismo, enquanto nos “primeiros” é sempre abstracta e quanto muito política ou pessoal? Será para alguns confortável ter um alvo para críticas que não responda? Será que para outros importa redireccionar afastando a ganância como causa, porque todos, sem excepção, já a exercemos, em menor ou maior dimensão, e que por instinto proteccionista preferimos não criticar algo a que estivemos, estamos e estaremos ligados, enquanto condição intrínseca do ser humano?

Mas o curioso é que se opta por criticar algo ao qual todos estamos ligados, o Capitalismo, quiçá críticas por desconhecimento. O Capitalismo é na sua forma singela o acto de rentabilizar capital. Capital que erradamente se assume é apenas financeiro, quando, na realidade, diz respeito a todo o capital, como o humano por exemplo. Ou seja, todo o trabalho, intelectual e/ou manual, é uma forma de Capitalismo, é a rentabilização de uma capacidade para a obtenção de capital financeiro, e mesmo quando a retribuição financeira não existe, temos sempre algo em troca, como a satisfação pessoal, logo, o capital humano foi à mesma rentabilizado.

Quer isto dizer que somos todos Capitalistas. Sim, todos, mesmo os que estão “contra”, não acreditam e criticam diariamente algo que exercem inconscientemente ou não. Mas os casos acontecem, os erros e os ilícitos sucedem-se. Então, de quem é a culpa? De novo, da ganância individual de cada um, que lhes atropela os princípios de vida e que reescreve os desígnios  de boa fé da rentabilização de uma capacidade para obter benefícios ilegítimos à custa de outros, resultando, em muitos casos, na colocação de incompetentes em cargos importantes, pelo mero facto de serem do grupo no poder actual ou potencialmente no futuro.

Não é, nem nunca poderia ser o Capitalismo a moldar ou forçar comportamentos ilícitos e abusivos, pelo simples facto de, como referi, se tratar da “simples” rentabilização de um capital. O que vem depois, a forma e os instrumentos para o rentabilizar, é de análise mais complexa, e é da complexidade de comportamentos que surgem as oportunidades para os aproveitadores e os seus esquemas, enquanto que os críticos as aproveitam para, na maioria dos casos, ganhos políticos.

É verosímil criticar a condução pelos erros dos condutores? Não será mais justo e lógico criticar o defeito humano intrínseco que leva a cada um desses erros? Vamos acabar com a condução por causa de alguns maus comportamentos ao volante?

Resumindo, caro leitor, não culpe o Capitalismo por um erro humano, culpe sim a total falta de responsabilização desses erros, nomeadamente no campo político, porque é dele que advém a semente de quase todos os ilícitos, política que está entranhada na economia nacional, seja ela pública ou privada. As privatizações apenas mudaram a semântica do debate, porque os maus gestores continuam lá, a corrupção continua bem viva, as portas giratórias oleadas como nunca.

Por isso, o meu desejo de Natal este ano é por muito mais consciencialização, por muito mais mea culpa, por muito mais activismo de repúdio pelo polvo da política, dos aparelhos e das suas claques. Não deixemos a podridão e mediocridade continuar a ser o statu quo transversalmente aceite. É dever dos pais deixar um mundo melhor, neste caso um país melhor, para os seus filhos. Mas será que é isso que estamos a fazer? Pense nisso da próxima vez que olhar para o lado quando for um dos da sua cor política a cometer um ilícito, ou simplesmente a ter um comportamento eticamente reprovável. Desligue os programas da bola e esqueça os faits divers que lhe entorpecem o espírito e ligue a consciência da cidadania activa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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