Carlos Costa recomenda que banqueiros leiam capítulo sobre como a banca foi salva no tempo da troika

“Orgulho-me de ter defendido o sistema bancário nacional contra ventos e marés”, disse o ex-Governador do Banco de Portugal em resposta à reação dos banqueiros ao livro sobre os seus dois mandatos à frente do banco central. Os bancos estiveram à beira de ser nacionalizados em 2011, revelou.

O Ex-Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, numa entrevista de Maria João Avillez na CNN, revelou que a troika queria “nacionalizar a banca portuguesa” ou “vender” ao desbarato os bancos a investidores estrangeiros.

Numa resposta às declarações dos representantes dos cinco maiores bancos – José João Guilherme, administrador da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Mark Bourke, CEO do Novobanco; Pedro Castro e Almeida, CEO do Santander Totta e João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI – que desvalorizaram as revelações do livro de Luís Rosa e as revelações do ex-Governador no discurso de lançamento – Carlos Costa disse que “os banqueiros deviam ler pelo menos o capítulo que relata a proposta de estabilidade financeira feita pela troika”.

“O Banco de Portugal evitou uma nacionalização do sistema bancário”, disse Carlos Costa que explicou que a troika – chefiada em abril de 2011 por Jürgen Kröger (Comissão Europeia) e contando também com Poul Thomsen (FMI) e Rasmus Rüffer (BCE) e que se manteve em Portugal até 17 de maio de 2014 – queria aplicar o “modelo irlandês” à banca em Portugal.

O ex-Governador disse que “o modelo que estava a ser preconizado era uma nacionalização dos bancos ou a entrada de investidores estrangeiros ao desbarato”. Carlos Costa emocionado disse mesmo, “Orgulho-me de ter defendido o sistema bancário nacional contra ventos e marés”.

O ex-Governador do Banco de Portugal revelou na entrevista que escreveu uma carta a Christine Lagarde, atual presidente do BCE, e que faz o prefácio do livro “O Governador”. Nessa carta Carlos Costa manifestou-se contra o que a troika queria fazer à banca portuguesa. “Era uma medida incorreta”, disse.

Carlos Costa orgulha-se de ter conseguido que vingasse o método de auditoria externa em três fases, acompanhada por um “Steering” internacional.

“Os banqueiros deviam ler esse capítulo para perceberem que estiveram à beira do precipício”, afirmou Carlos Costa.

Recorde-se que esta semana os banqueiros disseram que não iam ler o livro. “Não li o livro nem tenciono ler”, disse ao Jornal Económico o antigo CEO do BPI, Fernando Ulrich, cujo banco está envolvido na polémica em torno das alegadas pressões exercidas sobre o ex-governador pelo primeiro-ministro António Costa, para impedir o Banco de Portugal de afastar Isabel dos Santos do conselho de administração do BIC, em 2016.

Também o CEO do BPI, João Pedro Oliveira e Costa, disse publicamente  que “não li, nem pretendo ler” acrescentando que “o que queremos é saber para onde ir”, e defendendo que o importante é olhar para o futuro. Uma posição relativamente consensual entre os banqueiros.

“Já houve comissões de inquérito, já houve pessoas que não tomaram Memofante, devemos passar à frente, a história está contada no sentido em que os bancos estão bem”, disse o CEO do BPI, que não vê nenhuma vantagem numa comissão de inquérito.

“Estamos preocupados em resolver problemas que vamos ter de enfrentar com os clientes”, disse o presidente do BPI, que acrescentou que “começar é de muitos, acabar é de poucos”.

O banco é citado no livro de Luís Rosa, “O Governador”, sobre os dez anos de Carlos Costa à frente do Banco de Portugal por causa da ex-acionista Isabel dos Santos, e também no SMS que o primeiro-ministro enviou a Carlos Costa recentemente a explicar o telefonema em 2016, dizendo que a referida “inoportunidade” do afastamento de Isabel dos Santos estaria relacionada com o processo de venda da participação da filha do ex-presidente angolano num outro banco, o BPI, ao espanhol CaixaBank.

“É a espuma dos dias. É agenda mediática”, disse, por sua vez José João Guilherme, administrador da Caixa Geral de Depósitos, que prefere olhar para o presente pois “a conversa sobre quem disse o quê não adianta nada”.

Também o CEO do Santander em Portugal disse que não vai ler “O Governador”. Recorde-se que o Santander comprou o “Banif bom”, no âmbito de uma medida de resolução aplicada no fim de 2015 e é um dos temas polémicos do livro.

Relativamente ao Santander ser citado no livro o CEO disse que ficou com a perceção que “cada um tem visões diferentes” dos factos. “Não tenho de ajustar contas com ninguém, nem sou político”, disse Pedro Castro e Almeida que admitiria ler um livro “sobre talento, sobre educação, sobre o futuro da banca, sobre inteligência artificial, sobre cibersegurança, agora não vou investir nestas questões”.

O presidente do Millennium, Miguel Maya, admite que vai ler “o livro nos jornais e eventualmente a parte que ao BCP diz respeito”. Mas recusa fazer comentários sobre a polémica dos últimas dias.

Miguel Maya acentua “outra perspetiva” que é a de frisar que “a questão não é se há pressões, é se somos independentes para resistir às pressões e eu não tenho uma dúvida que sou independente para resistir às pressões”.

“As pessoas são donas das suas palavras”, frisou o presidente do BCP.

Mark Bourke, do Novobanco também sublinhou que não leu o livro (que só existe em português) que “o que queremos é saber para onde ir, não é recuperar o passado”.

Na entrevista Carlos Costa reconheceu que a banca hoje está mais robusta do que em 2011. A propriedade de capital, defende, tem de ser secundária, referindo-se ao capital estrangeiro na banca. “Precisamos de um banco português forte porque num período de crise a tendência é para os bancos concentrarem a sua atividade junto das casas-mães”, disse o ex-Governador que elogiou o facto de a CGD estar bem capitalizada.

“Os bancos que temos hoje responderam muito bem do ponto de vista da análise de risco e espero que não comentam o erros que cometeram entre 1995 e 2010 em termos de risco”, disse Carlos Costa.

Idoneidade não pode ser moeda de troca

O ex-Governador do BdP voltou a relatar o telefonema do primeiro-ministro António Costa, duas horas depois da reunião que tinha tido com Isabel dos Santos e Fernando Teles, para lhes dizer que não reuniam condições de idoneidade para serem administradores do EuroBic. O telefonema de António Costa foi  “curto e agreste” mostrando que estava visivelmente irritado. Segundo Carlos Costa, António Costa telefonou ao Governador em 2016 a dizer que “não admito que se trate assim a filha de um presidente de um país amigo de Portugal”.

“O telefonema foi muito curto mas foi muito irritado, achando que eu não podia tratar a senhora desta forma“, disse. Carlos Costa, apesar da chamada do primeiro-ministro, fez o que tinha de fazer e retirou a idoneidade “à filha de um presidente de um país amigo de Portugal”.

Sobre o SMS que António Costa mandou recentemente a Carlos Costa, o ex-Governador revelou que o primeiro-ministro contextualizou que era “inoportuna a decisão” de afastar Isabel dos Santos do BIC, dado que nessa altura estava em curso o processo de venda da participação da empresária angolana no BPI. Ora o ex-Governador rejeita a uma ideia de tratar “a idoneidade como moeda de troca por outras situações envolvendo outros bancos”, numa alusão a um plano que estaria em curso para manter Isabel dos Santos na administração do BIC em troca de sair do capital do BPI. “A idoneidade ou se tem ou não se tem“, disse Carlos Costa: “As questões em curso no BPI eram legítimas mas não se podia argumentar com isso para a idoneidade no BIC”, afirma.

O ex-líder do Banco de Portugal falou ainda da carta que o primeiro-ministro enviou a Bruxelas em 2015 a dar conta de uma alegada “pré-resolução” do Banif e disse que não teve “conhecimento” da carta e só soube dela “através de amigos na Comissão Europeia“.

“Teria sido muito útil o primeiro-ministro falar comigo antes, ter-lhe-ia explicado que aquela fotografia não estava correta e a carta caiu com um grande splash quando chegou às autoridades europeias”, referiu Carlos Costa que considera que a carta “mostra uma grande desconfiança em relação ao sistema financeiro que eles vinham a acompanhar”

Carlos Costa lamentou ainda, na mesma entrevista, algumas ausências no lançamento do livro, o que na sua opinião “desiquilibrou a audiência”. Do PS só foi Fernando Teixeira dos Santos, de resto foi marcante a presença de Pedro Passos Coelho, de Luís Montenegro e de Aníbal Cavaco Silva, do PSD.

O presidente do Conselho Económico Social e socialista, Francisco Assis, foi a grande ausência e justificou ter falhado a apresentação do livro sobre o ex-governador Carlos Costa por não quer ser interpretado como hostilidade contra o primeiro-ministro.

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